Como o mundo amava a suástica, até os nazistas se apropriarem do símbolo

Na Primeira Guerra, as forças armadas dos EUA e da Grã-Bretanha usaram suásticas nos aviões | Foto: Steven Heller

Publicado na BBC

No mundo ocidental, a suástica é sinônimo de fascismo, mas ela existe há milhares de anos e foi usada como símbolo de boa sorte em quase todas as culturas do mundo. Agora, alguns tentam recuperar seu sentido original.

Na linguagem antiga do sânscrito, suástica significa “bem-estar”. A figura foi usada por hindus, budistas e jainistas por milênios, e é normalmente considerado indiano.

Viajantes do Ocidente para a Ásia foram inspirados por suas associações positivas e começaram a usá-lo em seus países. No início do século 20, houve uma moda de suástica como símbolo de sorte.

Em seu livro The Swastika: Symbol Beyond Redemption? (As Suástica: símbolo sen redenção?, em tradução livre), o escritor e designer Steven Heller mostra como a figura foi adotada com entusiasmo na Europa na arquitetura, na propaganda e no design de produtos.

Diversos produtos antes dos anos 1930 nos EUA eram chamados de suástica ou tinham o símbolo, até a Coca-Cola | Foto: Steven Heller

“A Coca-Cola usou. A Carlsberg usou em suas garrafas de cerveja. Os Escoteiros-mirins também adoraram e o Clube de Meninas da América chamava sua revista de Suástica. Eles mandavam até distintivos de suástica para seus leitores como prêmio por vender revistas”, diz.

O ícone oriental também foi usado por unidades do Exército americano durante a Primeira Guerra Mundial e era visto nos aviões da Força Aérea Britânica até 1939. A maior parte desses usos “benignos” parou de ocorrer nos anos 1930, quando o partido nazista chegou ao poder na Alemanha.

O uso nazista da suástica tem origem no trabalho de acadêmicos alemães do século 19 que traduziam antigos textos indianos, e notaram semelhanças entre o alemão e o sânscrito. Eles concluíram que indianos e alemães deveriam ter os mesmos ancestrais – uma raça de guerreiros chamada ariana.

Hindus desenhavam o símbolo nos corpos e budistas o utilizavam na decoração | Foto: Alamy

Essa ideia foi utilizada por grupos nacionalistas antissemitas dentro do movimento, que se apropriaram da suástica como um símbolo ariano, para espalhar entre os alemães o sentimento de que pertenciam a uma linhagem antiga.

A hakenkreuz (cruz com ganchos, em alemão) negra dentro de um círculo branco e o fundo vermelho da bandeira nazista se tornariam o emblema mais odiado do século 20, para sempre conectado às atrocidades cometidas no Terceiro Reich.

“Para os judeus, a suástica é sinônimo de medo, de repressão e de extermínio. É algo que nunca poderemos mudar”, diz o sobrevivente do Holocausto Freddie Knoller, de 96 anos. “Colocar a suástica em lápides ou em sinagogas nos causa medo. Não deveria acontecer.”

O símbolo foi proibido na Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial e o país tentou, sem sucesso, proibi-lo em toda a Europa em 2007.

Contra o mal

A ironia é que a suástica tem uma origem mais europeia do que a maior parte das pessoas pensa. Descobertas arqueológicas já demonstraram que ela é muito antiga, mas que seus exemplos não são limitados à Índia. Ela também foi usada pelos antigos gregos, pelos celtas, pelos anglo-saxões e até – em alguns dos artefatos mais antigos – no leste da Europa, do mar Báltico até os Bálcãs.

Um bom lugar para conhecer esta história é o Museu Nacional de História da Ucrânia, na capital Kiev.

Entre os principais tesouros do museu está uma figura pequena de marfim que mostra um pássaro fêmea. Feito da presa de um mamute, a figura foi encontrada em 1908 no assentamento paleolítico de Mezin, perto da fronteira da Ucrânia com a Rússia.

No peito do pássaro está gravado um padrão complexo de suásticas. É o padrão de suásticas mais antigo identificado no mundo. Segundo a datação de carbono, ele tem impressionantes 15 mil anos. O pássaro foi encontrado junto com uma série de objetos fálicos, o que dá a entender que o padrão era usado como símbolo de fertilidade.

