Quanto mais velho, mais sono sentimos

publicado na Gazeta do Povo

A insônia é como um ladrão noturno que assalta milhões de pessoas, principalmente aquelas com mais de 60 anos, roubando-lhes o sono reparador tão necessário. Como lamenta o rei em “Henrique IV”, de Shakespeare: “Ó sono! Ó sono gentil! Ama da natureza, que motivo de espanto em mim descobres, para as pálpebras não me vires cerrar, nem mergulhares meus sentidos no olvido?”.

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Suas causas são muitas e variadas e vão aumentando em número e grau com a idade. Mesmo assim, o problema quase sempre é minimizado durante os check-ups de rotina, o que resulta não só na diminuição da qualidade de vida do idoso como pode agravar transtornos físicos e emocionais, incluindo sintomas de perda cognitiva.

Quase todo mundo já teve aquela noite em que o corpo parece se esquecer de dormir um número mínimo de horas, quando dorme. Por mais angustiante que seja quando acontece, nem se compara com os efeitos para quem a insônia – ou a dificuldade de adormecer, se manter adormecido ou acordar cedo demais – é uma ocorrência diária.

Uma pesquisa feita em 1995 pelo Instituto Nacional do Envelhecimento com nove mil pessoas com idades superiores a 65 anos, de três comunidades diferentes, revelou que 28 por cento tinham problemas para adormecer e 42 relataram dificuldades em pegar no sono e continuar dormindo. O número de pessoas atingidas obviamente deve ser muito maior hoje em dia, quando milhões passam as horas anteriores à ida para a cama olhando para telas eletrônicas que interferem nos ritmos biológicos do organismo.

Segundo o Dr. Alon Y. Avidan, diretor da clínica do sono da Faculdade de Medicina David Geffen da Universidade da Califórnia em Los Angeles, insônia é sintoma, e não diagnóstico, e pode ser um sinal de um problema de saúde oculto e quase sempre tratável, mas que, quando persistente, deve ser levado muito a sério.

A chamada insônia passageira dura menos de um mês e pode resultar de um problema temporário no trabalho ou doença grave; a de curto prazo, dura de um a seis meses e pode ser causada por uma crise financeira ou luto – o que já é difícil o suficiente, mas quando supera essa marca, tornando-se crônica, pode causar sérios distúrbios físicos, emocionais e sociais.

Além da sonolência excessiva durante o dia, que por si só já pode ser perigosa, a versão duradoura pode resultar em “perturbação intelectual, prejuízo cognitivo, confusão, retardamento psicomotor e aumento de risco de lesões ou ferimentos”, de acordo com o Dr. Avidan. Compreensivelmente, quase sempre é acompanhada por depressão tanto como causa como resultado da insônia persistente. E, se não for tratada, aumenta as chances de quedas e fraturas, como mostrou um estudo feito na população das casas de repouso.

Há dois tipos de insônia: uma, a chamada primária, é resultado de um problema que ocorre somente ou principalmente durante o sono, como apneia obstrutiva, síndrome das pernas inquietas (que aflige de 15 a 20 por cento dos adultos mais velhos), movimentos periódicos dos membros ou uma tendência a reproduzir os sonhos fisicamente, o que pode ser também os primeiros indícios do mal de Parkinson.

A menos que durma com alguém que note, a pessoa que sofre desse transtorno pode não saber por que tem o sono interrompido. Um diagnóstico preciso geralmente exige um estudo profissional, com o paciente passando de uma a duas noites no laboratório, monitorado por instrumentos que registram a respiração, batimentos cardíacos, pressão sanguínea, movimentos corporais e o tempo gasto nos vários estágios do sono.

O outro tipo de insônia mais comum é o secundário, e pode esconder um problema médico ou psiquiátrico, ser sequela de algum tipo de medicação ou fatores comportamentais como exposição excessiva à cafeína, bebidas alcoólicas, nicotina ou sonecas diurnas ou perturbações ambientais como fadiga de viagem (jet lag) e barulho ou luz excessivos, principalmente o brilho azulado de algum aparelho eletrônico, no quarto.

Entre as muitas doenças que podem causá-la estão a insuficiência cardíaca, o refluxo gastroesofágico, os problemas pulmonares, a artrite, o mal de Alzheimer e a incontinência. O tratamento do problema, quando possível, geralmente diminui seus efeitos.

Qualquer que seja o motivo, ela pode se tornar uma reação aprendida quando a pessoa antecipa a dificuldade em pegar no sono ou voltar a dormir depois de acordar no meio da noite. Pode passar horas virando de um lado para o outro, com medo de não voltar a dormir, com a ansiedade em si atrapalhando e/ou impedindo o processo.

Quanto mais a pessoa se aflige com o problema do sono, pior ele fica. Quando às vezes eu acordo de madrugada e não consigo voltar a dormir, geralmente levanto e faço algo útil, o que pelo menos compensa um pouco as horas sem descanso. Se fico preocupada por temer esquecer alguma coisa importante, anoto em um bloco que deixo ao lado da cama, tendo o cuidado de não acender a luz principal. (Luzes muitos fortes no meio da noite podem estimular o relógio biológico; se você tem que se levantar para ir ao banheiro, acenda sempre uma luz noturna, perto do chão.)

Se a causa da insônia não for médica, pode ser tratada com a prática da chamada “higiene do sono bom”, conceito criado pelo falecido Peter J. Hauri, especialista do sono da Clínica Mayo. Implica em limitar as sonecas a menos de meia hora/dia, de preferência no início da tarde; evitar o uso de estimulantes, sedativos e refeições pesadas, diminuindo a ingestão de líquidos duas ou três horas antes de se deitar; praticar exercícios físicos moderados, de preferência pela manhã ou no início da tarde; aumentar a exposição a luzes fortes durante o dia e minimizá-la durante a noite; criar condições confortáveis de repouso; deitar-se somente quando começar a se sentir sonolento.

Se, ainda assim, não conseguir adormecer em vinte minutos, os especialistas recomendam sair do quarto e fazer alguma coisa relaxante, como ler um livro (impresso, não eletrônico), voltando somente quando começar a ter vontade de dormir.

Muita gente apela para a bebida alcoólica, o que é um erro. Ela pode até estimular a pessoa a adormecer, mas produz um sono fragmentado e interfere na fase REM, como afirma o Dr. Avidan

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