Não sorrir nem sair: é disso que você precisa quando está triste

publicado no https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/29/ciencia/1504000199_685876.htmlEl Pais

Se a vida ter der limões, faça uma limonada. Muito bonito. Mas você não gosta de limonada. É azeda e te obriga a fazer aquela cara… “picassiana”. Mas melhor não dizer isso em voz alta, não verbalizar, porque vão te chamar de pessimista. Vão dizer que é um fraco, que não sabe curtir a vida. Então é preciso continuar sorrindo. Porque se você sorrir para a vida, ela te sorrirá de volta. Porque se você se convencer disso, tudo correrá bem. Porque, se você é capaz de sonhar, é capaz de fazer. E assim por diante. Esse é o caminho para a felicidade. Tem certeza? Dúzias de estudos afirmam que não, que deixar-se arrastar pela depressão e pelo desânimo é tão ruim como evitar os problemas e sorrir sem nenhum fundamento, criando assim uma tendência contrária ao otimismo mal compreendido e defendendo a necessidade de, por que não, estar de cara amarrada de vez em quando.

Uma das vozes mais decididas na luta contra a sobrecarga de felicidade é a da ativista norte-americana Barbara Ehrenreich. Em seu livro Sorria: Como a Promoção Incansável do Pensamento Positivo Enfraqueceu a América, ela lança sua alternativa ao que chama de “meia realidade”, aquela caravana de mensagens ilusórias em que a sociedade parece acreditar. Ehrenreich teve um câncer de mama e, durante seu processo de cura, comprovou que ninguém lhe permitia sentir-se assustada, preocupada. Mas não cedeu: por que não teria medo em uma situação tão crucial? Em sua tese, ela afirma o que lhe parece mais lógico: olhar para o outro lado não resolve os problemas nem faz você se sentir melhor, só aprendendo a administrar as emoções de forma correta é que se pode viver realmente conectado com os sentimentos e levar uma vida condizente com aquilo que está ocorrendo.

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“Pretender experimentar só emoções positivas é tão absurdo quanto impossível”, afirma Rosana Pereira, psicóloga da clínica Haztúa e especialista em Psicologia Positiva, que acrescenta: “É evidente que, diante uma situação normal, é preferível ser otimista, mas as emoções ditas negativas cumprem uma função adaptativa que nos ajuda a sobreviver”. Porque a raiva, a tristeza, o estresse e o medo são mecanismos que, bem administrados, nos permitem adaptar-nos a nossa realidade e vislumbrar soluções ou rotas de fuga. “É assim desde que o homem é homem: o homem das cavernas não tentava dialogar com um guepardo nem fazia caso omisso quando o animal ia atacá-lo; simplesmente fugia o mais rápido possível movido pelo medo de ser devorado”, constata Pereira.

Sentimentos como medo, raiva, esgotamento ou frustração devem servir como motor de mudança, devem revelar-se como o germe que aciona o pensamento crítico e a busca de alternativas. Negá-los só fomenta a rigidez emocional e ainda traz um grau extra de mal-estar a quem já se sente mal por uma situação negativa: saber-se incapaz de sorrir para a vida. Segundo Ángel Luis Sánchez, psicólogo e diretor do Instituto de Desenvolvimento, ignorar esses alertas é perigoso: “Um medo não ouvido pode levar, com o tempo, a ataques de pânico descontrolados, assim como uma tristeza ignorada pode transformar-se em depressão”.

Por isso, eles não devem ser evitados, mas tampouco se pode permitir que subjuguem a vontade. “O importante é que ninguém fique preso no derrotismo e que entenda que tudo que sente é uma resposta lógica ao que lhe acontece”, continua Pereira, estabelecendo assim a linha divisória entre os fundamentos da Psicologia Positiva e as frases categóricas dos gurus da felicidade. E define a primeira como um complemento da Psicologia tradicional, uma vez que “não se limita a arrumar uma situação de dor emocional, mas mostra as pautas para administrar melhor essas emoções adaptativas negativas e ensina a enfrentar os problemas e obter maior bem-estar”.

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