“É possível ser livre hoje facilmente se você encontrar o que satisfaz seu desejo de felicidade”

O teólogo e sacerdote espanhol Julián Carrón discute liberdade em nossos dias e diz que a felicidade está, sim, ao nosso alcance

O teólogo espanhol Julián Carrón, guia da Fraternidade de Comunhão e Libertação (foto: Reprodução/Facebook)

O teólogo espanhol Julián Carrón, guia da Fraternidade de Comunhão e Libertação (foto: Reprodução/Facebook)

Soraia Yoshida, na Época Negócios

Ao citar recentemente, em uma entrevista, o pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o teólogo espanhol Julián Carrón lembrou que podemos construir todos os muros que queiramos, sem que isso mude a forma como as pessoas se sentem. “Depois que tivermos construído esses muros, vamos nos dar conta que não respondem à insegurança e todo o medo que sentimos, pois eles têm raízes mais profundas”.

Julián Carrón é o guia da Fraternidade de Comunhão e Libertação, um dos movimentos da Igreja Católica que está presente em 90 países. Em suas palestras, entretanto, ele vai além da religião e toca em temas que estão em evidência na sociedade contemporânea – como a liberdade, migração, terrorismo. De vários artigos nasceu o livro “A Beleza Desarmada” (Editora Companhia Ilimitada) que, segundo o autor, é dirigido a todas as pessoas que, diante de uma situação de crise cultural, social e religiosa.

“Há muitas coisas no passado recente que eram evidentes e hoje não são”, afirma. “Valores que todos conhecíamos parecem ter se obscurecido. Há um desinteresse pelas coisas, o medo o ceticismo de viver que levam as pessoas a decair diante das grandes questões da vida”.

Qual é o maior valor em falta nos dias de hoje?
O maior valor em falta nos dias de hoje é o valor da pessoa. A pessoa é o maior recurso que uma sociedade tem. Se as pessoas não recuperarem a consciência do seu valor, será difícil sair desta situação de crise em que nos encontramos. Para recuperar o valor, as pessoas têm de ser educadas a reconhecê-lo e, portanto, a despertar todas as energias, todas as capacidades que estão ocultas e que só poderão ser postas em jogo caso se tome consciência delas.

Como é possível conhecer a verdadeira liberdade?
A liberdade é a satisfação de um desejo. Quando uma criança quer ir a uma festa, sente-se livre se seus pais a deixarem ir, e sente sua liberdade mortificada se seus pais o negam. Mas o problema é que o desejo do homem é o de ser livre em qualquer circunstância e em qualquer momento, e o de poder encontrar o que o satisfaz. Por isso, hoje é possível ser livre facilmente se a pessoa encontrar o que a satisfaz.

Por que é tão difícil ser livre na nossa sociedade?
É difícil ser livre porque as pessoas não encontram o que as satisfaz suficientemente a ponto de não dependerem de seus êxitos, dos outros, do poder que lhes tenta tirar essa liberdade. Só se a pessoa encontrar o que satisfaz seu desejo de felicidade é que poderá ser livre de qualquer tipo de manipulação.

Essa busca incessante pela felicidade transforma mesmo as pessoas em seres melhores ou acaba servindo para aprisioná-las a um desejo que nunca vai se realizar?
O desejo de felicidade é o que liberta as pessoas de poder ser enganadas por qualquer um que queira manipulá-las – prometendo-lhes algo que não corresponde ao seu desejo. Em muitas ocasiões, é só porque o desejo de felicidade é rebaixado, é reduzido, que a pessoa pode ser enganada. Mas não podemos tirar de dentro de nós esse desejo de felicidade que temos, não podemos reduzi-lo. O desejo de felicidade é a única coisa que nos permite ser livres de qualquer manipulação.

Sentir o desejo de ser bom é bastante para transformar alguém?
Não. O que transforma é encontrar alguém que torna possível você ser mais você mesmo. Vemos isso na experiência amorosa. Nada desperta tanto uma pessoa como ser amada. Deus submeteu-se a esse método natural tornando-se homem, pondo na nossa frente uma atração tão grande, que mudou a vida dos que o encontraram.

O processo de escolha, que é imprescindível à liberdade, traz muito sofrimento aos jovens que ainda estão encontrando seu caminho. É possível ter um sem o outro, liberdade sem sofrer pelas escolhas?
A liberdade é sempre um risco, mas pode ser ajudada se a pessoa encontra algo que lhe permite descobrir com facilidade aquilo que encontra. Por isso, fomos originados com um detector dentro de nós, para podermos descobrir, reconhecer a verdade. Quando alguém vai comprar sapatos, sabe que o detector para encontrar os sapatos adequados é a correspondência com o tamanho do seu pé. Nenhum funcionário pode enganá-lo. O coração com suas exigências de verdade, de justiça, de felicidade, é o detector que nos permite facilmente descobrir o que é que corresponde a essas exigências.

O sr. diria que passamos da hora de proteger os jovens de grandes desafios? É preciso “lançá-los” ao mundo para que eles possam trazer sua maior contribuição?
Desafiar os jovens, ou seja, estar à altura dos desejos dos jovens é a única condição para que eles possam dar sua contribuição. O problema começa quando nós queremos reduzi-los ou manipulá-los. Quando os vemos por aquilo que são, com seus anseios de felicidade, de verdade, de justiça, então eles podem dar sua contribuição para a mudança deles e da sociedade.

O sr. acha que hoje as pessoas se sentem menos realizadas ou felizes porque deixaram de abraçar sua religiosidade?
Religiosidade no mundo atual é uma palavra ambígua. Pode ser reduzida só a um sentimento, pode ser reduzida a um feeling, a algo que é mais ou menos confuso. A religiosidade verdadeira coincide com as exigências mais profundas do homem. Por isso, sem levá-las em consideração e sem abraçá-las, os homens não podem encontrar a sua própria felicidade.

tradução: Cláudio Cruz

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