Agradecer pode ser o melhor presente de Natal

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Mariza Tavares, no G1

Família reunida no Natal nem sempre é sinônimo de confraternização. Volta e meia mágoas e rancores enterrados vêm à tona e a festa azeda. Barbara Fredrickson, professora da University of North Carolina at Chapel Hill (EUA) e uma referência mundial em psicologia positiva, ensina o que nem deveria precisar de uma aula: agradecer faz bem. Não apenas para quem agradece, mas, principalmente, para quem é reconhecido. O sentimento que emerge dessa manifestação tem o efeito de uma pedra no lago e renova laços que às vezes estavam esgarçados.

Ninguém é o que é ou conquista algo sozinho, mas o tempo vai borrando essas memórias que poderiam nos encher de boas lembranças e a certeza de que tivemos muitas pessoas que nos acolheram e nos deram a mão ao longo de nossa trajetória. Para quem passou dos 50, então… Minha sugestão é aproveitar a semana antes do Natal para fazer uma longa lista de agradecimentos. Se der para falar com todos, ou pelo menos mandar uma mensagem, melhor ainda.

Começo o “exercício” e logo me dou conta de que minha lista não cabe numa coluna e que terei que ser econômica em histórias e explicações. O primeiro agradecimento vai para meu pai, por me ensinar que o trabalho pode e deve ser divertido. Depois para minha mãe, por martelar na minha cabeça que mulher não pode ser dependente de homem – e quanta liberdade me deram para escolher meus caminhos! E para meu filho, por me receber tão imperfeita e ainda me presentear me tornando avó.

Dona Elza, professora do terceiro e quarto ano da antiga escola primária, lia minhas redações em voz alta e foi uma das minhas primeiras incentivadoras a escrever. Cilene Cunha, que me ensinou literatura na adolescência, pôs mais um tijolinho na certeza do que eu gostaria de fazer. Aparecida, mãe de um colega de turma, me deu aulas de português e francês lapidando o que eu aprendia na escola, sem cobrar nada.

Carlos Heitor Cony foi responsável pelo meu primeiro emprego. Nos reencontramos anos depois e generosamente ele fez o prefácio de meu primeiro livro de poemas. Ivandel Godinho, meu chefe quando era redatora inexperiente, me mandou nunca dizer que não sabia fazer algo: “Aprenda!”, decretava com a assertividade de sempre. Verônica Cobas me pôs de volta no mercado como colaboradora de revistas médicas depois de eu ter ficado desempregada. Evandro Carlos de Andrade me acolheu num grupo seleto de editores do Globo, Agostinho Vieira me ensinou a editar no jornal, Rubens Campos apostou em mim como diretora de uma rede de emissoras de rádio.

Angelo Maiolino, o médico que salvou a vida do meu filho, vai ter minha gratidão emocionada para sempre, assim como todos que estiveram à minha volta durante a doença e me deram apoio para que eu me afastasse do trabalho e pudesse me dedicar integralmente a ele até sua recuperação.

Tenho amigos que estão presentes mesmo sem uma convivência diária. São poucos, mas sei que posso contar com eles para coisas que quase ninguém faz: ser fiador para alugar apartamento, emprestar dinheiro na hora do aperto, e, principalmente, dar conselhos inestimáveis. Outros, como Bety Orsini e Flavio Gikovate, partiram, mas seus ensinamentos me acompanham. Aliás, é de Flávio a frase: “O amor é uma estação de águas, e não uma montanha-russa”. Por isso encerro essa lista incompleta agradecendo a Zé, pela sucessão de dias bons e companheirismo.

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