Max Gehringer aponta o principal erro que pode travar a carreira

Publicado na Exame

Se existe uma pessoa que conhece bem as grandes (e pequenas) angústias da vida profissional do brasileiro, esse alguém é Max Gehringer.

Ao longo dos primeiros 13 anos como comentarista da rádio CBN, ele recebeu mais de 30 mil dúvidas dos ouvintes sobre gestão de carreira. Organizados em formato de lista, os questionamentos deram origem ao livro “Sua carreira direto ao ponto”, lançado este ano pela editora Benvirá.

Em entrevista exclusiva a EXAME, Gehringer diz que a principal dificuldade do brasileiro é aceitar o contraste entre a vivência na escola — mais permissiva e menos competitiva do que no passado — e a dura realidade do mercado de trabalho, marcada por pressões, hierarquia e disputa.

“A consequência tem sido a mudança constante de emprego, em busca do paraíso perdido”, explica o colunista do programa “Fantástico”, transmitido pela TV Globo.

Em um cenário de insatisfação, volatilidade e crise, construir uma carreira estável parece ser uma tarefa impossível — mas não é, segundo Gehringer.

O segredo está em evitar o pior erro que você pode cometer ao longo da sua vida profissional: imaginar que o empregador irá se adaptar às suas necessidades, e não o contrário.

“Cada empresa tem as suas próprias regras, e entendê-las é o primeiro passo na construção da carreira”, diz o autor.

Outra tendência perigosa é confundir emprego — algo, por definição, temporário — com carreira, um bem permanente que pode, sim, ser estável.

Na entrevista abaixo, Gehringer explica como conquistar equilíbrio sem recair na estagnação, e ensina a navegar de forma segura por um mercado de trabalho cada vez mais complexo. Confira:

EXAME – No seu livro, o senhor responde a centenas de dúvidas reais sobre a vida profissional. Qual é a maior dificuldade do brasileiro quando o assunto é carreira?

Max Gehringer – Atualmente, a maior dificuldade é a adaptação a uma nova realidade. De duas décadas para cá, as escolas brasileiras se abrandaram bastante em termos de exigências. Não há mais competição, notas baixas não são divulgadas e nem impedem a progressão acadêmica. Os professores perderam muito da autoridade que tinham sobre os alunos.

Ao ingressar no mercado, o jovem encontra o avesso de tudo isso. Competitividade, hierarquia, pressão por resultados e comparação direta com colegas. A consequência tem sido a mudança constante de emprego, em busca do paraíso perdido.

O senhor já disse em entrevistas que não existe mais plano de carreira. O que aconteceu? As empresas não querem mais desenvolver futuros líderes?

Muitas empresas mantêm o processo de avaliação de desempenho, mas ele passou a ser focado no curto prazo. A definição clássica do plano de carreira era a do horizonte mais amplo, entre três a cinco anos. Esse modelo é que está em extinção. O desenvolvimento se dá a partir dos resultados práticos imediatos, e os futuros líderes se desenvolvem aprendendo e executando em tempo real.

A estabilidade virou algo cada vez mais raro no mercado de trabalho brasileiro. Esse ainda é um valor para a maioria dos profissionais?

Sim, a estabilidade e a segurança continuam a ser valores desejáveis para a maioria. Mas há três outros fatores que compõem o perfil do “empregado feliz”: remuneração adequada, oportunidades de carreira e bom ambiente de trabalho.

Se existe alguma empresa no Brasil capaz de oferecer essas quatro coisas ao mesmo tempo, eu nunca ouvi falar dela.

O empregado de empresas privadas do século XX era mais paciente ou mais conformado, e por isso arriscava menos. O do século XXI é mais imediatista e mais ambicioso, e por isso muda de emprego com mais frequência.

Qual é a consequência do encurtamento das passagens por cada empresa?

A rotatividade é o resultado de expectativas não preenchidas. A empresa não é o que o funcionário esperava, o chefe não é compreensivo, o ambiente não é bom, as oportunidades demoraram demais a surgir.

Entre continuar insistindo ou procurar outra empresa que possa ser mais adequada, a segunda opção parece mais lógica para a maioria.

Essas transições irão mostrar que não existem empresas perfeitas, algo que os antigos funcionários estáveis já desconfiavam, mas que os jovens estão agora preferindo aprender na prática.

Ainda é possível ter uma carreira estável, apesar do mau momento do mercado de trabalho?

É bom lembrar que a crise não fez o trabalho evaporar. O desempregado é uma exceção. Dolorosa, é verdade, mas que atinge a uma minoria. Neste momento, muitas carreiras estão em evolução, e futuros presidentes de empresas estão ingressando agora no mercado de trabalho.

Como sempre aconteceu e continuará a acontecer, alguns irão se destacar mais que outros, e receberão o devido reconhecimento profissional. As crises vão e vêm, mas a carreira continua com elas ou sem elas.

Como construir uma carreira estável, mas não estagnada?

A tendência a confundir emprego com carreira continua forte. Um emprego é sempre temporário, e pode ser encerrado a qualquer momento por uma decisão da empresa. Já uma carreira é permanente, e pertence ao profissional, e não à empresa em que ele está trabalhando.

Investir na carreira é fazer por conta própria cursos que o trabalho atual não exige, é criar um círculo de contatos que possam ser úteis no futuro, é extrair o melhor do emprego presente para ser reconhecido pelo mercado como um profissional competente e desejável. A estagnação costuma ocorrer quando alguém acredita que está tranquilo e não precisa mais investir em si mesmo.

Qual é o principal erro estratégico que costuma travar a ascensão profissional?

Imaginar que a empresa irá se adaptar ao empregado, e não o contrário. Nenhum empregado é contratado por uma empresa para ser um sucesso.

Todos são contratados porque há um trabalho a ser feito, e aqueles que melhor se desempenharem irão, no devido tempo, receber trabalhos mais desafiadores e promoções. Cada empresa tem suas próprias regras, e entendê-las é o primeiro passo na construção da carreira.

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