Modelo tatua o globo ocular de roxo e pode perder o olho

Publicado na Folha de S. Paulo

Uma modelo canadense que tentou “tatuar” seu globo ocular de púrpura alguns meses atrás agora diz que está em risco de perder o olho, depois de meses de dor “excruciante” e de visão comprometida.

Catt Gallinger já era fã de modificações extremas do corpo quando, segundo ela, alguém lhe ofereceu a oportunidade de mudar a cor de seu globo ocular, com uma injeção de tinta na parte branca do olho. O procedimento, conhecido como pigmentação esclerótica, pode resultar em um efeito visual surpreendente, e ganhou popularidade entre aqueles que gostam de alterar seus corpos de maneiras não convencionais.

Gallinger aceitou a proposta e escolheu a cor púrpura, sua favorita. Mas no dia do procedimento, algo saiu horrivelmente errado.

A tintura púrpura começou a vazar de seu olho e escorrer pelo rosto. No dia seguinte, o olho estava inchado e ela não conseguia abri-lo. Em seguida veio uma dolorosa infecção. Três semanas mais tarde, o inchaço do globo ocular persistia e os médicos a informaram de que corria o risco de cegueira permanente no olho afetado, ela disse.

Gallinger começou em 20 de setembro a postar atualizações públicas no Facebook sobre a situação de seu olho, para alertar outras pessoas sobre os riscos do procedimento. Àquela altura, diz, já tinha visitado o hospital uma série de vezes, e estava usando diversos antibióticos e colírios contendo esteroides para reduzir a inflamação. A visão do olho afetado estava turva e não mostrava sinais de melhora, ela acrescentou.

“Há muita gente que pode atestar que meu cuidado pós-procedimento foi bom, e que tudo mais que estou dizendo é verdade”, escreveu Gallinger. “NÃO estou compartilhando essa informação para causar problemas. Estou compartilhando para alertá-los de que devem pesquisar sobre quem realizará seus procedimentos, e sobre a maneira correta de realizá-los”.

Gallinger continuou a postar atualizações regularmente no Facebook, em textos que oscilam entre a resignação e a raiva. Seu objetivo, ela afirmou repetidamente, é alertar as pessoas para que não cometam o mesmo erro que ela.

E a constante em todos os seus textos sobre a situação é a dor.

“Sinto dor na órbita do olho e por trás do olho, e parece que algo está tentando sair”, ela disse em um vídeo postado no Facebook em 5 de novembro. “Acordei enxergando menos, hoje. Minha visão está nublada de novo, ou seja, as coisas não vão bem”.

Em 10 de novembro: “Como vocês podem ver, o olho está inchando de novo. Não sei por quê. Está superirritado. Nem consigo descrever a dor. De jeito nenhum”.

Em uma sessão no Facebook Live, em 17 de novembro, Gallinger criticou um vídeo que encontrou online no qual o procedimento de pigmentação da esclera é definido como “cool” mas “arriscado”.

“Arriscado é que se diz se você pode ficar com uma cicatriz por causa do procedimento, ou um certo inchaço. Isso é arriscado. Mas [a pigmentação esclerótica] é claramente perigosa”, ela disse. “Esse vídeo me irritou demais. O ponto todo de eu ter vindo a público, o ponto de eu contar minha história, meu ponto com isso tudo é conscientizar as pessoas contra o procedimento, é ajudar as pessoas a perceber o dano que pode ser causado”.

Mais de dois meses depois, os prognósticos não melhoraram, para Gallinger, a despeito de algumas esperanças iniciais de que uma cirurgia pudesse remover o excesso de tinta de seu olho. Mas ela afirma que seus médicos não sabem como isso pode ser feito, porque nunca tiveram um caso parecido. Em lugar disso, uma camada inchada, cor de lavanda, se assentou no lugar em que o branco de seu olho afetado deveria estar. Ela passou semanas umedecendo o olho com lágrimas artificiais a fim de combater uma perda de densidade da córnea”.

“Se eu deixar de cuidar dele por um dia, é possível que isso cause uma séria perda de visão, ou uma laceração ou dissolução completa naquele lugar”, escreveu Gallinger no final de outubro.

