“Jovens querem virar traficantes por causa de Narcos”, diz filho de Escobar

Juan Pablo Escobar, filho de Pablo Escobar, voltou à Colômbia para escrever novo livro sobre o pai

Juan Pablo Escobar, filho de Pablo Escobar, voltou à Colômbia para escrever novo livro sobre o pai

Publicado no UOL

Por causa de séries de TV como “Narcos” e “El Patrón del Mal”, Pablo Escobar está mais famoso do que nunca. É o que pensa Sebastián Marroquín, filho mais velho do traficante. Usando seu nome de batismo, abandonado em prol do anonimato após a morte do pai, em 1993, Juan Pablo Escobar lança este mês no Brasil sua segunda compilação de relatos sobre o traficante colombiano. “Mais gente o conhece, por isso acho que é meu dever continuar contando a minha história para que menos pessoas a interpretem mal”, diz Marroquín em entrevista ao UOL.

Para escrever “Pablo Escobar em Flagrante – O que Meu Pai Nunca Me Contou” (Editora Planeta), Marroquín passou seis meses viajando pela Colômbia em busca dos familiares dos inimigos do pai. Além de histórias inéditas, o livro traz a denúncia de que Escobar tinha a colaboração do DEA (Agência Americana Anti-Drogas) para traficar nos Estados Unidos. “Publicar esse livro significa renunciar definitivamente ao meu visto”, afirma o autor, que tenta há anos obter uma autorização para visitar os Estados Unidos.

Há ainda um capítulo inteiro da obra dedicado a desmentir fatos mostrados na série “Narcos”. Para Marroquín, a abordagem da atração é irresponsável. “Temos uma nova geração de jovens querendo ser narcotraficantes, delinquentes e terroristas graças a ‘Narcos’ e à maneira como a Netflix está apresentando a história”, diz.

UOL – Como foi voltar à Colômbia para escrever o livro?
Sebastián Marroquín – Foi uma grande experiência porque foi como completar um quebra-cabeça do meu pai, e acho que faltava a opinião de seus inimigos. O ponto de partida foi o desejo de contar a história dele não somente do meu ponto de vista de filho, que já podia ser lido no meu primeiro livro (“Pablo Escobar Meu Pai – As Histórias Que Não Deveríamos Saber”). Foi um grande risco, eu poderia não estar aqui, poderia estar morto, mas valeu a pena porque permitiu que eu descobrisse coisas que desconhecia. Encontrei histórias que eu tive medo de publicar. A história da CIA [o livro diz que Central de Inteligência Americana facilitava a entrada de heroína nos Estados Unidos para financiar conflitos no mundo], a história do DEA. São histórias fortes, que envolvem agências muito poderosas. Publicar esse livro significa renunciar definitivamente ao meu visto.

Alguma história te fez mudar de opinião sobre o seu pai?
Não sei se mudou, mas me custa entender como é possível que meu pai tendo tudo o que tinha não soube falar “chega”, não tenha escapado daquela realidade e criado uma nova. Mas ele era um homem de palavra, que preferia morrer fazendo algo a não cumprir uma promessa. Foi isso que o levou à ruína. [Escrever o livro] não me mudou muito porque eu o conhecia de perto, sabia como era, como pensava, ele mesmo me dizia, mas me surpreendeu a quantidade de dinheiro que ele manejava. Eu sabia que tínhamos dinheiro, sabia que era muito, mas eu não via. Uma coisa é um presente que ele me dava, outra coisa era o dinheiro. O capítulo sobre o tesoureiro do meu pai acho que revela muito sobre essa realidade. Era uma quantidade enorme de dinheiro. Como ele mesmo dizia: era uma máquina.

Há um capítulo do livro que dá detalhes de como Pablo Escobar tinha a colaboração do DEA para transportar cocaína para os Estados Unidos. Por que essa ligação nunca foi investigada?
Nunca foi e nunca será. Não há interesse em investigar os culpados. Para que iniciar uma investigação se sabem que os culpados são justamente as instituições que defendem a proibição das drogas? Seria como atacar a si mesmo.

Alguma autoridade norte-americana te procurou para falar sobre o conteúdo do livro?
Até agora nada. Sempre acredito que não há muito o que dizer por parte deles. Também não tomo isso como algo pessoal. Meu compromisso é contar as histórias do meu pai, não só as minhas histórias. Mas obviamente eu as descobri e sou responsável por publicá-las. O que me parece importante não é dizer “esse país é culpado” ou “essa instituição é culpada”, mas sim alertar que essas realidades de corrupção só acontecem por causa da proibição. Essas histórias não existiriam se não houvesse esse contexto político que as favorecem. Para que a corrupção exista é preciso que haja um negócio que produza muito dinheiro, e a melhor maneira de fazer um produto barato ficar caro e muito rentável é proibi-lo. Quando você o proíbe, você o deixa mais caro. Conto as histórias para que o mundo reflita e pense que é a hora de declarar paz às drogas. Essa história de declarar guerra às drogas não funciona mais. Já estamos há 100 anos lutando contra as drogas e qual a diferença? O que mudou? O consumo diminuiu? Não, só aumentou. O tráfico diminuiu? Não, só aumentou. A corrupção? Só aumentou. A venda de armas? Só aumentou. E assim estamos cada vez pior, cada vez com mais violência, cada vez com mais histórias de corrupção em níveis mais altos. Então essa estratégia não funcionou. É necessário declarar morta a guerra contra as drogas, porque ela foi perdida.

