A fórmula mágica do Facebook para determinar seus 9 melhores amigos

Publicado na Folha de S. Paulo

Todos passamos por tal momento, admita: ao conferirmos nossos próprios perfis no Facebook, vemos, na seção de amigos, à esquerda, aquele colega da escola ou de um antigo trampo com quem não falamos há décadas.

Enquanto tentamos recordar momentos marcantes com aquela pessoa, nos perguntamos: por que esse cara de chapéu e sobrenome Guarani-Kaiowá está do lado dos meus melhores amigos?

Meu namorado nunca usa o Facebook e nós nunca interagimos ali –não tem fotos, comentários, likes, status de relacionamento, nada. Ainda assim, quando pesquiso por ele e vou até seu perfil, vejo que, dentre aquelas nove pessoas destacadas na barra lateral esquerda, estou na posição número um.

Eu sei, eu sei, a reação comum é concluir que as pessoas que aparecem ali, em destaque, estão nos vigiando.

Mas será mesmo?

Como o Facebook ranqueia e ordena nossos amigos é um mistério perturbador. Muitos de nós não temos o hábito de quantificar e organizar as pessoas em nossas vidas e, bem, um misterioso algoritmo faz isso por nós. Está além de nosso controle.

“Quem está ‘stalkeando’ quem” é uma das informações mais privadas e sigilosas que o Facebook tem em mãos.

Há uma espécie de pressentimento na consciência coletiva das redes sociais que diz que, se alguém com quem você mal interagiu aparece lá em cima na sua lista de amigos, trata-se de seu stalker, o que significa, por sua vez, que o alvo do seu stalkeamento pode muito bem ver você em primeiro lugar no perfil dele ou dela.

Uma busca superficial no Google sobre o assunto resulta em anos e anos de questionamentos ansiosos por fóruns como Quora e Reddit. Acredite, tem muita gente preocupada se a tal ordem dos quadradinhos de amigos pode dar sinais de relacionamento unilateral, extraconjugal ou algo significativo.

“Uma garota com quem converso vive perguntado sobre umas outras meninas que aparecem no meu ‘top 9’ e lhe digo que mal falo com elas e não faço ideia de por que elas aparecem”, comentou um nervosíssimo redditor.

“Minha ex aparece em segundo lugar, mas não nos falamos nem vi seu perfil desde dezembro. Conversei com muita gente, mas por que ela ainda está lá?”, questionou outro participante em um fórum.

Não há como saber as respostas exatas para tais perguntas, já que quaisquer detalhes a respeito dos algoritmos do Facebook são confidenciais. Mas existem algumas coisinhas que sabemos sobre os fatores que compõem o ordenamento de nossas listas de amigos –e outras informações que podemos obter ao prestar atenção aos sinais.

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Há alguns locais na plataforma em que o Facebook indica quem são seus melhores amigos. Se você clicar em “Amigos” no seu perfil, o site listará todos na sua rede e, mais próximo ao topo, estarão as pessoas com quem você interage.

Uma amostra rotativa de nove destes amigos aparece na barra lateral esquerda ao observar seu próprio perfil. Outro grupo de nomes é selecionado para o chat na barra lateral direita e certos nomes são preenchidos automaticamente quando se coloca o cursor na barra de pesquisa.

Como você provavelmente percebeu, o Facebook introduziu há pouco listas de amigos que organizam sua rede em categorias. Algumas listas são geradas de modo automático, com base em trabalho ou cidades em que você morou.

A lista de “amigos próximos” é definida pelo usuário, mas o Facebook sugere quem colocar ali. É uma sensação estranha, convenhamos. Há uma força sem rosto que diz quem são as pessoas importantes da sua vida.

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De acordo com o Facebook, este grupo de amigos relevantes deveria servir como uma espécie de alerta útil para o usuário.

Algoritmos de ordenação de amigos também levam em consideração o quanto você “interage” com certas pessoas bem como com que frequência e quão recentemente. Então aquele conhecido da escola qualquer que tem aparecido ali pode muito bem ser o algoritmo te dando um toque que é hora de mandar uma mensagem para alguém que você tem adicionado há um bom tempo.

Por outro lado, também pode mostrar pessoas recém-adicionadas para dar uma forçadinha na amizade, mesmo que não tenham interagido ainda. A fórmula ainda confere peso extra para quem postou coisas recentemente, afirma a empresa.

E tem vezes que é tudo aleatório mesmo, segundo o próprio Facebook.

Os algoritmos do Facebook estão em constante evolução –afinal, é o molho secreto da empresa e seus ingredientes são alterados continuamente para promover engajamento e novas características. Há poucos anos, a rede usava um algoritmo para amigos chamado Edgerank. Ele tomava como base três fatores para determinar proximidade, afinidade e declínio social: o quanto você interage, tipos de interações e tempo.

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A fórmula atual é mais complexa. Ela se vale de aprendizagem de máquina e leva em consideração milhares de dados para determinar a proximidade social das pessoas.