Ela relatou que tentou realizar uma cirurgia sem anestesia em 23 de novembro e sofreu “o pior ataque de pânico de minha vida”. A cirurgia não realizada significa que agora ela sofre risco sério de perder o olho, ainda que deva explorar alternativas de cirurgia com o uso de anestesia, disse.
“Isso é mais que devastador. Não CONSIGO abrir o olho de jeito nenhum, sem um esforço significativo”, escreveu Gallinger em 24 de novembro.

“Sempre fui honesta aqui, e vou continuar sendo. Perdi toda a esperança. Estou perto de pedir a remoção do olho. Estou cansada demais de tudo isso”.

Cerca de um mês atrás, Gallinger iniciou uma campanha no site GoFundMe para cobrir o custo de suas medicações e do transporte para suas consultas médicas.

“Sei que muita gente não compreende minha escolha de fazer aquela tatuagem”, diz o texto de pedido de doações que ela escreveu. “Mas o passado é passado e os fatos são claros. [Gallinger] é a vítima”.

Ela não respondeu a pedidos iniciais de entrevistas do “Washington Post” ou a mensagens posteriores enviadas no sábado via Facebook e GoFundMe.

Nas primeiras atualizações, Gallinger acusou a pessoa que tatuou seu globo ocular de representar falsamente suas qualificações e treinamento, e afirmou que planejava recorrer à Justiça.

“O procedimento foi realizado por uma pessoa que disse ter experiência”, afirmou Gallinger em um vídeo em25 de setembro. “É minha culpa ter acreditado nele. É minha culpa eu ter cedido quando ele pediu repetidamente para tatuar meu olho”.

Gallinger identificou a pessoa como seu então namorado, um artista de modificação corporal, em entrevista à revista “Time”.

“Ela já tinha 25 tatuagens no corpo, e passou por outro procedimento de risco para dividir a língua e fazer com que parecesse bifurcada. E por isso Gallinger disse que uma tatuagem na esclera parecia ser o próximo passo… Mas ela não pesquisou o bastante e cedeu rápido demais à pressão de seu então namorado”, escreveu Gallinger.

Gallinger disse que ele cometeu muitos erros durante o procedimento. Não misturou a tinta com solução salina. Usou uma agulha grande, que penetrou demais no olho, em lugar de uma pequena. E em vez de administrar diversas doses pequenas, Gallinger recebeu uma só injeção, grande, em um procedimento de 10 minutos”.

Os procedimentos de modificação corporal, ocasionalmente descritos como “body mods”, incluem qualquer coisa que altere a anatomia ou a aparência, de piercings e implantes de seios a procedimentos para reduzir o tamanho dos pés. Tatuagens e piercings nas orelhas talvez sejam as formas mais comuns de modificação do corpo, mas nos últimos anos procedimentos mais extremos – bifurcação de línguas e até tatuagens no globo ocular – começaram a ganhar espaço.

A Academia Americana de Oftalmologia adverte fortemente contra a tatuagem da esclera, apontando para riscos como cegueira ou problemas piores. A organização documentou um caso este asno no qual um homem de 24 anos teve de ter um olho removido depois de “uma tatuagem esclerótica que deu errado”.

“Colocar qualquer forma de agulha no olho é muito perigoso”, disse Philip Rizzuto, porta-voz da academia, ao jornal “USA Today”. “Nós o fazemos o tempo todo, mas somos treinados por 12 a 18 anos sobre como tratar os olhos”.

Luna Cobra, um artista australiano de modificação do corpo, afirma ter inventado a tatuagem de globo ocular, uma década atrás. Mas mesmo ele alerta em seu site contra realizar o procedimento com “imitadores”.

“Jamais treinei alguém para realizar esse procedimento. Apareci em muitos programas de TV e telejornais, porém, e inspirei muitos imitadores em todo o mundo”, ele escreveu. “É importante estar informado sobre isso porque, sem a educação, treinamento, experiência e orientação corretos, esses praticantes causaram problemas oculares como visão turva, manchada e até cegueira.

No Facebook, Gallinger diz que esteve em contato com Luna Cobra depois do acontecido, e acrescentou que, embora o respeite, não pretende passar pelo procedimento de novo.

“Por favor, seja cauteloso quanto a quem você escolhe para fazer suas modificações, e pesquise antes”, escreveu Gallinger. “Não quero que isso aconteça a mais ninguém”.

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