Você é feliz e não sabia

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Antiga lenda taoísta conta que, numa aldeia do norte da China, vivia um ancião cuja única posse era um cavalo. Certo dia, o animal desviou-se do pasto e sumiu no território de uma tribo adversária. Os vizinhos, condoídos, foram ao encontro do aldeão para consolá-lo mas, surpresos, ouviram o velho dizer: “Talvez isso seja uma bênção”. Após alguns meses, o cavalo retornou, acompanhado de uma égua, e a vizinhança apressou-se em parabenizar o ancião. Outra vez, ele causou espanto. “Talvez isso vire um infortúnio”, afirmou. O casal de animais reproduziu e, em pouco tempo, o aldeão tornou-se próspero proprietário de um haras. Mas, numa tarde, seu filho, que adorava cavalgar, caiu do cavalo e quebrou a perna, motivando de novo o lamento dos amigos. “Talvez isso seja uma bênção”, repetiu o pai. Meses depois, tribos inimigas atacaram a aldeia e todos os homens saudáveis foram convocados para a guerra. A maioria morreu. O ancião e seu filho inválido, no entanto, escaparam da carnificina.

Guarde na memória essa história. É dela que iremos extrair vários ensinamentos ao longo desta reportagem. Por enquanto, basta-nos perceber que a lenda do aldeão nos põe diante daquilo que é a nossa aspiração mais profunda e a mais universal – aquilo que chamamos felicidade.

Aos seis bilhões de seres humanos que vivem na Terra e tentam alcançá-la, a ciência acena com uma boa notícia: estudos realizados em vários países nos últimos 15 anos, sugerem que não estamos tão distantes do estado de ventura quanto, às vezes, imaginamos. O humor da maioria das pessoas, revela pesquisa do Instituto Nacional do Envelhecimento, dos Estados Unidos, costuma manter-se num ponto médio – o chamado “ponto fixo de felicidade” –, que oscila muito pouco ao longo da vida e que nem sempre significa um marco neutro entre a depressão e a euforia. O “ponto fixo” da maior parte dos humanos, aliás, situa-se levemente acima do ponto neutro, razão por que se deduz que a maioria da população é moderadamente feliz.

Dados como esses atiçam os cientistas na busca de uma explicação biológica para a felicidade e no esforço para que, talvez, um dia se chegue a algo semelhante à soma, a pílula que, na sociedade imaginada pelo inglês Aldous Huxley no livro Admirável Mundo de Novo, mantinha as pessoas em estado de contentamento. Desde a década de 70, quando surgiram os antidepressivos, os distúrbios do humor vêm sendo tratados – além da psicoterapia – com medicamentos que regulam os níveis de serotonina e noradrenalina, neurotransmissores existentes no cérebro, ou que atuam somente sobre a serotonina, como o Prozac, campeão de vendas. Mas como todas essas drogas produzem efeitos colaterais e podem causar dependência, quando mal-administradas, elas ainda enfrentam a resistência de psicólogos e pesquisadores que acham que a felicidade não tem nada a ver com bioquímica. Stephen Braun, autor do livro Unlocking the Mysteries of Mood (Desvendando os mistérios do humor, inédito em português) e um ex-usuário de antidepressivos, diz que não há razão para medo. “Drogas como o Prozac apenas fornecem um suplemento neurobiológico que leva o cérebro a operar corretamente”, diz Braun. “Funcionam como os óculos que permitem ao míope enxergar melhor.” Ou seja: elas apenas ressaltariam o estado de felicidade já existente e não trariam em si, a essência desse estado. Mas, se não pode ser reduzida à bioquímica do cérebro, como defini-la?

O psicólogo David Meyers, do Hope College de Michigan, Estados Unidos, diz que “a felicidade é a versão prolongada do prazer”. Para a maioria da população, a melhor forma de alcançar esse prazer prolongado é ganhar mais dinheiro. É sempre a grana – e não o amor, a amizade e mesmo o status – que aparece no topo das pesquisas sobre o que as pessoas consideram o principal ingrediente para torná-las felizes. De fato, estudos comprovam que o dinheiro pode contribuir para a melhoria dos níveis de satisfação, mas só por pouco tempo. A euforia de quem foi subitamente agraciado com uma bolada, como os ganhadores da loteria, costuma durar um ou dois anos, às vezes menos. Quem é rico de berço ou tem fortuna há muito tempo, já não vê no dinheiro os poderes mágicos que a intuição popular lhe atribui.

