Youtubers holandeses se drogam em nome da ciência e em busca de cliques

150584725559c167d720b5e_1505847255_16x9_md

Publicado na Folha de S. Paulo

Rens Polman se sente tão “lekker” (“agradável” ou “gostoso”, em holandês) sob o efeito de ecstasy. O jovem é uma de três pessoas na Holanda que testam drogas ilegais em seu canal no YouTube, “Drugslab”. Quando ele faz uma “viagem” movida a substâncias ilícitas, outros podem testemunhar o efeito das drogas sobre seu corpo.

Cocaína, cogumelos, cetamina —os youtubers tomam qualquer coisa que os espectadores pedem na seção de comentários de seus vídeos. Alguns dos vídeos já foram vistos mais de 1 milhão de vezes.

“Testamos as drogas em nome da ciência”, explica Polman. “Acompanhamos as mudanças de frequência cardíaca e temperatura corporal. Testamos as habilidades motoras e a capacidade de pensar sob o efeito da droga.”

Os youtubers ficam sentados num laboratório com uma bandeira holandesa e tubos de ensaio sobre a mesa. A sala é banhada em luz verde. À esquerda é possível divisar um pé de maconha. A fórmula química do ecstasy está escrita sobre uma lousa. Um televisor de tela plana está pronto para mostrar a temperatura corporal e a frequência cardíaca das “cobaias”.

Jovens, loiros e descolados, Polman e Nellie Benner são os apresentadores de hoje. Bastian Rosman, o colega deles, está de folga. Cada semana, dois dos três youtubers apresentam o programa. Um deles “faz a viagem” (usando o jargão apropriado). O outro observa.

Eles jogam “pedra, papel ou tesoura” para ver quem será a cobaia. Rens Polman perde, então é a vez dele. No cardápio de hoje: ecstasy.

“É preciso cerca de 1,5 miligrama da droga por quilo de peso corporal”, Polman explica a seus espectadores. O ecstasy é ilegal na Holanda. Os comprimidos que ele tem na mão vieram do mercado negro. “Há 126 miligramas de MDMA nestes comprimidos. Esse é o ingrediente ativo do ecstasy.”

Benner parte o comprimido ao meio —basta metade— e dá um tubo de ensaio de água a Polman, que engole o ecstasy. Duas horas mais tarde, ele começa a sentir os efeitos das pílulas. Ele consumiu uma refeição grande antes, de modo que a droga demorou um pouco mais a se fazer sentir.

Polman, 25 anos, começa a sentir calor e formigamento. Suas mãos estão úmidas e sua boca está seca, mas ele se sente “tão bem” que começa a dançar.

“Muitas pessoas acham que o ecstasy contém anfetaminas, porque a pessoa se sente tão energizada enquanto está sob o efeito da droga”, explica Benner. “Mas não é verdade.”

A MDMA também tem esse efeito. Polman estica os braços e começa a movê-los em círculos. Seus olhos estão semicerrados. Uma música tecno começa a tocar. Os efeitos do ecstasy sobre o corpo de Polman parecem divertidos.

De repente Polman sente amor tão intenso que é impelido a abraçar sua colega. “O ecstasy libera serotonina, dopamina e adrenalina no cérebro”, Benner fala para a câmera. “É por causa da serotonina que você está sentindo tanto amor por mim neste momento.”

NOVA GERAÇÃO

O “Drugslab” é misto de vídeo explicativo e “viagem” de drogas financiada por dinheiro público. A ideia de divulgar os efeitos das drogas on-line não é novidade na Holanda. Desde 2005, a emissora pública BNN vem colocando no ar uma série de televisão intitulada “Spuiten en Slikken” (injetar e engolir), em que os moderadores experimentam substâncias ilegais.

O que o “Spuiten en Slikken” é para a geração mais velha, o “Drugslab” é para a mais jovem. “Os jovens querem ver pessoas de verdade usando drogas de verdade”, diz o criador do programa, Jelle Klumpenaar. Ele descreve o programa como “um canal do YouTube educativo”.

Ele teve a ideia quando viu jovens em um festival de música completamente alterados, sob o efeito de drogas. “Me perguntei ‘como é possível que esse pessoal esteja nesse estado?’.”