Mas presumindo que os preceitos básicos sejam os mesmos, a equação deve calcular diversos tipos de interações: ser marcado com alguém em uma foto ou ir ao mesmo evento é um indicador melhor de que você é próximo daquela pessoa do que curtindo um post compartilhado por ela ou comentando em uma postagem no mural.

Dá para compreender um pouco do algoritmo ao observar o seu registro de atividades. Ali é possível ver todas aquelas pequenas interações que talvez você tenha esquecido e traçar um paralelo entre elas e como o algoritmo ranqueia seus amigos. Aquela galera “aleatória” aparecendo no seu perfil ou chat pode de repente fazer mais sentido. Pode não ser tão aleatória assim.

Quase nunca uso o Facebook, então algo simples como um comentário ou marcação no ano passado ou mesmo aceitar uma solicitação de amizade pode ter sido o suficiente para levar alguém ao top 10 ou 20.

Descobri sem querer que tinha uma ligação de dados maior que o esperado com gente que achei que estava passeando pela minha página –um comentário aqui e ali ou fazer parte dos mesmos grupos poderia melhorar sua posição.

INTERAÇÕES PÚBLICAS

O Facebook sempre disse que seus algoritmos de ranqueamento de amigos levam em conta apenas interações públicas, nada de chats ou visualizações de perfil.

“Amigos que aparecem na seção Amigos do perfil não são escolhidos a partir de dados privados, por exemplo, se você visitou o perfil da pessoa ou não. Em vez disso, utilizamos diversos sinais públicos, se curtiram ou comentaram posts seus, para escolher quem aparecerá ali”, afirmou um porta-voz.

“Usamos ranking diferentes para seções diferentes (a seção Amigos do perfil, a lista de chat, etc.) Para cada uma dessas seções desenvolvemos um ranking que funciona melhor para aquele produto, mas não usamos informações privadas que não poderiam ser visualizadas em lugar nenhum (ou seja: visualizações de perfil).”

Mas isso não vale muito para muita gente. Claro que o Facebook diria disso. Quem está “stalkeando” quem é uma das informações mais privadas e sigilosas que o Facebook tem em mãos e expô-la, mesmo que indiretamente, poderia ser desastroso tanto para o site quanto para seus usuários.

Pode parecer pouca coisa, mas não é. O Facebook tem como moeda de troca as relações pessoais. O fato de que não sabemos exatamente como ele nos observa ou se podemos confiar nele vai de encontro direto aos medos e inseguranças das pessoas.

Para testar a questão do stalker, criei uma conta falsa no Facebook, adicionei apenas o meu perfil original e me stalkeei fortemente durante dias. O fake nunca apareceu na minha lista de melhores amigos do Facebook. Atualizarei este artigo caso isso aconteça.

Conduzi alguns outros (nada científicos) experimentos. Comparei minha lista de amigos ao meu registro de atividades para ver as interações que tive com cada pessoa entre os nove, e observei como a ordem mudava dia após dia. Os resultados foram lógicos. Se marcava pessoas nas fotos ou vice-versa, elas subiam na lista. Após dias sem qualquer interação, elas caíam um pouco.

Mas houve surpresas. Descobri que pessoas que costumo stalkear apareciam em certos locais –não entre os nove amigos no meu perfil, mas nas sugestões de quem deveria incluir na lista de “amigos próximos”.

As pessoas que stalkeei também apareciam na lista de sugestões de autopreenchimento quando digitava na barra de busca (que, óbvio, apontará para gente que foi procurada antes e incluirá gente que não é sua amiga, mas que você visitou o perfil ou viu fotos –lembre-se, o Facebook quer que vocês se conectem).

Também testei uma ferramenta criada por desenvolvedores que usa a API do Facebook para revelar seu ranking de amigos. Foi um mistério o porquê de os nomes aparecerem naquela ordem na lista, mas as pessoas que eu andava fuçando figuraram no topo, sim.

Mesmo que compartilhássemos interesses ou grupos, havia uma tendência muito clara de quem eu estava pesquisando e vendo perfis e fotos subir no ranking no código-fonte.

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A boa notícia é que agora os usuários têm maior controle sobre que amigos aparecem na página. Digo, eles podem influenciar a disposição deles ao dar feedback ao Facebook.

Rotular pessoas como “amigos próximos”, “família” e por aí vai é uma funcionalidade que tem como objetivo dar mais controle a você quanto aos posts que aparecem no seu feed, mas também é algo que deverá levar amigos mais próximos a melhores posições em sua lista.

Em paralelo, categorizar alguém como “conhecido” pode fazer esta pessoa aparecer menos nas posições principais. Caso queira ficar tranquilo, dê uma de louco e crie uma conta fake pra stalkear os outros. Não se engane, o Facebook está de olho.

Tradução de THIAGO “ÍNDIO” SILVA

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