O país asiático em que é quase raro dizer não

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Publicado na BBC

Tailandeses não gostam de dizer não. Isso é evidente até mesmo nas palavras mais simples: “sim” é chai e o mais próximo a “não” que existe em tailandês é mai chai – que pode ser traduzido como “não sim”.

Isso vai além de uma artimanha linguística e reflete muita coisa sobre a sociedade tailandesa que não é visível para estrangeiros até que eles passem algum tempo no país.

Quando cheguei à Tailândia, há quatro anos, mai chai parecia uma expressão desengonçada. Logo percebi, contudo, que ela fica muito mais difícil de lidar quando vem acompanhada de um final educado, como frequentemente é. Então fica mai chai ka, se é uma mulher quem fala, e mai chai krub se é um homem. É bem mais suave do que o simples no em inglês, non em francês ou nein em alemão.

A Tailândia é conhecida mundialmente como a “Terra dos Sorrisos” e seus moradores têm orgulho de serem cordiais e acolhedores. Com uma cultura voltada para o coletivo, os tailandeses são ensinados a se preocupar mais com o grupo em vez de si próprios.

Talvez seja por isso que o “não” sempre seja misturado com um “sim”. “Não sim” parece implicar em uma pequena expressão o seu arrependimento por não conseguir aceitar o que foi pedido.

Aliás, quando mai chai é pronunciado, muitas vezes ele é acompanhado de um olhar cabisbaixo e um pequeno curvamento chamado de wai, ou ainda uma mão curvada em frente ao rosto, como se pedisse desculpas.

De acordo com Rachawit Photiyarach, professor de Comunicação Intercultural da Universidade de Bangcoc, “os tailandeses evitam confrontos porque eles vivem em uma cultura orientada para o coletivo. Demonstrar emoções é considerado imaturo ou grosseiro, então muitas pessoas dão valor a quem consegue se comportar calmamente em situações”.

“A sociedade tailandesa é altamente conservadora e tradicional. É uma cultura onde demonstrar prazer e emoção é controlada por normas sociais restritas. É por isso que demonstrar afeição publicamente entre casais é considerado grosseiro aqui”, afirma.

Sem confronto

Diferentemente de muitos países onde as pessoas simplesmente falam o que pensam, na comunicação tailandesa o ouvinte precisa saber um pouco da cultura para entender completamente o que está sendo dito.

Os tailandeses tendem a evitar confrontos, situações emocionais e qualquer coisa desagradável. Quando um amigo tailandês diz sim a você, ele pode estar na verdade dizendo não – se você sabe como interpretar suas palavras cheias de cortesia.

“As pessoas não dizem ‘não’ com frequência. Talvez entre amigos muito antigos, mas com outros, com colegas de trabalho e familiares, os tailandeses sempre dizem sim e depois explicam por que eles não podem fazer alguma coisa”, explica Photiyarach.

“Um tailandês sempre vai dizer sim porque a etiqueta social vai determinar que ele o faça.”

Por exemplo, um funcionário tailandês raramente vai negar algo a seu chefe. Se um gerente perguntar “você pode trabalhar no sábado?”, o funcionário pode responder “sim, mas meus pais vão jantar na minha casa e eu preciso pegar as crianças na aula de esporte à tarde”. A resposta está implícita e o ouvinte interpreta o significado.

Os tailandeses prezam por manter boas relações. Em um país em desenvolvimento onde a vida pode ser difícil, as pessoas se unem e tentam ajudar umas às outras. Relações harmoniosas são mais importantes do que estar certo ou errado, em concordar ou discordar ou até mesmo mais importantes do que o sucesso profissional.

Eles evitam dizer não para manter a paz.

Credibilidade

Palavras de desculpas não são comuns em tailandês. Dizer que você lamenta algo é admitir que você cometeu um erro e perder a credibilidade, uma das piores coisas que pode acontecer para alguém em muitas sociedades asiáticas.

Em uma cultura coletiva, a opinião do grupo é tudo. Os tailandeses preferem não perder a credibilidade mostrando disposição o tempo todo. Se eles cometem um erro, preferem jamais admiti-lo.

“É difícil recuperar a credibilidade quando você fez algo idiota ou inapropriado diante de muitos tailandeses. É o contrário da cultura ocidental, onde as pessoas tendem a te perdoar se você é honesto”, diz Photiyarach.

Em meus anos na Tailândia, aprendi a ser mais conciliadora, a pensar em formas de dizer “sim”.

Quando cheguei aqui pela primeira vez em um cargo de redatora, eu era a única pessoa a me impor e contrariar meu chefe – pensava que essa era a maneira de demonstrar que eu era um membro útil da equipe.

Contudo, eu não devo ter passado uma boa impressão, já que um colega tailandês mais tarde me descreveu como “uma pessoa com a guerra no coração”.

Tive de perceber que dizer sim a alguém – ou não dizer não – não significava que eu estava bajulando, talvez apenas que eu queria ajudar. Comecei a admirar a forma como os tailandeses frequentemente diziam sim, mesmo quando era às custas de seus próprios desejos e necessidades.

Morando em Bangcoc, é libertador saber que não importa o que você pedir, a resposta talvez não seja sim – pode ser “não sim” – mas raramente será não.

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