As mães refugiadas de Berlim

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Publicado em O Globo

Muitas caminharam meses com bebês no colo. Outras viam no exílio a chance de reencontrar os filhos que haviam partido ou a chance de viverem em paz. Mas o fim da travessia não foi bem o que algumas delas, que passam este Dia das Mães em um abrigo em Berlim, esperavam.

Traumatizadas pela guerra e pela fuga, as mulheres são as principais vítimas entre os refugiados. Segundo um estudo da Charité, uma clínica universitária de Berlim, elas sofreram com a guerra civil e o terrorismo nos seus países e foram também vítimas da violência sexual durante a fuga. Mulheres com crianças são a maioria dos cerca de 240 refugiados que vivem no abrigo da Rua Soor, no elegante bairro de Westend. A aparência idílica do antigo posto de alfândega em uma rua pontilhada de árvores engana. Sírias, iraquianas e afegãs estão distante da violência dos seus países, mas sofrem com a perspectiva de um futuro incerto. O processo de reconhecimento do asilo é lento, a possibilidade de volta às suas cidades é remota e a discriminação da população local é real.

Segundo o estudo, 81% das refugiadas têm filhos de menos de 7 anos, que sofrem com o dia a dia em um abrigo coletivo, onde não há infraestrutura para as crianças em idade pré-escolar. Mesmo assim, elas consideram ter superado a pior etapa da luta pela sobrevivência.

— Quem conseguiu sobreviver a Aleppo (cidade síria), à fuga por terra e mar, consegue suportar os problemas que temos aqui — desabafa Wafa Awad, em Berlim desde janeiro.

O principal problema para os refugiados hoje é o medo de ter que voltar para seus países: 40% dos pedidos de asilo dos que chegaram ao pais no ano passado foram recusados.

Nasrin Murad, uma yazidi vinda do Iraque, disse que nunca teve tanto motivo para comemorar o Dia das Mães. A água que corre da torneira no abrigo da Rua Soor é fria, o pedido de asilo ainda não foi reconhecido, mas ela está feliz. Nasrin e a mãe, Amal, enfrentaram sozinhas a fuga, que começou com momentos de um medo desesperado de serem capturadas pelos militantes do Estado Islâmico — que têm feito feito prisioneiras mulheres dessa minoria. Mesmo com câncer no abdômen, Amal, de 55 anos, não pensou em tratamento, fosse em Sinjar, no Iraque, ou durante os três meses de fuga. Só depois de chegar a Berlim, no ano passado, ela foi operada e julga ter superado a doença.

— Nós já passamos por momentos terríveis. Aceitamos tudo, menos voltar à nossa cidade, destruída — comentou Nasrin.

O pai morreu na guerra. Ela não tem notícias dos outros parentes, e acha que a situação no Iraque ainda está longe de uma solução.

— Principalmente as minorias, como a nossa, têm medo da perseguição. Além disso, por que voltar para uma cidade destruída? Como Kobani, também Sinjar foi arrasada — contou a yazidi.

A longa fuga das duas mulheres foi um calvário. A mãe, que não quis ser fotografada, sentia dores, mas não admitia interromper a viagem.

— Sabíamos que, se parássemos, estaríamos renunciando à nossa própria sobrevivência — lembrou Nasrin, enquanto caminhava ao lado de Wafa em direção ao curso de alemão.

No final deste mês, Nasrin completará 25 anos. Ela lembra que o presente que mais deseja seria o reconhecimento do status de refugiada para ela e sua mãe. O conflito em todo o mundo árabe, ainda em ebulição, despertou fantasmas antigos, como o forte preconceito contra os yazidis.

— Entre nosso povo é cada vez mais forte o desejo de autonomia, assim como acontece com os curdos — disse.

Se tiver o pedido de asilo reconhecido, ela vai começar sua próxima luta: alugar um pequeno apartamento para viver com a mãe.

Quando os problemas começaram, a síria Khamlaa Alaya, de 32 anos, tinha a impressão de que ela e sua família não sobreviveriam. Mas agora, com o marido, Hassan, um ex-operário da construção civil, e os quatro filhos ocupando dois quartos no abrigo de refugiados da Rua Soor, considera que está tudo dando certo, pelo menos até agora.

A família de Khamlaa vem de uma cidade próxima a Damasco. Depois de ver que a situação na Síria estava ficando insuportável, ela e Hassan resolveram deixar sua casa e parentes e partir para a Europa.

— Tínhamos notícias de conhecidos que se deram bem na Alemanha — contou.

Mas a família logo começou a crescer. Além dos três filhos pequenos — o mais novo era Ibrahim, ainda de colo — ela descobriu que estava grávida. Nos últimos meses de fuga, temia que o bebê nascesse a qualquer momento no campo de refugiados na Turquia ou na Grécia, por onde também passou.

— Os piores momentos foram durante a viagem de navio, quando enjoava e achava que ia morrer a cada solavanco — recordou.