Klumpenaar acha que acidentes como esses aconteceriam com menos frequência se os jovens fossem bem informados sobre as drogas. Esse é o propósito do “Drugslab”. Mas estará funcionando?

A série mostra experiências reais com drogas: mostra como Polman se sente “bem”, mas também como sua boca fica aberta e seu maxilar se move de um lado para o outro, seus dentes rangem e suas pálpebras caem, de modo que só é possível enxergar o branco de seus olhos.

“Se você me conhecesse numa festa e eu estivesse desse jeito, seria um pouco assustador”, fala Benner. “Os usuários de MDMA frequentemente sofrem movimento de maxilares e rangidos de dentes incontroláveis, e os músculos do rosto se contraem.” Polman, enquanto isso, aparenta estar em um estado intermediário entre contorção facial e orgasmo.

Os youtubers não dizem nada sobre os perigos do consumo de substâncias ilegais. Apenas aconselham os espectadores a sempre mandar testar as drogas antes de consumi-las.

TESTE DO ESTADO

Na Holanda, diferentemente da maioria dos outros países da Europa Ocidental, existem locais pagos pelo Estado onde usuários de drogas podem mandar testar as substâncias que vão usar. Em 2016, mais de 12 mil consumidores mandaram suas drogas serem examinadas pelo Sistema de Informação e Monitoramento de Drogas (Dims, na sigla original). Mais de metade das drogas testadas foram comprimidos de ecstasy.

O programa não visa beneficiar apenas os usuários. Ele também ajuda as autoridades holandesas, por ajudá-las a saber quais drogas estão circulando no mercado negro.

“Sabemos que substâncias estão contidas nestas drogas graças aos testes. Assim podemos lançar avisos quando as drogas contêm substâncias nocivas adicionais”, diz Daan van der Gouwe, que coordena o programa do Dims.

No ano passado ele lançou uma campanha nacional para avisar à população sobre o ingrediente PMMA no ecstasy. O PMMA custa menos que a MDMA e por essa razão é acrescentado ao ecstasy. Seu consumo pode levar à morte, porque ele pode provocar elevação acentuada da temperatura corporal e hemorragias internas.

“Uma segunda tendência perigosa é que os comprimidos de ecstasy vêm ficando cada vez mais fortes”, diz Van der Gouwe. “Um comprimido de ecstasy hoje contém mais que o dobro de MDMA que um comprimido de dez anos atrás.”

Em outras palavras, basta meia pílula para ter o efeito desejado. Mesmo assim, muitos usuários continuam a engolir um comprimido inteiro. Van der Gouwe explica que isso é arriscado, porque uma overdose pode desencadear problemas cardíacos e elevar a temperatura corporal.

Ele avisa que mesmo drogas “limpas” podem ser fatais. “Os médicos vivem informando sobre mais pacientes que andam sofrendo overdoses de pílulas fortes. As pessoas pensam que o ecstasy é uma droga inofensiva para se consumir em festas, mas não é o caso”, ele concluiu.

Os youtubers não falam sobre o perigo de uma overdose. Eles tampouco mencionam os ingredientes perigosos que podem estar contidos em drogas ilegais nem o que acontece quando uma pessoa consome drogas adulteradas.

Em um lugar como a Holanda, isso é crítico porque, com a exceção da maconha e algumas outras substâncias naturais, a maioria das drogas é ilegal, de modo que o Estado não as fiscaliza antes de chegarem ao mercado.

“Testamos apenas uma parte muito pequena das drogas que realmente estão no mercado”, explica Van der Gouwe. “A maioria dos usuários continua a consumir drogas sem testá-las de antemão. Mas pelo menos eles agora têm a possibilidade de testá-las antes.”

As pessoas que fazem uso do programa Dims tendem a ser mais instruídas, razão pela qual a alegação de que o programa “Drugslab” é educativo não é falsa. Mesmo assim, as pessoas que assistem ao programa admitem que ele desperta sua curiosidade de experimentar as substâncias que são mostradas no programa.

Os espectadores ficam sabendo que, quando está sob a influência de ecstasy, Polman não consegue pegar uma bola de tênis. Mas elas também veem seu prazer quando ele chupa um picolé estando sob o efeito de MDMA. Os youtubers dizem que isso é fazer “um teste científico”.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Youtubers holandeses se drogam em nome da ciência e em busca de cliques

Deixe o seu comentário