‘Ex-gay’ e ‘ex-ex-gay’ divergem sobre ‘cura’ para homossexualidade

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‘Ex-ex-gay’, Sergio Viula, 48, era pastor e desistiu de tentar abandonar seu desejo por homens

Publicado na Folha de S. Paulo

Claudemiro Soares, 43, se diz “ex-gay”. Sergio Viula, 48, “ex-ex-gay”. O primeiro é evangélico. O segundo, “ex-crente”. Em algum ponto da vida, os dois buscaram a “cura gay”, na igreja e no divã.

Ambos se consideram um “case” de sucesso. Claudemiro, por ter se livrado do “demônio” do “homossexualismo”. Sergio, por concluir que renegar sua natureza era uma baboseira que nada tinha a ver com Deus. Se o desfecho diverge, o ponto de partida é o mesmo: uma infância atormentada pelo bullying –em casa, na escola, nas ruas. Eram, na palavra dos próprios, crianças “afeminadas”.

Autor de “Homossexualidade Masculina: Escolha ou Destino?” (2008), Claudemiro se diz “infernizado pela militância LGBT”. Mestre em saúde pela Fiocruz, ele discursou como especialista numa audiência judicial que terminou com vitória para psicólogos cristãos favoráveis ao atendimento de pacientes que desejem “reorientação sexual”.

Há nove dias, uma decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal do Distrito Federal, reacendeu a polêmica. Ele concedeu uma liminar que suspende parte de uma resolução do CFP (Conselho Federal de Psicologia) contrária à prática –a autarquia recorreu.

Por trás da causa estão psicólogos como Marisa Lobo, que já se definiu como “coach” do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), e Rozângela Justino, punida pelo conselho em 2009 por tratar homossexualidade como distúrbio. Rozângela é também assessora do deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), ligado ao pastor Silas Malafaia, ela evoca sua fé nas redes sociais ao reagir a notícias como “sexo oral ajuda a espalhar a superbactéria da gonorreia” (“Deus fez tudo perfeito, toda vez que o homem perverte se dá mal!”).

A ação acusa o órgão de praticar “ato de censura” ao impedir “psicólogos de desenvolver estudos, atendimentos e pesquisas científicas”. O juiz frisou que ser gay é “uma variação natural da sexualidade humana”, e não “condição patológica”, rótulo descartado em 1990 pela Organização Mundial da Saúde. Dito isso, determinou que o CFP não vete estudos ou atendimentos, “de forma reservada, pertinentes à (re)orientação sexual, garantindo a plena liberdade científica”.

‘JEITO AFEMINADO’

Para Claudemiro, uma vitória. Em 2015, no púlpito de uma igreja, ele disse que orou para que Deus “mudasse” seu “jeito afeminado”. “Como vocês podem ver, Ele fez um bom trabalho. Aleluia!”, brada no vídeo do testemunho, que sobrepõe à imagem do orador o link www.oexgay.com.

À Folha ele conta que, após se converter evangélico, buscou auxílio de um psicólogo que lhe aplicou a EMDR (sigla em inglês para “reprocessamento e dessensibilização pelo movimento ocular”). Usada contra estresses pós-traumáticos, a terapia promete reeducar o cérebro a “digerir” perturbações passadas.

Claudemiro afirma que também praticou a “auto-hipnose”. Nela, repete para si: “Sou homem, sou satisfeito com minha masculinidade”.

Ele atribui seu “superado” interesse por homens a vários motivos. Sofreu “abuso homossexual” aos 8 anos, alvo de um jovem de “uns 19”.

Também sofria com a rejeição paterna, por ser o único “branquinho” dos 12 filhos. Diz que, sem referência masculina, começou a adquirir “trejeitos”. Os irmãos insinuavam que ele era filho bastardo e o chamavam de “mariquinha” por ter “trejeitos” e não dar bola para futebol. Acabou virando mesmo, diz. “É uma profecia que se autorrealiza.”

Um trauma infantil: o pintor que retratou a família como pai, mãe, sete filhos e cinco filhas. Eram, na verdade, oito meninos –só que ele foi computado na ala feminina. O pai riu. Ah, se fosse com um filho de Claudemiro. Ele breca o discurso. “Não convém a um crente fazer o que eu gostaria com aquele pintor.”