Isso vale até para países. Em três décadas de sondagens, o Centro de Pesquisas de Opinião dos Estados Unidos constatou que o índice de felicidade dos americanos permaneceu praticamente estável, apesar de a renda média ter duplicado entre 1957 e 1990, passando de 7 500 para 15 000 dólares, já computada a inflação.

Segundo centenas de estudos, contribuem também para o deleite pessoal o prestígio e a fama, o círculo de amigos, o bom humor que atrai companhias e, claro, o casamento, a família e as emoções do sexo. Mas nenhum desses itens garante por si mesmo o bem-estar e todos estão sujeitos a mutação.

Está na hora, então, de voltarmos à nossa lenda taoísta. Como os cavalos que entram e saem da vida do aldeão, dinheiro, prestígio, sexo e tudo o mais que julgamos ser a nossa felicidade é transitório. As circunstâncias mudam e com elas, na maioria da vezes, o nosso humor. Além de misteriosa, portanto, a felicidade é talvez a coisa mais fugidia deste mundo.

“A melhor maneira de definir felicidade é vê-la não como um estado (prazer ou bem-estar, por exemplo), mas como um modo de vida, o que implica o exercício de determinadas capacidades, a realização de nossas potencialidades”, diz o doutor em Filosofia Cláudio Reis, da Universidade de Brasília. “O problema é saber o que exatamente compõe esse modo de vida, algo impossível de ser reduzido a uma fórmula.” Tem sido assim desde a antigüidade. O grego Platão (428-347 a.C.), por exemplo, referia-se a uma certa “felicidade verdadeira”, diferente dos prazeres triviais e à qual se teria acesso pela adoção de critérios objetivos para uma vida reta, base da harmonia espiritual. Na mesma Grécia, Diógenes e Zeno achavam que o caminho para ser feliz é a vida natural, fora das cidades – aparentemente livre das injunções sociais e de vícios como a luxúria, o orgulho e a maldade –, enquanto os filósofos estóicos viam na disciplina intelectual e na aceitação do inevitável a única maneira de o homem viver bem.

Mas uma das mais importantes contribuições da filosofia helênica sobre a felicidade surgiu com Epicuro (340-270 a.C.), o inspirador do hedonismo (doutrina que considera o prazer como princípio e fim da vida moral), não raro mal-interpretado pelos que lhe desconhecem o pensamento. Numa mensagem ao discípulo Meneceu, posteriormente rotulada de “Carta Sobre a Felicidade”, o filósofo aponta três questões essenciais que estão diretamente relacionadas à busca da felicidade: o medo da morte, o desejo e o prazer.

Para Epicuro, que encarava o fim da vida tão somente como a “privação de todas as sensações”, a consciência de que a morte nada significa é indispensável para que se alcance “a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito”. Mas esse é um passo que deveria ser secundado pelo “conhecimento seguro dos desejos” – direcionando toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito – e, sobretudo, pela compreensão do prazer como “nosso bem primeiro e inato”, mas nem por isso irrefreável. “Todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos”, escreveu o filósofo. “Do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas.”

O raciocínio epicurista é pragmático e leva em conta a relação custo/benefício: o prazer deve ser evitado quando dele resultarem efeitos desagradáveis e o sofrimento acolhido se, após a dor, advier um prazer maior. Contudo, ao contrário do que supunham seus críticos, para Epicuro o prazer não é o “gozo dos intemperantes”, uma experiência meramente sensorial, mas a “ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.” A Meneceu, ele recomendou uma vida de hábitos simples que, a seu ver, permitem ao homem aproveitar melhor a abastança e enfrentar sem temor as vicissitudes.

“No fundo, os epicuristas, como os estóicos, advertem-nos de que deveríamos pôr a nossa felicidade naquilo que depende de nós, sem esquecer a enorme vulnerabilidade da vida humana”, lembra Cláudio. E não há aí uma visão fatalista (para Epicuro, o “futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso”) mas apenas o reconhecimento de que não há alternativa.

Outra vez estamos de volta à lenda do aldeão. Ela nos ensina a olhar para a sorte e para o infortúnio como opostos em um mesmo ciclo de interação e transformação. A sabedoria de viver consistiria em saber lidar com o próprio movimento da vida, usando-o a nosso favor com o manejo de recursos interiores.

