Eu escrevo o horóscopo de revistas para adolescentes

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Publicado no El País

A adolescência é uma época complicada em que a falta de segurança em nos mesmos faz com que cada passo que demos seja cheio de dúvidas e drama. Por sorte, muitos de nós crescemos com algo que tornava nossas decisões mais fáceis, que nos permitia avançar com a segurança de que havia um pouco de luz no fim do túnel ou, em sua falta, um pouco de esperança de poder viver o fim de semana.

Falo do horóscopo das revistas para adolescentes. O único adulto racional que te dizia o que estava bem e o que estava mal, sem filtros. E você, é claro, obedecia suas recomendações como se fosse a única autoridade que não podia ser contestada.

Mas quem fazia esse horóscopo? Quem seria essa pessoa que se atrevia a guiar a vida de milhares de adolescentes sem medo de errar? Talvez você tenha imaginado e visualizado uma vidente pop observando intensamente um baralho de cartas. Mas eu não. Para mim bastava ver o que estava escrito no papel para saber que o que estava ali iria acontecer. Até que coube a mim escrever.

Em meu último trabalho escrevendo em uma revista para adolescentes, me propuseram me encarregar da seção do horóscopo, como se te pedissem para escrever sobre Justin Bieber ou sobre conselhos de maquiagem (coisas que eu também fazia). Meu primeiro impulso foi o de perguntar se não teria que ter algum conhecimento sobre astrologia para isso, mas, antes de terminar a frase, a realidade me deu uma bofetada para que eu parasse de falar besteira.

Naquele instante, uma mescla de sentimentos e emoções me invadiu e pensei: um momento, será que minha vida adolescente foi guiada por alguém como eu? Alguém que não tem nenhum contato com os astros nem nunca teve. Alguém que só precisa de dinheiro. Provavelmente sim.

Uma vez superada a desilusão esse trabalhou começou a ser divertido. Primeiro me informava, me documentava e lia no WikiHow os passos a seguir para escrever um horóscopo. Lia outros horóscopos escritos por pessoas que provavelmente tinham a mesma ideia de astrologia que eu, mas que pelo menos não eram eu e havia a possibilidade de que existisse algo de real em suas palavras. Até que fui me soltando, cresci e me vi com a capacidade de ser eu a guiar milhares de adolescentes sem ter medo de errar. E acabou que não era tão difícil.

Coisas que fiz no meu trabalho escrevendo o horóscopo:
Enviar indiretas para o rapaz que eu gostava escrevendo em seu signo coisas como: “Dê o passo”, “Declare-se de uma vez”, “Não vê que se te escreve tanto é porque gosta de você?”, e tentar que ele lesse por acaso, sem sucesso.

Imaginar meninas tímidas ganhando coragem para chamar para sair o menino de quem gostam, sem êxito.

Copiar o horóscopo de um número de revista dos anos 1990 para dar às adolescentes de agora a oportunidade de se guiar por aquela falsa astróloga que tanto representou para mim. “Aquário: sempre tem algo a fazer, desmontar, inventar, e lhe falta tempo para terminar. O que é a solidão?”

Descobrir que a falsa astróloga de revista que representou tanto para mim estava mais perdida na vida do que qualquer uma das adolescentes que a liam.

Escrever coisas ruins nos signos de pessoas que eu não gostava. “Peixes: os astros não têm tempo para suas mudanças. Se continuar assim ficará sozinha”.

Imaginar adolescentes com poucos amigos perdendo toda a esperança de que alguém as chamasse para sair no próximo fim de semana.

Animar a mim mesma. “Virgem: não se preocupe. Esse trabalho é apenas temporário”. Vantagens de ter influência no horóscopo.

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