Em 1965, a paleontóloga Valentina Bibikova descobriu que o padrão no pássaro é muito semelhante ao padrão que ocorre naturalmente no marfim. Será que as marcas na pequena figura paleolítica estavam só refletindo o que os homens viam na natureza – o mamute que eles associavam com bem-estar e fertilidade?

Suásticas “solitárias” começaram a aparecer na cultura neolítica Vinca no sudeste da Europa há cerca de 7 mil anos. Mas foi na Era de Bronze que elas se espalharam pela Europa. Na coleção do museu em Kiev há vasos de cerâmica que têm suásticas circulando sua metade superior e datam de 4 mil anos atrás.

Registro mais antigo de padrão de suástica data de 15 mil anos atrás | Foto: Mukti Jain Campion

Quando os nazistas ocuparam Kiev na Segunda Guerra Mundial, eles estavam tão convencidos de que esses vasos eram provas de seus ancestrais arianos que os levaram para a Alemanha (eles foram devolvidos à Ucrânia depois da guerra).

Na coleção grega do museu, a suástica aparece no ornamento da arquitetura que se tornou conhecido como padrão grego, usado em azulejos e tecidos aré hoje.

Os antigos gregos também usavam motivos de suástica para decorar seus vasos e vasilhas. Um fragmento da coleção, que data do século 7 D.C., mostra uma suástica com membros como se fossem tentáculos pintada sob a barriga de um bode.

Mas talvez os artefatos mais surpreendentes no museu sejam os fragmentos de tecido que sobreviveram do século 12 D.C. Acredita-se que eles pertenceram ao colarinho do vestido de uma princessa eslava. Eles são bordados com cruzes e suásticas douradas, para afastar o mal.

A suástica continuou sendo um motivo popular no bordado do leste da Europa e da Rússia até a Segunda Guerra Mundial. Um autor russo chamado Pavel Kutenkov identificou cerca de 200 variações na região. Mas o símbolo continua controverso. Em 1941, Kiev foi o local do pior assassinato em massa do Holocausto, quando quase 34 mil judeus foram reunidos e mortos em Babi Yar.

Na Europa ocidental, o uso das antigas suásticas parou gradualmente muito antes da era moderna, mas é possível encontrar exemplos da Era do Bronze, como a Pedra da Suástica em Yorkshire, na Inglaterra.

Relembrando o passado

Algumas pessoas acham que essa longa história pode ajudar a reviver a suástica como algo positivo na Europa. Um tatuador famoso em Copenhagen afirma que o símbolo é um elemento da mitologia nórdica que continua sendo atraente para muitos escandinavos.

Ele é um dos fundadores do Dia de Aprender a Amar a Suástica, que ocorreu em 13 de novembro de 2013, quando tatuadores de todo o mundo se ofereceram para tatuar suásticas de graça, para relembrar o passado multicultural do símbolo.

“A suástica é um símbolo de amor e Hitler abusou dela. Não estamos tentando trazer a hakenkreuz de volta. Isso seria impossível. E também não é algo que queremos que as pessoas esqueçam”, afirma.

“Só queremos que as pessoas saibam que a suástica aparece de muitas outras maneiras, e nenhuma delas foi usada para nada ruim. Também queremos mostrar aos fascistas da direita que é errado usar esse símbolo. Se pudermos educar o público sobre o verdadeiro significado da suástica, talvez possamos tirá-las dos fascistas.”

Mas para pessoas como Freddie Knoller, que experimentaram os horrores do fascismo, a ideia de aprender a amar a suástica não é assim tão fácil.

“Nós que passamos pelo Holocausto sempre vamos lembrar do que a suástica foi nas nossas vidas – um símbolo do mais puro mal”, diz.

“Não sabíamos que ele já existia há tantos milhares de anos. Mas acho interessante que as pessoas saibam que nem sempre foi um ícone do fascismo.”

As fotos do avião americano, dos produtos pré-guerra e da Academia de Música de Brooklyn são da coleção de Steven Heller.

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