Como você virou você

publicado na Super Interssante

Seus olhos acabam de bater nas manchas pretas que formam as letRas desta frase e, como mágica, uma voz surge na sua cabeça. Já parou para pensar o quanto isso é estranho? Pense dois segundos sobre isso. Agora reflita sobre algo ainda mais bizarro: quem estranhou a voz que surgiu do nada foi a própria voz, e é ela que segue extraindo sentido das manchas nesta página. Não há nenhum pensamento dentro de você que ela não conheça. E tudo do lado de fora só tem o significado que ela enxerga. Na verdade, essa voz tem algo importante a dizer neste momento: ela é você. E costuma atender pelo nome de consciência.

Estudar o “eu” é um desafio para a ciência. Afinal, como usar evidências científicas para explicar o filme que se desenrola dentro do seu cérebro? Ainda mais se a única poltrona nessa sala de cinema mental já está ocupada por você. Aos cientistas, resta estudar a consciência a partir do que os outros contam – ou de algum vestígio de “eu” capturado em laboratórios. Aliás, descobertas recentes mostram que a consciência pouco se parece com um rolo de filme, cronológico e indivisível, e talvez seja tão fragmentada e imprevisível quanto uma TV mudando de canal. Para não perder o fio da meada, vamos voltar até onde essa história toda começou: quando você era pequeno.

Em formação

Para entender a infância da sua consciência, é preciso usar a imaginação – lembrar é impossível, porque você ainda não formava memórias. Estamos falando de uma época em que você ignorava tempo, espaço e limites do corpo. Pense que você não fazia ideia do que era rápido ou demorado, perto ou longe. Ou mesmo onde terminavam suas costas e onde começavam os braços em que você repousava.

Como cantava o pequeno francês Jordy, é duro ser bebê. Até os 4 meses de vida, seu cérebro se ocupava basicamente de processar seu contato com o mundo – ele não agia, só reagia. Fazia você acordar se estivesse repousado, chorar se o deixassem com fome, dormir se estivesse cansado. Além disso, as informações que você recebia através dos seus cinco sentidos provavelmente ainda não se separavam, vinham todas juntas. Nessa idade, mamar no seio da mãe é uma overdose de tato, olfato, paladar, visão e audição – não é à toa que você gostava tanto.

Essa mistura sensorial, conhecida como sinestesia, ainda não era você. Segundo o neurologista português António Damásio, é só aos 18 meses que surge algo que pode ser chamado de “consciência mínima”. Nesse momento, a integração entre os lobos frontal e parietal do cérebro fez a voz que lê este texto começar a balbuciar. Você passou a reparar em coisas como salgado e doce, liso e áspero, quente e frio, barulhento e silencioso, luminoso e escuro – além de se dar conta de que você é apenas um ser entre vários outros e que o mundo não some quando você fecha os olhos.

Quando você tinha entre seus 3 e 4 anos, seus circuitos neurais responsáveis pela linguagem e pela memória de longo prazo se desenvolveram, e nasceu a consciência ampliada: um eu com noção de passado e futuro, que acumula informações sobre si mesmo para formar sua identidade. Pela primeira vez, você começa a se lembrar de que foi ao parque ontem e que você tem que ir ao médico amanhã. E ainda: que você gosta de ir ao parque e nem tanto assim de ir ao médico, transformando isso em traços da sua jovem personalidade. O responsável por esse upgrade, que tornou possível você pensar sobre os seus pensamentos, é hoje a celebridade mais quente do mundinho neurocientífico: o neurônio-espelho.

Espelhar é preciso

Concentre-se na seguinte imagem: um sujeito caminha descalço em um quarto escuro. Ele procura o interruptor para acender a luz e, distraído, pisa em um prego. É um prego pontudo, enferrujado, rasgando a pele, o músculo, a carne do sujeito, que sangra e grita de dor. Doeu em você? Obra dos neurônios-espelho. Eles reagem a estímulos que você vê ou imagina em outra pessoa como se ocorressem no seu próprio corpo. Todos os animais de inteligência superior – aqueles que conseguem enviar mensagens uns aos outros – têm os seus.

Mas o que o neurônio-espelho tem a ver com o surgimento dessa voz interna que pensa sobre si? Uma boa metáfora para responder à questão foi criada pelo cientista americano Douglas Hofstadter: o “eu” surge a partir de um processo parecido com o que ocorre quando apontamos um espelho para outro – é o resultado de uma sucessão infinita de imagens mentais sobre outras imagens mentais. E é quando os neurônios-espelho passam a refletir nosso mundo mental que pensamentos sobre outros pensamentos se tornam possíveis. É só aí que nos colocamos oficialmente acima dos chimpanzés e golfinhos: “A consciência humana é única no mundo natural”, diz o neurocientista indiano Vilayanur Ramachandran.

Mas essa é apenas a ponta do iceberg. Ainda não é possível responder com segurança a questões do tipo “Como é ser uma minhoca? “, “O verde que eu vejo é o mesmo que você vê?” e “Você é uma pessoa no mundo ou um cérebro dentro de um barril?” Mesmo que a última afirmação seja verdadeira e o filme rodando aí atrás dos seus olhos não passe de ilusão da sua cabeça, deixe-a lendo e falando. Falta pouco para a cência desvendar o maior mistério de todos: essa coisa estranha que você chama de “eu”.

Mentes que mentem

Anosognosia
O cérebro do deficiente se recusa a reconhecer sua deficiência. Ou seja, a pessoa perde um membro ou um sentido e acredita ainda estar com 100% da capacidade. Comum em vítimas de derrame.

Blindsight
“Visão cega” em inglês. Problema de processamento neural em que uma pessoa com visão normal acredita que está cega. São famosos os casos de veteranos de guerra.

Múltipla personalidade
Não é invenção do cinema: algumas pessoas criam dentro do mesmo cérebro dois ou mais “eus”, geralmente após eventos traumáticos.

Síndrome da mão alien
Um dos membros do corpo – geralmente a mão – parece agir por vontade própria, independente do corpo. Com o tempo, a pessoa passa a acreditar que o membro não é seu.

Síndrome de Cotard
Delírio raro, em que o paciente acredita que está morto, não existe, está apodrecendo ou perdeu órgãos internos. Em casos extremos, os médicos precisam espetar os pacientes com agulhas para que vejam o próprio sangue.

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