Outro: a irmã que lhe perguntou quem era o mais bonito dos Menudos. “Eu já sabia que homem não pode achar homem bonito.”

Ele era bombeiro quando engatou relações “com um sargento da PM, um médico, um professor, um assessor de ministro de tribunal…”. Aderiu a drogas e baladas. Já acordou empapado de sangue sem saber por quê. Um amigo esclareceu: Claudemiro “levou um murro” após passar a mão “nas nádegas de um rapaz”.

Certa vez, fez limpeza de pele e estranhou a esteticista, que “marchava”. Ela, evangélica ex-mãe de santo, justificou: estava a “repreender o maligno”. Ele, que tomava o meio “crente” por “pequenas igrejas, grandes negócios”, deu chance à religião e diz ter encontrado paz de espírito.

Hoje pastor e pai de dois filhos, usa uma passagem bíblica (1 Coríntios 6:10) para aliar homossexualidade a pecado: “Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus”.

BIRRA DE DEUS

Sergio pegou birra de Deus. Seria Ele “sádico”, por ser o todo-poderoso e não lhe dar o dom de parar de gostar de homens? “Também podia ser que Ele nem estivesse lá.” A dúvida surgiu nos anos em que tentou deixar de ser gay.

Antes de sair do armário, ele foi casado por 14 anos com uma mulher que lhe deu dois filhos. Quando menino, era atormentado na escola, onde lhe apelidaram de Capitão Gay, Ney Matogrosso e boiola.

“Nessa fase os garotos são muito machistas. Não sabem nem o que fazer com pinto direito, mas já falam como se fossem grandes homens.” E ele era “diferente”. “As meninas eram ótimas amigas para mim, mas eram os meninos que me interessavam.”

Aos 12, teve o primeiro namoradinho. Encerrou a relação quando o parceiro contou sobre eles para um amigo em comum. Sergio temia que a mãe descobrisse. “O fantasma da homofobia doméstica estava sempre atrás de mim.”

Cresceu, virou evangélico e, feito pastor, liderou o Movimento pela Sexualidade Sadia. Depois, já desiludido com a igreja, constatou que só conheceu um homossexual “curado”, e ele tinha uma gaveta “cheia de antidepressivos.”

Sergio recorreu a mais de um “psicólogo cristão” para deixar de gostar de homens. Um “fez um trabalho meio hipnótico”, induzindo-o a rememorar o namoro da juventude.”Ele tentou fazer uma desconstrução para que, mesmo que eu lembrasse [do ex], não fosse gatilho para desejo. Besteira. Não foi [uma relação] violenta, imposta. Não inventamos, o desejo estava lá.”

E não foi embora. “Na hipnose, me entreguei àquela coisa de ficar deitado, olho fechado. Quando acabou, pensei: tomara que funcione. Mas estimulou. Lembrei de uma série de detalhes que talvez nem tivesse pensado sozinho.”

Claudemiro Soares, 43, se diz 'ex-gay' e é coautor da ação que libera 'tratamento' a homossexuais

Claudemiro Soares, 43, se diz ‘ex-gay’ e é coautor da ação que libera ‘tratamento’ a homossexuais

LARANJA MECÂNICA

Nos EUA dos anos 60, uma terapia “pró-heterossexualidade” remetia à cena de “Laranja Mecânica” em que o protagonista leva choques e toma drogas que o fazem vomitar enquanto assiste a imagens agressivas. Meta: associar violência (que o seduzia) a uma sensação ruim. Fora da ficção, os gays viam nus masculinos.

Homo e evangélico, Artur Vieira, 33, teve sorte no divã. “Lembro de o psicólogo falar: vá ser feliz”, diz o apresentador de “De Volta ao Reino” (Rede Brasil). Ele rejeita a ideia de que abusos na infância estimulam a homossexualidade. “Nunca vivi um.”

Arrepia-se ao lembrar do drama de um jovem nordestino que o procurou: desgostoso com a orientação sexual do rapaz, o pai diz à esposa que o leva para jogar bola, “mas o obriga a transar com uma moça”. Se a ereção não vem, é forçado a tomar Viagra. O pai também aplica hormônios masculinos nele. “A gente precisa é de uma capsulazinha contra o preconceito”, afirma Artur.

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