Dá nojo, mas comer insetos pode ser o futuro da alimentação

Publicado em O Povo

Canapé de marguerita, um suculento guacamole, feijão tropeiro com cheirinho de bacon e, de sobremesa, um brigadeiro de puro cacau coberto por uma farofa crocante. Poderia ser o cardápio comum, mas acrescente ao guacamole larvas de tenébrio, troque a linguiça do feijão por formigas tanajuras, receba a informação de que a crocância do brigadeiro é causada por grilos e larvas triturados, e, espetado no canapé, tem uma barata.

A essa altura você, caro leitor, deve estar de estômago revirado e fazendo caretas. Sei que sim, porque reagi da mesma forma. Mas, se disser que comi cada um desses insetos e nem achei assim tão ruim, você acreditaria? A degustação, parte do projeto dos cursos de Gastronomia e Agronomia da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi realizada ontem durante os Encontros Universitários, no Instituto de Cultura e Arte (ICA).

Cheguei jurando que não comeria barata e larva. Bradei: “Como grilo e formiga, o resto não tem quem faça”. Paguei pela língua.

O canapé mais parecia um desses quitutes de festas de Halloween, mas a universitária Mara Cibely, 31, comeu com tanto gosto a iguaria que meus pés atrás se moveram alguns milímetros adiante. “Parece uma castanha”, ela disse — e isso bastou para tomar aquilo como desafio. Não podia uma barata guardar o sabor de castanha, exclamei. Decidi, então, comê-la sem o acompanhamento pomposo. Comi pura. A crocância e o leve sabor de amêndoa da barata desidratada me fizeram entender a comparação de Mara, mas não concordar. Não é ruim, mas não é maravilhoso.

A tanajura foi frita no bacon, então, não posso dizer que foi esforço comê-la. Os crec-crecs da farinha de grilos são infinitamente mais bem-vindos que os seus cri-cris. Comi feliz da vida dois brigadeiros. E os tenébrios… Bem, tive duas experiências com as larvinhas. Preparado, o tenébrio é sequinho e, ouso dizer, gostoso. Mas, não me perguntem o porquê, inventei de aceitar a sugestão do professor da Agronomia Patrik Luiz Pastoril e provei o bichinho vivo, se mexendo e estalando entre os dentes. Só posso dizer que erro a gente comete para dar exemplo e não repetir.

Incomum para mim e, acredito, para você também, a prática de comer insetos se chama entomofagia e é hábito de 2 bilhões de pessoas no mundo. Uma pesquisa recente da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicou que incluir insetos na alimentação deve se tornar necessário nos próximos 50 anos por escassez de alimentos no mundo.

É daí que parte o projeto, como explica o professor da Gastronomia Rafael Gurgel. “Queremos mensurar a quantidade de proteína que tem nesses insetos e a capacidade do nosso organismo de absorver a proteína. Para, então, podermos entender os insetos como uma fonte complementar ou de substituição de uma proteína animal do gado ou do porco”, explica. Isso porque a produção de insetos consome menos água, requer menos espaço e tem impacto ambiental muito menor que a produção de rebanhos de gado, detalha Patrik.

Ainda assim, o preço do quilo da larva de tenébrio, limpinho e próprio para consumo humano, pode chegar a R$ 300. “É caro, mesmo com a produção barata. O que acontece é que tem pouca oferta. As empresas não têm concorrência e aumentam o preço. Mas, se virar uma proposta, outras biofábricas podem surgir e o preço baixar”, projeta.

A ideia do grupo na UFC, neste primeiro momento, era sentir a recepção das pessoas para, só então, investir no projeto de estudo. E a contar pelas quatro sessões de análise sensorial (cada uma para 50 pessoas) lotadas e com senhas disputadas, pode ser que daqui a alguns anos eu e você nos reencontremos com baratas — não voadoras — nas nossas barrinhas de cereal enriquecidas com proteína. (colaborou Marcela Benevides)

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