‘Vocês vão se arrepender de querer que eu termine’, diz 2016

Catarina Bessell

Catarina Bessell

Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Quem vos fala é o ano que corre. Calma, guardem suas pedras. Sei que não sou benquisto entre vocês. Tenho ouvido a torto e a direito o bordão “acaba, 2016” -praticamente um novo “Fora, Temer”. Sei que pareço tão interminável quanto o interino- mas ao contrário dele, tenho hora pra acabar. E falta pouco.

Desistam de me matar antes do fim. Pra começar, um ano só morre de morte natural. Sinto informar que nunca, em toda a história, um ano acabou antes do tempo regulamentar. Aliás, minto. O ano de 1582, coitado, teve dez dias a menos, mas seu encurtamento não teve nada a ver com sua péssima performance enquanto ano.

O papa resolveu adiantar uns diazinhos porque o ano tava desregulado com o sol -embora haja quem diga que ele só queria que chegasse logo o seu “niver”. (Imagina que delícia ser papa naquela época e poder andar com o calendário pra cima e pra baixo: “Fica decretado que esta semana não terá segunda-feira por motivos de: preguiça”, “esse ano pularemos o mês de agosto por motivos de: não tem feriado”.) Ninguém curtiu a ansiedade papal. Imagine quão puto ficou Giorgio, coitado, que trabalhava na taberna: tirou dez dias de férias dia 4 mas teve que voltar ao trabalho no dia seguinte.

O papa de hoje já não manda nada (infelizmente: talvez fosse melhor um mundo comandado pelo papa-fofo), mas vamos supor que o papa-Mujica tivesse superpoderes e pudesse encolher o ano: não sei se vocês perceberam mas, quando eu acabar, vai começar o ano de 2017. Não sou de falar mal de outros anos, mas o coitado nem começou e já tá todo errado. “Ah, foi em 2016 que Trump e Crivella ganharam as eleições”, vocês dizem. Sim, mas é em 2017 que eles vão começar a governar. Ainda querem que eu acabe? É impressão minha ou eu acabei de ouvir um “não acaba nunca, 2016! Fica! Vai ter bolo!”?

Queria que vocês lembrassem de mim não como o ano em que todo mundo morreu, mas como o ano em que tanta gente boa ainda estava viva; não como o ano da maior tragédia do esporte, mas como o ano da maior solidariedade: vocês já tinham visto um clube abrir mão do título de campeão? Na minha gestão morreu muita gente, é verdade. Mas também nasceu gente pra dedéu. Disso ninguém lembra.

Fácil falar de mim. Quero ver pagar minhas contas. A história me absolverá, disse um dos que morreram sob o meu jugo (só pra lembrar: não fui eu que matei; foi o charuto). Fica a dica: aproveitem esse finalzinho. Vocês vão sentir saudade.

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