A blasfêmia que contrariou a Bíblia sobre a verdadeira idade da Terra

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Rochas expostas mostravam camadas distintas

Publicado na BBC Brasil

Como muita gente vivendo no século 18, James Hutton era religioso e acreditava que Deus tinha criado o mundo.

Porém, o escocês não conseguia aceitar que a única fonte de informações para seu interesse em geologia, em especial, o processo de formação da Terra – e das colinas que cercavam sua cidade natal, Edimburgo – era a Bíblia.

Em 1747, ele deu início, então, ao que na época era pura blasfêmia: questionar a data da Criação, que algumas edições da Bíblia disponíveis até forneciam com precisão: sábado, 22 de outubro do ano 4004 a.C.

Hutton acreditava que Deus tinha dado um sistema de leis naturais para o mundo. E que nada tinha ocorrido tão recentemente quanto até alguns cientistas afirmavam.

Nas montanhas escocesas, James Hutton provou, no século 18, que o mundo era muito mais velho do que se imaginava

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Escândalo providencial

Hutton foi descrito por seus pares como um homem divertido, que gostava de uísque e era mulherengo.

Curiosamente, seu apreço pelo sexo oposto foi determinante para sua carreira científica: ele engravidou uma amante e foi banido de Edimburgo para limitar os danos à reputação da família. Passou a viver em um sítio de propriedade do pai, no sul da Escócia, quando tinha 26 anos.

Foi na pequena propriedade rural que ele desenvolveu suas teorias sobre o planeta.

Era um lugar sombrio, chuvoso e açoitado pelos ventos. Pior, as águas levavam do solo os nutrientes de que Hutton precisava plantar alimento. Ele temia que simplesmente fossem erodir tudo.

Mas isso não fazia sentido diante da teoria de que Deus tinha desenhado um planeta capaz de se reconstruir.
O escocês passou a observar rochas e viu que elas tinham camadas sutilmente distintas.

Entendeu que elas eram faixas de sedimentos que a água havia trazido e depositado em diferentes momentos, ano após ano, e que lentamente se compactavam para formar a rocha.

“Forno profundo”

Reflexões sobre erosão em seu sítio levaram escocês à descoberta

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Sobretudo, ele concluiu que criação e destruição da Terra não tinham sido os acontecimentos repentinos e dramáticos narrados pela Bíbilia, mas sim ações lentas e imperceptíveis ao longo do tempo.

O solo que via era criado a partir dos escombros do passado.

Aos 41 anos, Hutton voltou a Edimburgo, em pleno apogeu do Iluminismo na Escócia. Edimburgo era uma das capitais intelectuais do mundo e ele aproveitou para circular sua grande ideia. Especialmente junto amigos famosos como o químico Joseph Black, descobridor do gás carbônico, e Adam Smith, uma dos mais influentes economistas da história. Juntos, fundaram o Clube das Ostras, um lugar para beber e debater.

Hutton sabia que nem todas as rochas tinham capas de sedimentos, o que levava a crer que havia outra maneira de se formarem. Foi com ajuda de outro amigo – o inventor do motor a vapor, James Watt, que ele encontrou a solução.

Fascinado pelas máquinas de Watt, Hutton começou a se perguntar se a Terra também não era alimentada por calor – e quiçá o planeta não teria em seu centro um poderoso motor térmico.

Ainda que cientistas ao longo dos anos já tivessem visto vulcões ativos, eles eram tratados como fenômenos isolados.

Hutton foi a primeira pessoa a imaginar que o centro da Terra era uma bola ardente e que vulcões funcionavam como escapamentos para esse forno nas profundezas.

Um forno que também teria poder para criar rochas que nasciam fundidas.

Embaraço e desafio

Antes de Hutton, a Bíblia era a principal fonte de conhecimento sobre geologia

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Em 1785, persuadido pelos amigos intelectuais, Hutton apresentou sua teoria na Academia Real de Edimburgo.

Extremamente nervoso, ele não teve um bom desempenho. A teoria não só foi rechaçada como Hutton ainda foi acusado de ser ateísmo e heresia, algo escandaloso para a época.

Um dos maiores problemas que ele teve foi quando tentou refutar a crença de que o granito não era “a pedra fundamental usada por Deus na criação da Terra”.

Hutton afirmava que este tipo de rocha era um exemplo de material jovem e que tinha sido um dia quase líquido.

Ele precisava provar, porém. E, aos 60 anos, em vez de simplesmente dar de ombros, foi buscar as evidências.

Escolheu como local o Vale de Tilt, ponto de encontro dos grandes rios da Escócia – o Dee, que corre sobre um leito de granito rosa, e o Tay, sobre arenito (cinza).

Hutton imaginava que o encontro dos rios lhe daria provas de sua teoria. E foi assim: ele encontrou rochas estratificadas cinza com granito rosa injetado.

Isso demonstrava que o granito estava fundido quando se encontrou com as rochas cinza, e que havia um “motor gigante de calor” em ação. Além disso, sustentava seu argumento de que Terra tinha sofrido mudanças desde a Criação, ao contrário do que dizia a Bíblia.

Essas observações já provavam grande parte da teoria de Hutton de que a Terra era um sistema. Mas ele ainda queria saber a idade do planeta, em especial se era mais antigo que os milhares de anos sugeridos pela Bíblia.

Muitos milhares de anos

Em 1788, Hutton tomou o rumo de Siccar Point, uma formação rochosa na Costa Leste escocesa. Ele estava intrigado pelos diferentes ângulos das rochas ao longo dos desfiladeiros – em alguns pontos eram verticais, enquanto em outros eram horizontais.

Observando-as, ele concluiu que a diferença se devia a ciclos geológicos, em que uma variedade de tipos de rocha se intercalavam.

Na época, Hutton são sabia que estava vendo o resultado do movimento de placas tectônicas, mas tinha informações suficientes para deduziras que as alterações não tinham como ocorrer no templo bíblico, mas sim no que chamou de tempo profundo.

Esse conceito foi um avanço extraordinário, tão significativo como a Teoria da Evolução das Espécies de Darwin ou a Teoria da Relatividade de Einstein.

James Hutton vislumbrou a verdadeira e vasta idade da Terra, um descobrimento que nos permitiu reconstruir a complexa história de nosso planeta.

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