Geração Mimmaddium

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Tati Bernardi, na Folha de S.Paulo

Contratei duas estagiárias. Paguei a elas o triplo do que eu ganhava com a mesma idade. Deixei que entrassem às onze da manhã, saíssem às cinco da tarde, passassem metade do dia almoçando e dessem as caras apenas três vezes por semana. Permiti cochilos no meu sofá, “momentos meditação” sempre que a casa caia e peidos com cheiro de hambúrguer de soja no meu banheiro.

Permiti que um feriado de dois dias virassem oito em Alto Paraíso, que candidíase fosse motivo para faltar, e que o pequeno detalhe “pais ricos pagando a porra toda” não borrasse o lindo discurso “só entro em projeto que tem a ver com a minha alma”. Tive que comprar torrada integral de arroz orgânico para o lanche da tarde.

Uma delas estava escrevendo um livro e precisava sair mais cedo. Mas mais cedo que cinco da tarde? Sim, ela queria sair às duas da tarde. Então você pode chegar às dez? Não, ela tinha yoga. E sobre o que é o livro? Ela precisava desse tempo a mais justamente para descobrir. A outra disse que não aceitaria mais nenhuma exploração: “Sempre me faziam ficar uns minutos depois do horário e às vezes diziam que meu trabalho estava uma merda”.

Dos dezessete anos até ontem eu ouvi, ininterruptamente, que teria que trabalhar mais e que meu trabalho estava uma merda. O trabalho estar uma merda é a única verdade, a única frase de amor possível, o motor mais potente da existência. Viveria eu em um mundo terrível ou viveriam esses jovens em um mundo irreal? Nasci em 1979 e, segundo a Wikipédia, fui salva (por apenas um ano) de ser uma “Millennium”. Talvez eu estivesse agora, em vez de escrevendo essa coluna, chorando. Nua em posição fetal no chão do banheiro, encarando todos os braços da Shiva tatuada apontando para o meu umbigo. Triste por quê? Porque as pessoas andam muito agressivas. Porque não virei presidente da empresa aos vinte anos. Porque eu sou tão positiva em relação a tudo que de vez em quando cansa.

Talvez eu estivesse super magoada querendo processar todo o universo por assédio moral. Talvez eu estivesse planejando uma viagem sabática (de dez anos) para a Europa com doze reais na minha conta bancária. Talvez eu passasse o dia no Facebook postando coisas muito do bem e muito politizadas e muito “mulheres contra tudo e todos” mas não aguentasse meia hora de responsabilidade. Talvez eu odiasse os antibióticos e os obstetras, os grandes inimigos da humanidade. Talvez eu me recusasse a receber qualquer centavo do mercado golpista e, portanto, não poderia trabalhar em nenhum lugar porque qualquer fim lucrativo é golpista. Talvez eu estivesse googlando “composta de casca de banana” em vez de estar, de novo, comendo um sanduíche enquanto trabalho.

Minhas duas estagiárias passavam boa parte do tempo pedindo mais tempo livre pra pensar em planos mirabolantes para conseguir ainda mais tempo livre. Nos únicos vinte minutos por semana que elas trabalhavam, ficavam profundamente irritadas se eu dissesse algo como “putz, acho que não”. Eu vivia com medo de ir pra cadeia apenas por não endeusá-las a cada segundo. A primeira a se demitir disse “não nasci pra ter chefe ou horário”, a segunda, que eu acabei demitindo, falou “melhor mesmo, preciso saber quem eu sou”. Claro que me refiro a uma pequena (ou média) porcentagem que não está a fim de nada (e não a você ou alguém da sua família, ok?), mas todos os dias eu agradeço demais: valeu década de 70! A gente sofreu mas foi lindo.

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