O funk ‘Deu Onda’ está mais próximo do blues e da música erudita do que você imagina

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Publicado no Brasil Post

Hit absoluto do verão brasileiro, o funk Deu Onda, de MC G15, explodiu em todo o Brasil antes mesmo do novo ano começar.

No último dia de 2016, a faixa foi destaque na plataforma de streaming de música Spotify, ocassupando o primeiro lugar no ranking 50 Virais do Mundo.

https://open.spotify.com/embed/album/4kL6UmXZ0QGt4crDk2n1op

Com letra que divide opiniões – uma declaração de amor de Gabriel Soares (verdadeiro nome de MC G15), à namorada Ingrid Tawane – o funk tem uma característica peculiar para o gênero: o politonalismo.

No vídeo abaixo, Pedro Serapicos, músico e produtor do selo Alcachofra Records, explica como esse aspecto técnico contribui para o resultado final da canção.

Segundo ele, a faixa faz uma ruptura entre a melodia e harmonia, algo incomum no contexto da música pop.

Em geral, músicas que estão no topo das paradas têm melodias acompanhadas de harmonias com notas musicais do mesmo conjunto. Assim, uma melodia de acordes maiores é harmonizada com acordes maiores e uma melodia de acordes menores é harmonizada com acordes menores.

Serapicos mostra que em Deu Onda há uma quebra dessa estrutura.

Não há uso das mesmas notas para os acordes e melodia. A melodia do funk transita por acordes maiores enquanto a harmonia está em acordes menores.

De acordo com o produtor musical, essa é uma uma ruptura feita, geralmente, por compositores eruditos como Béla Bartók e Darius Milhaude (ouça um exemplo no player abaixo), apresentada “pouquíssimas vezes” na história da música popular.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Serapicos diz que, com certa “licença poética”, é possível ainda traçar um paralelo com a estética do blues:

“Em blues de harmonia maior não é infrequente termos melodias que passeiam por notas das escalas pentatônicas, tanto maiores quanto menores, causando um efeito similar ao da Deu Onda. Enquanto Deu Onda tem uma terça maior soando sobre um acorde menor, é possível ouvir em músicas do repertório tradicional do blues melodias que cantam terças menores sobre acordes dominantes maiores.”

Ao final do vídeo, Serapicos defende que o politonalismo presente em Deu Onda prova que todos os tipos de música têm algo a oferecer.

“O funk muitas vezes é menosprezado sendo algo simples, trivial, banal e, às vezes, até de mau gosto. Mas muitas vezes esse tipo de comentário é feito por pessoas que não têm nenhuma familiaridade com o gênero e não estão nem um pouco dispostas a analisar as músicas com seriedade pelo que elas têm a oferecer.”

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