Por que você prefere usar o termo regularização das drogas em vez de legalização?

Porque estou certo de que se eu ou você quiséssemos comprar drogas agora mesmo, nós conseguiríamos. Está legalizado. Se pedirmos uma pizza e uma droga ao mesmo tempo é capaz de que a droga chegue primeiro. Prefiro usar o termo regularizar porque é quando o Estado intervém. Porque o Estado vai poder falar que é proibido colocar vidro moído na cocaína, porque, você sabe, tem vidro moído. A cocaína não é boa, mas é pior porque está proibida. Essa guerra garante que a cocaína vendida seja a pior possível. A cocaína vendida no mercado te destrói mais do que poderia destruir uma cocaína com menos venenos agregados.

Você tem viajado o mundo palestrando sobre a história de Pablo Escobar e a regularização das drogas. É claro que cada país tem uma realidade diferente, mas existe um pensamento mais comum em relação à descriminalização?
Há uma grande curiosidade em saber qual a outra alternativa para enfrentar o problema das drogas. Onde eu chego, falo com políticos, militares e policiais, e eles me perguntam: “o que fazemos, como solucionamos esse problema”. E eu lhes digo: “A única maneira é declarando paz às drogas, aceitando que é uma realidade da humanidade e aprendendo a conviver com elas, mas com outras ferramentas que atenuem seu impacto na sociedade”. A educação é a principal.

Todos os capítulos de “Narcos” começam dizendo que a série é baseada parcialmente em fatos reais. Todos sabem que há histórias de pura ficção ali. Por que incluir no livro uma lista de erros da segunda temporada?
Escrevi 28 erros da segunda temporada. Não quis escrever os erros da primeira porque teria que fazer outro livro. Não me oponho a contarem histórias, mas tem que saber contar. Você pode contar a história de Pablo Escobar para mostrar aos jovens que esse não é o caminho correto a seguir, mas também pode contar como fez a Netflix. Agora há milhões de pessoas fanáticas pelo meu pai porque a série o glorifica, o mostra como um herói. Ele está sempre se escondendo em lugares bonitos. Não há uma perspectiva real de como ele se se sente como pessoa. Pablo Escobar não sente nada. Ele é sempre poderoso, as balas passam pelos lados, a polícia abre o caminho. Isso nunca foi assim. A série não me mostra passando fome como eu passei, mesmo tendo milhões. Mas eu entendo que a versão comprada pela Netflix é a versão do DEA, mas é claro que não incluíram o nome Barry Seal [piloto de Escobar que trabalhava como informante do DEA). O nome dele não é mencionado nem na primeira nem na segunda temporada. Estão querendo contar a história com alguns ajustes para que o único culpado siga sendo meu pai. Eles estão se pintando como vítimas, quando na realidade eles eram parte também.

No livro você também conta que depois de “Narcos” passou a receber mensagens de jovens querendo ser iniciados no tráfico de drogas. O que eles te dizem?
São contatos por Facebook, Twitter, Instagram. Mandam fotos de tatuagens do meu pai, colocam bigodes iguais ao do meu pai, mandam vídeos falando os bordões da série, coisas como “plata o plomo”. Eles dizem: ‘Quero ser como seu pai, como posso entrar nesse mundo? ’. Costumo responder e recomendar que leiam meu livro e conheçam a verdadeira história. Muitos entendem e enxergam que não é bem assim. Mas é o que “Narcos” está gerando. E é por isso que a Netflix é irresponsável. Temos uma nova geração de jovens querendo ser narcotraficantes, delinquentes e terroristas graças a “Narcos” e à maneira como a Netflix está apresentando a história.

Você gostaria que seus livros virassem uma série de TV ou um filme?
Algum dia, mas preciso encontrar as pessoas com dinheiro e coragem. Até agora os que contaram a história de Pablo Escobar não contaram para revelar quem era Pablo Escobar, contaram uma versão da história do meu pai para ocultar seus próprios pecados.

Ainda há muitas histórias a serem contadas sobre Pablo Escobar?
Meu pai foi um grande gerador de histórias. A cada dia eu descubro mais coisas sobre ele. Acho que não vou terminar de descobrir tão cedo. Hoje meu pai é mais famoso do que nunca. Mais gente o conhece, por isso acho que é meu dever continuar contando a minha história para que menos pessoas a interpretem mal. Por mais violentas que sejam, por mais cruéis que sejam, precisamos contar como elas foram, para que possamos entender o significado e aprender as lições reais.

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