Médicos se suicidam cinco vezes mais que a população em geral

Uma das salas de cirurgia do Hospital das Clínicas, na zona oeste de São Paulo  (foto: Isadora Brant-25.out.2011/Folhapress)

Uma das salas de cirurgia do Hospital das Clínicas, na zona oeste de São Paulo (foto: Isadora Brant-25.out.2011/Folhapress)

Cláudia Collucci, na Folha de S.Paulo

“Estou enfrentando no hospital onde trabalho algo que não é incomum entre meus colegas: que precisamos contribuir mais com solicitação de exames. ‘A RM [ressonância magnética] está muito subutilizada’, tive que escutar.”

“É duro ver colegas fazer coisas desnecessárias. Dias desses, um deles indicou ecodoppler de carótidas ao meu pai, exame que todas as sociedades lá de fora orientam não fazer em pacientes assintomáticos, que é o caso dele. Depois queriam lhe meter um CAT [cateterismo cardíaco]. Tudo isso só serviu para o meu pai falar todo dia que terá um AVC e se preparar para morrer de algo tão incerto quanto a vida.”

“Estimo que grande parte das nossas cirurgias sejam desnecessárias e atendem apenas à política do hospital. É muito interessante avaliar o mapa cirúrgico de cada hospital. Para grande surpresa, é completamente diferente de um hospital para outro. Como é possível, pois se trata de uma população relativamente homogênea na saúde suplementar?”

“Como você acha que se sente o médico que estuda, tem a recomendação de várias sociedades para pensar mil vezes antes de colocar uma sonda em paciente com demência avançada, e se vê em hospitais remando contra a maré, com grupos de terapia nutricional altamente agressivos, porque simplesmente o hospital é varejista do insumo, o revende por 400%?”

“No dia a dia o que mais vejo é: médico extorquindo o convênio e o hospital, hospital extorquindo convênio, convênio priorizando atendimento amalucado do hospital e não valorizando médico que faz um trabalho de qualidade, população que só frequenta pronto-socorro, zero de prevenção”.

“Você instiga eles [hospitais] a repensar processos, identifiquei, por exemplo, que muitos pacientes que passavam pela Emergência e não precisavam ficar, acabavam fazendo investigação ambulatorial em outro lugar. Propus que azeitássemos isso, que aumentariam exames, no caso necessários. Mas eles querem sempre o atalho. E o atalho é fazer exames em quem não precisa.”

“Estou saindo [do hospital]. Estão colocando no meu lugar alguém que vê com naturalidade essa história de “pedir mais exames”, aliás, é uma metralhadora de pedir exames.”

“Enfrentamos hoje na saúde uma epidemia de desesperança e tristeza. É incrível o número crescente de colegas que tenho visto em Burnout (enfermeiros também, não apenas médicos). Suicídio é algo que não temos muita notícia oficial, mas tenho percepção de crescimento proporcional.”

“Tenho um colega, talvez o cara mais brilhante que já conheci, que nunca mais se recuperou de um episódio depressivo. Anda nitidamente impregnado por essas drogas da psiquiatria, trabalha/licença, trabalha/licença, já não se percebe se o pior é a doença ou efeitos de tratamentos. Nesse ínterim, a mesma história com vários amigos. É muita história triste para uma profissão que tem tudo para ser linda!”

*

Caros doutores, obrigada pelas mensagens ao longo deste ano e pela confiança em dividir comigo um pouco das suas angústias e pressões do dia a dia na atividade médica.

Compartilho muito dessas preocupações e tenho usado várias delas como gancho para reportagens e colunas sobre o tema. Na minha opinião, essas angústias deveriam ser de todos que desejam um sistema de saúde melhor.

Um sistema que premie seus profissionais e seus prestadores de serviços pelo bom atendimento, não pela quantidade de procedimentos feitos, muitos deles desnecessários. Um sistema que valorize a saúde das pessoas, não as doenças (verdadeiras ou não) e o lucro que elas podem gerar. Um sistema que invista prioritariamente na prevenção e na promoção de saúde.

Sim, os sistemas de saúde (público e privado) estão doentes, mas a razão da coluna de hoje é para falar um pouco da saúde de vocês. Especialmente da saúde mental. O suicídio recente de uma colega de vocês, a médica de família Valquíria, 31, me comoveu. Ela e o filho de dois anos morreram asfixiados na noite de 10 dezembro. Na carta de despedida, disse que não aguentava mais.

Não sei das razões que motivaram Valquíria a acabar com sua vida e a do filho. O que sei é que os recentes casos de suicídio entre vocês têm preocupado toda a categoria. E a mim também.

Neste ano, sete médicos do Estado de Pernambuco se mataram. Recentemente, um outro se suicidou no estacionamento de um hospital privado de Porto Alegre. Desconheço estatísticas oficiais sobre o aumento de suicídio na categoria médica, mas, de qualquer forma, o assunto tem aparecido em vários fóruns.

Em setembro, foi debatido no Encontro Nacional de Conselhos de Medicina. Segundo a psiquiatra Alexandrina Meleiro, estudos internacionais indicam que os médicos se suicidam cinco vezes mais que a população geral. Entre os principais motivos estão o acesso a meios mais eficazes de letalidade, isolamento social (desde a faculdade), situação conjugal insatisfatória e precária situação de emprego.

“O médico é facilmente frustrado em suas necessidades de realização e reconhecimento. E isso é suficiente para produzir a ansiedade, a depressão, a hipocondria, o abuso de álcool e outras substâncias, que, infelizmente, podem culminar no suicídio.”

Estudos apresentados pela psiquiatra sugerem que os anestesistas e os psiquiatras são os mais vulneráveis. Entre os alunos de medicina, o grupo de alto risco se concentra naqueles que demonstram melhor performance escolar, são mais exigentes, têm pouca tolerância a falhas, sentem mais culpa pelo que não sabem e ficam paralisados pelo medo de errar.

O simples ato de conversar é uma das formas mais eficazes de se prevenir o suicídio. Não só de médicos. O CVV (Centro de Valorização da Vida) faz um trabalho incrível nessa área. Talvez entre vocês seja mais complicado se abrir, pedir ajuda, se mostrar vulneráveis. A vida não anda fácil para ninguém e bem sei que, muitas vezes, está difícil de encontrar saídas.

Neste momento, porém, só quero agradecer a todos que se mantêm fiéis aos princípios hipocráticos, especialmente no que diz respeito a “fazer o bem aos doentes e manter-se longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução.”

Sim, há muitos que fraudam o SUS, que dão um jeito de registrar presença sem dar as caras na unidade de saúde, mas há outros tantos que dão a vida pelo sistema e pelos pacientes. Há muitos aceitam (e até cobram) os “bônus” da indústria de medicamentos, de próteses e órteses, ou que se aliam aos hospitais na prática frenética de exames e cirurgias desnecessárias. Mas há outros que resistem, que dizem não.

A vocês, meu muito obrigado. Dedico-lhes um trecho da obra “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell (1904-1987): “Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo. As portas se abrirão lá onde você não sabia que havia portas.” Um ótimo Natal para vocês!”

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