Mentiras que contam as pessoas que cozinham

Publicado no EL País

Cozinheiros bissextos como nós têm várias virtudes e um grande defeito. As virtudes são conhecidas de sobra: alimentamos nossos seres queridos, nos empenhamos nessas demonstrações de amor que são os pratos e mantemos viva a chama da cultura culinária, entre outras coisas. O defeito? Além de nossas misérias particulares, quase todos coincidimos em um: mentimos como malandros.

Que ninguém me interprete mal. Não estou dizendo que cozinheiros eventuais são especialmente mentirosos. Falo de nosso escasso respeito à verdade em certas questões relativas ao nosso hobby. Não são falsidades graves, mas convém que todos as conheçam: aos que não cozinham, para que não sejam enganados, e a nós que cozinhamos, para não nos enganarmos. A seguir vocês encontrarão uma lista das mais frequentes entre os domingueiros e sua correspondente tradução à realidade. Se você nunca ouviu nenhuma delas, ou come sempre no McDonald’s ou vive em Saturno.

“Este prato é muito fácil”

Falso: esse prato requer técnica, conhecimentos e, certamente, 18 passos de preparação. A facilidade é um conceito muito relativo, e o que parece simples para um cozinheiro avançado pode equivaler a pintar a Capela Sixtina para um leigo. Se você não cozinha, nunca, nunca, nunca se fie nos níveis de dificuldade dados por alguém que o faz com frequência. Especialmente se escreve em uma página na Internet. Especialmente se essa página se chama EL PAÍS Brasil.

“Dá para fazer rápido, não custa nada”

Você levou uma hora pensando na receita ou escolhendo-a, duas comprando os ingredientes e quatro nas panelas. E isso sem falar da hora de tortura que resta pela frente quando, depois que os convidados vão embora, terá de limpar o caos deixado na cozinha.

“Isto é vendido em muitos lugares”

Isso é vendido em poucos lugares, mas você conhece porque está obcecado com a comida. Ou por acaso acha que o trigo sarraceno, a baunilha de Madagascar e o sichimi togarashi são encontrados no Dia que fica logo na esquina?

“Fiz com quatro coisas que tinha na geladeira”

Você percorreu 20 lojas, 12 mercados e sete supermercados para conseguir os ingredientes. E teria peregrinado até Lourdes de joelhos se fosse preciso.

“O do outro dia ficou melhor”

Fenômeno que me lembra da canção de Chico e Chica ‘La vez que mejor’; misteriosamente, quando você faz um prato para si mesmo e ninguém o experimenta, fica perfeito, mas quando há convidados sempre acontece algo que o estraga. Das duas uma: no outro dia estava tão ruim como hoje, ou você está inventando para se justificar.

“É uma receita minha”

Você a copiou de Jamie Oliver.

“É uma receita de família”

Você a viu tantas vezes no YouTube que se tornou familiar.

“Eu lhe dei meu toque pessoal”

Você trocou o alecrim pelo tomilho.

“Minha mãe diz que cozinho melhor que ela”

Não há evidências empíricas de que alguma mãe tenha dito isso, mas como ninguém vai perguntar à sua progenitora se essas palavras foram ditas por ela, você as cita e fica todo garboso. Pode ser que a sua mãe cozinhe pior que você, mas que reconheça isso? Acredito mais em óvnis e no poder curador dos cristais de quartzo.

“Saiu bom na primeira”

Você repetiu o prato 10 vezes até conseguir que ficasse comestível, mas quer projetar entre os amigos uma imagem de aspirante a Ferran Adrià. Versão oposta: “Foi difícil pegar o jeito”, dito quando foi a primeira vez que você o fez, ficou bom de cara, mas você quer posar de cozinheiro esforçado.

“É que não consigo controlar este forno”

Culpar os instrumentos de cozinha pelos próprios erros é um clássico da pós-verdade culinária. Sempre alguma coisa falha: o forno, a panela que não é de boa qualidade, a frigideira que gruda, a faca que não corta, a batedeira que não tem potência suficiente… é o equivalente comidístico do “meu cachorro comeu a lição de casa”.

“O sabor está bom”

Mentira piedosa que você diz a outros cozinheiros eventuais quando o prato saiu uma droga, mas você não tem a coragem ou a confiança para lhes contar a verdade. Se te dizem “o sabor está bom” é porque a apresentação está horrorosa, é difícil comer, está rançoso ou é um bloco de concreto. Ou as quatro coisas ao mesmo tempo.

“Normalmente faço salada e alguma outra coisa, mas sempre há uma vez na vida”

Normalmente você se arranja como uma Peppa Pig, mas finge ser uma pessoa comedida que vive de brócolis e alface. Parente próxima dessa mentira é “não gosto muito de batata frita, salgadinhos, bolo, o prato mais engordativo que você puder imaginar. Fiz porque vocês vinham”. Claro.

“Prefiro a cozinha simples”

Você não tem nível para fazer nada mais além de uma comida simples.

“Não gosto das apresentações empetecadas”

Você não sabe montar e decorar o prato.

“Cozinhar me relaxa”

O famoso efeito relaxante da cozinha quanto você prepara um jantar em casa, falta uma hora para que cheguem os convidados e ainda falta fazer um peru no forno, acabar as saladas, desenformar o bolo, escolher os vinhos, lavar louça, arejar a casa, pôr a mesa, tomar banho e se arrumar. Nem um mês de yoga no Nepal te deixa tão relaxado, convenhamos.

“Já te dou a receita”

Duas garrafas de vinho, três gim-tônica, uma ressaca e 10 meses depois continua sem passar a receita.

“Adoro ver a minha cozinha cheia de gente”

O amigo que chega uma hora antes do jantar e se planta na cozinha atrapalhando. A amiga que quer ajudar, mas te deixa louco perguntando onde estão as coisas. Seu cunhado que não para de conversar. Sua sogra te corrigindo porque isso não se faz desse jeito. Seu primo que um dia esteve no elBulli e fica contando isso. Uma palavra, três sílabas: SO-CO-RRO.

“Não sei o que pode ter acontecido. Segui a receita ao pé da letra”

Você trocou A por B, pôs menos de C e uma montanha de D, ou deixou de lado o ingrediente. E porque o seu “eu interior” verdadeiro assim determinou. Você é o John Galliano da cozinha, não pode reprimir a liberdade criativa. E como o autor ou autora da receita não está aqui para se defender, joga a responsabilidade nele.

“Gosto mais de cozinhar do que comer”

Claro. E Elvis está vivo, a terra é plana e a homeopatia cura.

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