Choro perto de Deus na Arena Condá

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Ricardo Gondim

Desprezo qualquer instrumentalização do sofrimento. Considero odiosa toda ideia que trata a dor como compensatória, útil ou necessária. Descreio de um Deus que não cessa de cobrar o pecado do casal que pecou lá no início da criação. Não aceito que a humanidade tenha uma origem catastrófica, uma queda original, que não só entortou irremediavelmente todos e todas, como condenou a humanidade a pagar uma dívida que, ao que parece, jamais será extinta.

Não tenho mais condições de reproduzir a teologia do pecado original. Ela significa que Deus criou um primeiro casal já dotado de racionalidade. Eu precisaria crer que Adão e Eva não são personagens míticos, mas seres históricos, criados já prontos, com a capacidade de escolhas éticas e cientes de que produziriam um desequilíbrio monumental no desenrolar da história. Teria também que acreditar em uma serpente real (ou a possessão de um demônio em um animal). E que ela seduziu mais que a presença de Deus – que conversava com Adão no por do sol. A leitura literal e fundamentalista da Bíblia, me parece mais que tola, é cruel. Devido a essa doutrina, mal, miséria, injustiça e até genocídios não passam de desdobramentos da tortuosidade a que Eva (especialmente ela) nos condenou.

Devido à premissa do pecado original, todo sofrimento é didático e a dor, pedagógica. E se dor cumpre uma função redentora ou purgativa, não resta espaço para a compaixão. O sofrimento será sempre justificado. A maldade herdada do Éden produzirá condenados, nunca vítimas. Alguém pecou lá atrás e o salário daquela desobediência (cometida há milênios) vem sendo cobrado, tintim por tintim, por uma divindade ferida? Não aceito isso.

As imagens de Deus que se alastram o tratam como um monarca; vez por outra, como um severo juiz. Nessa visão, o pecado de Adão e Eva representa uma afronta infinita à glória, também infinita, de Deus. Ferido, Deus poderia vingar-se da humanidade que o traiu. E se a vingança divina for legítima, não nos resta senão aceitar seus castigos.

Para mim, as questões do mal e do sofrimento humano são as mais angustiantes da existência. Quando crianças e jovens – como o time da Chapecoense – morrem, todos os “Por quês?” são justificáveis. Por que Deus não preveniu, evitou, ou interveio para evitar tamanho desastre? Ele não podia? Então, não é Onipotente. Ele não quis? Então, é mau. Ele tem um propósito que ainda não sabemos? Então, é maquiavélico. Ivan Kamaramázov, no romance de Dostoievski, julgou essas respostas inaceitáveis. Eu também.

Faz tempo, me distanciei da doutrina do pecado original. Não concebo que as crianças em Aleppo, Síria, tenham nascido “debaixo da ira de Deus”. Não acho que Deus precisava usar a morte de todos aqueles rapazes da Chapecoense com algum objetivo. Não aceito a lógica calvinista de que ele não tinha qualquer obrigação para com eles, já que todos “nasceram culpados e condenados no pecado de Adão”.

Creio que Deus já reconciliou o mundo consigo mesmo. Creio que não há dívidas a serem pagas. Creio que Deus não vive lá longe em um céu metafísico, separado de nossa realidade. Creio que Deus não é um maquinista que conduz vidas e a história a um fim glorioso. Creio na encarnação. Deus está em tudo e em todos sem contudo se confundir com a criação. Creio que beleza, solidariedade, fome e sede de justiça, são sombras da presença, muitas vezes imperceptível, de Deus.

Aborreço as explicações utilitárias para a morte prematura de meninos. Aborreço a lógica que culpabiliza vítimas. Aborreço a ideia de que nossa natureza caída justifica a mão pesada dos castigos divinos. Aborreço a imagem de um Deus apático diante das lágrimas. Aborreço a noção de que eventos tenebrosos podem ser simples elos para que o soberano conduza a história.

Escrevi sobre o tema para dizer: estou arrasado. Não me conformo com o desaparecimento do time da Chapecoense. Estou certo, todavia, das respostas que rejeito. Agora, preciso de tempo para chorar ao lado de Deus nas arquibancadas da Arena Condá.

Soli Deo Gloria

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