Stephen Braun diz que, ao contrário da crença corrente, décadas de pesquisa mostraram que a felicidade tem pouco a ver com a riqueza ou outros fatores externos. Em vez disso, pessoas felizes demonstram menos dependência de bens materiais ou de situações, como se uma qualidade intrínseca impedisse as circunstâncias exteriores de esgotar sua fonte de contentamento. Até nos momentos mais adversos, como a morte de um familiar ou o fim de um relacionamento amoroso, elas retornam ao ponto de equilíbrio mais rapidamente que os outros, ainda que a capacidade humana de recobrar a sensação de bem-estar seja universal. Pessoas assim, ressalta Braun, aceitam a inevitabilidade dos maus momentos (e sua carga de ansiedade, tristeza e medo), sem complicá-los com a negação das emoções ou tentativas de fuga. Seu segredo não é apoiarem-se na ventura ininterrupta ou numa felicidade instalada no futuro ou no passado, mas experimentarem todas as situações com um mínimo de dor e sofrimento desnecessários – o que novamente nos remete ao aldeão da lenda e sua atitude serena ante o inusitado.

“Estamos separados da felicidade pela própria esperança que a busca”, diz o filósofo francês André Comte-Sponville. “Como nos habituamos a esperá-la, acostumados à noção platônica de que só desejamos o que nos falta, acabamos por negar a nós próprios a chance de um contentamento real com as coisas presentes”, diz. É como se adotássemos, como uma maldição, a frase triste do filósofo alemão, precursor do existencialismo, Arthur Schopenhauer, no século XIX: “A vida oscila como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento ao tédio”.

Schopenhauer cunhou sua frase inspirado no ensinamento de Buda acerca do desejo e da natureza impermanente de todas as coisas, expressando assim sua conclusão de que a vontade é uma força cega que jamais será inteiramente satisfeita. A felicidade, para ele, só poderia ser alcançada pela renúncia e pela compaixão, num estado de despojamento semelhante ao nirvana budista. Comte-Sponville, ao contrário, acha que a saída pode ser mais fácil e menos radical se, simplesmente, desvincularmos a felicidade da esperança e o desejo do que ainda está por vir. “A sabedoria é viver de verdade, em vez de esperar viver”, afirma. “É aí que encontramos as lições de Epicuro, dos estóicos, de Spinoza ou de Buda.” Sua receita para isso é que amemos o que temos, pois só quando desejamos o que temos – e não o que nos falta – sentimos prazer. Na felicidade esperada, há sofrimento no início e, depois, tédio, tão logo o desejo é finalmente satisfeito.

Impulso inato nos seres humanos, a busca da felicidade ganhou status de direito social a partir do movimento iluminista, no século XVIII, cuja filosofia influenciou a Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos. Na Constituição americana, inclusive, a busca da felicidade é garantida como um “direito inalienável” dos cidadãos. Mas tamanho fascínio pela ventura pode estar se transformando numa ameaça ao homem como resultado da sua banalização. Segundo Pascal Bruckner, a sociedade moderna fez da felicidade um ideal coletivo e obrigatório, numa atitude que beira a crueldade. “Hoje em dia sofre-se também por não querer sofrer, do mesmo modo que se pode adoecer de tanto procurar a saúde perfeita”, diz Bruckner. “Quem não é feliz se sente excluído e fracassado.”

Ele diz que, em uma sociedade voltada para o hedonismo (no sentido vulgar, não filosófico), tudo se torna irritação e suplício. A obsessão por uma felicidade eufórica desperdiça a chance das pequenas alegrias da vida, aquelas que estão ao nosso alcance entre os momentos de pico, e oculta outros valores que também dão sentido à existência, como o amor, a justiça e a liberdade. Autor do livro A Euforia Perpétua, em que questiona o dever de felicidade na sociedade ocidental, Bruckner exorta as pessoas a não se sentirem culpadas ou doentes por não serem felizes. Ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo e a ventura real não está apoiada sobre um objeto preestabelecido, mas se altera com a idade e o momento de cada um. “Mais importante que a felicidade, é a alegria de simplesmente estar vivo, de estar aqui na Terra para esta aventura efêmera”, diz Bruckner.

E não será isso um motivo bastante para viver?

Comentários

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1 Comentário

  1. jair disse:

    O homem é feliz segundo a GRAÇA de DEUS que lhe foi concedida, fora disso é só desgraça… BIBLIA: EFÉSIOS 2.8. Obrigado JESUS CRISTO !!!

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