Tempo diante da tela de eletrônicos tem ligação com depressão

Publicado na Veja

Pesquisadores dos departamentos de psicologia da Universidade de San Diego e da Universidade da Flórida (Jean Twenge, Thomas Joiner, Megan Rogers e Gabrielle Martin) publicaram no mês passado um estudo no qual identificaram que os adolescentes do Estados Unidos estão passando cada vez mais tempo diante das telas de smartphones, tablets e computadores. O dado alarmante do estudo, entretanto, é que esse maior tempo no mundo eletrônico pode ser uma das causas do aumento na quantidade de adolescentes deprimidos e envolvidos em situações relacionadas ao suicídio (ideação, planejamento e o próprio ato em si).

A incidência de depressão e suicídio de adolescentes estadunidenses (de 13 a 18 anos de idade) cresceu enormemente entre os anos de 2010 e 2015, acima dos índices também crescentes da população em geral. Este dado está de acordo com estudos epidemiológicos globais coordenados pela Organização Mundial de Saúde. Mas não havia até aqui muita clareza em relação às causas desse aumento específico entre adolescentes.

Um ponto que tornam robustas as conclusões desse estudo é que os pesquisadores não avaliaram apenas a correlação da depressão e do suicídio com o tempo que os adolescentes passam diante da tela. Eles avaliaram também a correlação com outros fatores como índice de desemprego, crescimento da economia, proporção de desigualdade na população e, principalmente, o engajamento dos adolescentes em atividades fora da tela (interação em pessoa com outros adolescentes, prática de esportes, mídia impressa e atividades religiosas).

Os resultados da pesquisa mostram que depressão e suicídio se correlacionam apenas com o maior tempo diante da tela interativa e não com os outros fatores – nem mesmo a televisão tem efeito tão prejudicial. Isso levanta o dilema do ovo e da galinha… Qual veio primeiro?

É possível inferir que adolescentes deprimidos por diversas razões podem acabar se isolando socialmente e, com isso, passar a ficar mais tempo diante da tela em atividades autocentradas e mesmo em interações virtuais.

Embora isso seja verdade para muitas pessoas, já há estudos mostrando que o uso em si das redes sociais pode ter um efeito tóxico sobre o usuário, produzindo um prejuízo na sensação de bem-estar. Ou seja, a própria atividade de uso de smartphones, tablets e computadores para acessar as redes sociais virtuais por meio da internet pode sim contribuir para o estabelecimento de um quadro depressivo que, uma vez instalado, pode ainda levar ao suicídio, tragédia que cada vez mais marca nossa época.

Em termos objetivos, o que se constatou foi que até duas horas por dia diante das telas não produz efeito estatisticamente significativo na ansiedade e no humor e nem na manifestação de ideias suicidas por adolescentes. Com mais de duas horas diárias o cenário muda de forma crescente, aumentando a chance de problemas com depressão e suicídio (34% no caso de três horas diárias diante da tela e 66% {!!!} no caso de cinco horas).

Não há dúvida de que uma das consequências possíveis para um adolescente que esteja triste ou deprimido por qualquer razão (assédio na escola, problemas de aceitação, violência doméstica, traumas etc) seja um isolamento social que o leve a passar mais tempo diante das telas que dão acesso ao mundo virtual. Apesar disso, o próprio uso desses meios por simples hábito socialmente estabelecido também tem um potencial tóxico enorme. Ou seja, além dos casos de adolescentes que se deprimem por outras causas, estamos talvez diante do início de uma epidemia de depressão e suicídio causados pelo tempo diante da tela.

Esse cenário não pode ser desprezado pela sociedade (educadores, governantes, pais e profissionais de saúde). Os pais não podem ignorar o mal que o longo tempo diante das telas pode produzir em seus filhos. Obviamente, como com quase tudo na vida, não se trata de sugerir a supressão dos smartphones da vida dos adolescentes mas sim de alertar para a necessidade de cuidar ativamente desse aspecto da educação e da criação dos filhos, limitando e supervisionando o uso da tecnologia que, se bem gerida, produzirá apenas os seus efeitos benéficos.

Uma das melhores formas de garantir o sucesso nessa investida é dedicar tempo significativo ao convívio com os filhos em atividades fora da tela como passeios, jogos, festas, viagens etc.

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Referência: Jean M. Twenge, Thomas E. Joiner, Megan L. Rogers, Gabrielle N. Martin. Increases in Depressive Symptoms, Suicide-Related Outcomes, and Suicide Rates Among U.S. Adolescents After 2010 and Links to Increased New Media Screen Time. Clinical Psychological Science, 2017; 216770261772337 DOI: 10.1177/2167702617723376.

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