Cientistas desenvolvem ‘drone-inseto’ para fazer polinização

publicado no Estadão

Um drone do tamanho de um inseto, com a parte inferior coberta de pelos de cavalo lambuzados com um gel iônico, pode se tornar no futuro uma alternativa para polinizar culturas agrícolas, aumentando seu rendimento. A invenção, desenvolvida por um grupo de cientistas do Japão, foi testada com sucesso na polinização de tulipas e lírios.
Os resultados da pesquisa foram publicados nesta quinta-feira, 9, na revista científica Chem. A “barriga” viscosa e peluda dos drone-insetos captura grande quantidade de pólen, levando-o de uma flor para outra.

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De acordo com os autores do estudo, os polinizadores artificiais estão longe de substituir as abelhas – que têm um papel fundamental na polinização das culturas agrícolas, mas estão sofrendo uma queda populacional. No entanto, eles acreditam que a invenção no futuro poderá ajudar a reduzir a sobrecarga imposta às colônias de abelhas pelas demandas da agricultura moderna, gerando benefícios para os fazendeiros.

A descoberta surgiu a partir de um fiasco científico. Em 2007, os cientistas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada (AIST, na sigla em inglês) do Japão estavam pesquisando um líquido que pudesse conduzir corrente elétrica. O experimento não deu certo e tudo o que eles conseguiram produzir foi um gel viscoso, o que foi considerado um fracasso.

Sem utilidade aparente, o gel produzido no experimento acabou estocado no laboratório em uma garrafa sem tampa. Quase uma década depois, no entanto, durante uma limpeza das instalações, os pesquisadores encontraram o gel desprezado e constataram, com surpresa, que ele ainda estava viscoso e inalterado.

Isso levou o coordenador do estudo fracassado, Eijiro Miyako, a retomar os estudos sobre o produto. Inspirado por reportagens que havia lido sobre o declínio das populações de abelhas e sobre insetos-robôs, o cientista pensou em usar o gel para criar polinizadores artificiais.

“Ficamos surpresos ao ver que depois de 8 anos o gel iônico não havia se degradado e ainda estava tão viscoso. Géis convencionais são feitos fundamentalmente de água e não podem ser utilizados por muito tempo. Então resolvemos usar esse material para novas pesquisas”, explicou Miyako.

O primeiro passo, segundo Miyako, era testar se o pólen poderia aderir ao gel. Para isso, o cientista coletou formigas em torno de seu laboratório e pingou gotículas do pegajoso gel iônico em seus corpos. Os insetos foram então deixados livres em uma caixa de tulipas. Elas conseguiram carregar quantidades maiores de pólen, em comparação às formigas que não haviam sido lambuzadas com o gel.

Com o teste feito, era preciso obter uma máquina voadora pequena o suficiente para realizar manobras em um campo de flores, como fazem as abelhas. Ele aplicou o gel em pequenos drones com quatro propulsores que custam US$ 100 no varejo. Como a superfície lisa de plástico não era favorável à adesão do pólen, Miyako e outros dois cientistas do AIST, Masayoshi Tange e Yue Yu, aplicaram pelo de cavalo nos drones, para imitar o exterior peludo das abelhas.
Além de produzir mais superfície para a adesão do pólen, os pelos geraram carga elétrica para manter os grãos fixados. Os cientistas então levaram os drones para um campo de lírios japoneses (Lilium japonicum). O método mostrou eficiência, com os drones cumprindo a tarefa de levar o pólen de uma flor a outra.

“Nossos resultados, que terão aplicações na agricultura e na robótica, podem levar ao desenvolvimento de polinizadores artificiais e ajudar a mitigar os problemas causados pelo declínio das populações de abelhas. Acreditamos que polinizadores robóticos poderiam ser treinados para aprender as rotas de polinização utilizando GPS e inteligência artificial”, disse Miyako.

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