Khamlaa lembra que chegou a Berlim no último momento. Poucos dias depois de chegar, seu quarto filho, que tem agora 1 ano de idade, nasceu.

— O único problema real, no momento, é a incerteza sobre o futuro. O nosso status de refugiados não foi ainda reconhecido e isso significa o medo de a qualquer momento ter que voltar para o inferno — lembrou a síria, que em poucos meses aprendeu a falar alemão.

Pouco depois de dizer isso, ela se voltou para a administradora do abrigo e perguntou se a ajuda financeira para a assistência de um advogado fora reconhecida. Como muitos refugiados, também Khamlaa e Hassan não confiam na burocracia e lutam com a ajuda de um advogado, por ironia, financiado pelo governo municipal, na luta jurídica contra o próprio município, que não reconheceu o pedido de asilo da família — mesmo mais de um ano após seu filho mais novo ter nascido em Berlim.

Wafa Awad, de Aleppo, ainda não conseguiu aprender o idioma alemão. Para resolver os compromissos dela e da filha de 5 anos com as autoridades, conta com a ajuda de Nasrin Murad, que assumiu uma espécie de liderança no abrigo das mães refugiadas de Westend.

Apesar de ser quase o fim da manhã, muitas crianças, como a filha de Wafa, ainda estavam dormindo. Nesse ambiente de adultos traumatizados, as crianças vivem quase na sombra, em um plano secundário.

Ainda em estado de choque, Wafa, que se veste rigorosamente como uma muçulmana tradicional, diz sentir como se o passado recente fosse um pouco irreal. Ela se recusa a contar detalhes da fuga. A filha pequena conseguiu superar a viagem e o marido, que havia fugido para a Alemanha meses antes, também chegou bem.

— O problema mais grave que temos hoje é que, por causa da burocracia, o meu marido vive em uma outra cidade — disse a síria.

Todos os esforços para reunir a família não deram certo. Wafa com a filha, que vieram de um campo de refugiados da Turquia via Grécia, continuam no abrigo de Westend, enquanto o marido fica em uma residência para homens perto de Colônia. Antigamente havia na Alemanha uma lei que estabelecia a “reunião das famílias” como meta prioritária. Mas com o grande número de refugiados, a lei foi arquivada.

Segundo Wafa, a situação da maioria dos sírios é muito pior do que a sua. Ela conta sobre mulheres e crianças que morreram na guerra antes de ter a chance de vir para a Europa. Enquanto falava, em árabe, uma senhora alemã de meia idade, que passeava com o seu cachorro dackel, minúsculo e pretinho, comentou alto:

— Nós recusamos essa vizinhança!

Wafa respondeu com um sorriso, porque não entendeu a alfinetada.

Segundo a encarregada do abrigo, há também manifestações de solidariedade, como vizinhos que trazem brinquedos para as crianças.

— Berlim parece um paraíso em comparação com a Síria que deixamos — continuou Wafa, sempre sorridente.

Hama Darya, que vivia em Aleppo, quase morreu de aflição durante a fuga, quando perdeu de vista o filho. Ela julgava que Yusuf, hoje com 28 anos, tivesse morrido. Depois de muitos meses em um campo de refugiados na Turquia, Hama foi beneficiada pelo acordo entre a União Europeia e Ancara, podendo embarcar para a Alemanha, legalmente, em janeiro último.

A síria, que antes da guerra trabalhava como cabeleireira, reencontrou o filho depois de chegar a Berlim. Mas uma surpresa igualmente forte veio. Yusuf, que chegara ao país muito antes dela, havia conhecido uma alemã de Stralsund. Cherrie acaba de ter um bebê, o primeiro neto de Hama. Assim mesmo, ela continua no abrigo coletivo para não atrapalhar o jovem casal.

Distante da pátria, Hama, que pouco se interessa por política, passou a analisar a situação. Segundo ela, não há “bonzinho” ou “bandido”. No inicio do conflito, muitos acreditavam que o movimento era uma luta democrática pelo fim da ditadura. Mas logo depois do inicio da guerra civil, há sete anos, começou a crescer o número dos jihadistas, que desde então também lutam para tomar o poder.

— Todos os envolvidos são igualmente culpados. Nem sonhamos com uma solução, porque o ódio entre os envolvidos continua forte — disse ela.

Na sua opinião, nada justifica o preço exorbitante que tem sido. O marido morreu na guerra, como milhares de outros sírios. E os que sobreviveram têm medo da opressão jihadista. Para mostrar que desdenha da radicalização religiosa, ela abdicou definitivamente do lenço muçulmano.

— O meu filho, especialista em informática, aprova a minha decisão. Cada um deve decidir como se veste, mesmo no caso do xador — acrescenta.

Ela está traumatizada e não admite de forma alguma ser fotografada.

— Quem sabe essa foto pode aparecer na internet e cair nas mãos erradas — explicou.

O clima de medo é grande entre os refugiados.

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