“Se seu gato fosse do tamanho de um leão, ele te devoraria”

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Publicado no El País

Quando você vê seu gato brincar com um pobre passarinho no jardim ou no pátio, está assistindo a praticamente o mesmo drama da matança de um gnu por um leão na savana africana. Só muda a escala. “A única diferença significativa entre o gato doméstico e os grandes felinos é o tamanho”, afirmam Beverly e Dereck Joubert, reconhecidos especialistas mundiais em grandes felinos e defensores de sua preservação. Nesse caso, o tamanho não é questão irrelevante, acrescentam, depois de uma pausa dramática: “Se teu gato fosse do tamanho de um leão, ele te devoraria”.

Os Joubert, célebre e midiático casal sul-africano especializado em estudar e filmar de modo espantosamente próximo os grandes felinos selvagens, particularmente os leões (são ambos exploradores residentes da National Geographic), fizeram uma reviravolta em seu trabalho para comparar o comportamento desses animais com seus primos pequenos, os gatos domésticos. O resultado é um documentário extraordinário, dentro da série A alma dos felinos (Nat Geo Wild). Depois de vê-lo, ninguém volta a ver da mesma forma o gato de casa.

O documentário acompanha um gato doméstico em suas andanças e rondas cotidianas graças à habilidade dos que o filmam, tirando proveito de toda a perícia adquirida por Beverly e Dereck em 35 anos indo atrás de leões, leopardos e guepardos nos arbustos e na savana de Botsuana e Quênia. O gato protagonista da estreia é Smokey. “Não é nosso, mas de um vizinho”, explicam os Joubert. “Nunca tivemos um gato, não podíamos, estando o tempo todo fora, em campo.” Tampouco tiveram filhos, embora uma vez tivessem criado um leopardo. O casal afirma que Smokey, um simpático gato malhado de pelo longo, foi surpreendente (e cativante). “Nós o seguimos e filmamos, como fazíamos com os leões e outros grandes felinos, com uma ressalva: sempre obedecemos à norma de nunca tocar no animal, e dessa vez pudemos fazer isso, foi fora do normal ter relação tátil, e muito emocionante”, diz Beverly.

O documentário mostra Smokey fazendo tudo o que fazem os gatos que, destacam as imagens, é extraordinariamente idêntico ao que fazem seus grandes primos felinos, como se pode observar nas cenas mostradas lado a lado: caçar, acasalar, dormir, lutar com os congêneres, marcar território, treinar brincando, cortejar. Os Joubert admitem que o gato apresenta algumas diferenças em relação aos leões. “É verdade, os gatos não são sociáveis como eles, provavelmente o mais próximo nesse aspecto seja o leopardo.” E os gatos são os únicos felinos que ronronam de verdade, algo que não se sabe muito bem para que serve.

Os Joubert sugerem de maneira muito poética que “na alma do gato há um grande felino”. Pergunto se um gato se vê como um tigre. “Não acho”, ri Dereck, “especialmente quando é perseguido por um cachorro”.

O documentário fez parte do Mês dos Grandes Felinos, programação especial do canal de TV por assinatura Nat Geo Wild destinada a alertar que a maioria das espécies de grandes felinos se encontram entre os animais mais ameaçados do planeta. Os Joubert protagonizaram campanhas de conscientização sobre o risco real de ficarmos logo sem esses animais maravilhosos e criaram em 2009 a associação Big Cats Initiative, que trabalha pela proteção dos grandes felinos e seu ecossistema. “O tempo se tornou precioso no que concerne aos grandes felinos”, afirma Dereck Joubert; “estão numa espiral de desaparecimento tão dramática que se hesitarmos hoje sobre as ações a levar a cabo seremos responsáveis por sua extinção no mundo inteiro; é preciso agir já”. Os leões continuam em declínio? “Sim, restam apenas 20.000, e o número continua caindo, e continuam a ser caçados! Estamos perdendo os leões. É muito provável que em 20 anos já não existam em liberdade.”

Não consigo me despedir dos Joubert sem voltar a agradecer a Dereck por ter praticamente salvado minha vida naquele dia no Masai Mara quando sem pensar desci do local em que estávamos para pegar uma pena de marabu, e um guepardo disparou em minha direção. O grito de Dereck e o fato de o guepardo preferir uma tenra cria de gnu que estava a alguns metros do carro com certeza evitaram uma desgraça para o jornalismo aquele dia. “Os guepardos costumam atacar seres humanos?”, pergunto. “Não, exceto os redatores espanhóis imprudentes”, ri com vontade.

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