Papai Noel Luiz, 83, acumula pedradas e até carro queimado por falta de doce

Publicado na Folha de S. Paulo

Papai Noel nem está mais desapontado. “Não faço conta”, diz. As pedradas de que Luiz Ordine, 83, foi alvo no domingo (10), quando ficou sem doces em Itatiba (SP), não foram as primeiras. “Já levei tanta pedrada”, resume.

A repercussão da notícia, que saiu nos principais portais e viralizou na internet, espantou família e amigos. Até porque dessa vez ele nem foi atingido: em outros natais já tomou pedrada na cara e teve até seu carro incendiado, tudo porque ficou sem doces.

Foi em 1953 que Luiz vestiu uma barba falsa, chapéu e capa vermelha pela primeira vez, e, do alto do coreto de Itatiba, município a 84 km da capital e atualmente com 116 mil habitantes, lançou caramelos. Gostou de ver que passantes pegavam o doce e decidiu distribuir balas de coco no ano seguinte.

Desde então, são 64 anos percorrendo as ruas itatibenses e também indo até a cidades vizinhas para distribuir balas. Luiz inaugurou uma tradição na cidade: são hoje 18 papais noéis por lá a lançar doces para as crianças.

Ainda bem. Há 64 anos “era só o centrinho, e hoje a cidade cresceu demais”, conta a filha Rosângela Ordine, 56, que achou exagerada a repercussão. “Tacar pedra é o que mais gostam”, diz. “Foi uma pedrinha de nada.”

Até o prefeito, Douglas Augusto (PPS), que tem fotos com Luiz quando criança, concorda: “Sempre teve, mas agora virou notícia. Uma pena, é um trabalho tão bonito”.

PORTO SEGURO

Fazia anos que Luiz não ia ao bairro Porto Seguro vestido de Papai Noel. “Não ia porque outra vez fui lá e levei uma pedrada. Pegamos uma vila e, quando fui ver, já tava lá, era noite. Acabou a bala e piorou, desceram a lenha”, conta sobre o incidente de domingo. “Tacaram, mas não pegou. É gente grande que faz isso, criança pequena não é.”

A doméstica Izabel Francisca Teixeira, 56, mora na região do atentado e diz que seus filhos cresceram correndo atrás de Luís. “No meu bairro ele nem vai mais. As crianças ficam esperando. Quando ouvem um barulho que parece o sino dele, ou a música que toca no carro, já ficam animadas. É uma pena que isso tenha acontecido.”

Ela levava a neta, Julia, 10, a uma escola por ali. Num dos muros, há dois buracos. Vizinhos contam que estudantes do colégio costumam lançar desses buracos pedras em direção aos carros que passam.

FALTA DE BALAS

“É uma miséria de bala. Acaba mesmo”, diz Luiz. Hoje, a boa ação de Natal depende de doações, que são insuficientes. Acontece que a filha proibiu que ele gastasse tanto dinheiro como em outros tempos, quando chegava a desembolsar quase R$ 10 mil por ano só com os doces.

A reportagem contou 80 caixas de doces na floricultura de Rosângela. “Uma vez um rapaz entrou, pegou um saco de bala e saiu. Eu gritei: ‘Moço, é para doação’. Ele respondeu: ‘Então, doação’.”

Mesmo com as doações, os gastos de Luiz ainda são altos. Um antigo jipe Aero Willys, comprado há 17 anos, foi transformado em trenó, que não faz desfeita a nenhum carro alegórico de escola de samba, com luzes, música e bonecos de renas. Todo ano a decoração muda: a filha estima que gastou neste ano cerca de R$ 1.000.

Em décadas passadas, quando ainda pegava um jipe emprestado, a revolta da população pela falta de doces foi mais grave: atearam fogo ao carro. Para evitar uma explosão, Luiz puxou um tecido e acabou incendiando a própria roupa e a barba.

TRADIÇÃO

Criador da tradição, ele não gosta de ser copiado. Ao saber que outro Papai Noel queria imitar o modelo de seu trenó, correu para comprar os últimos bonecos de rena do shopping. “Tem gente aqui que se você marca um lugar para ir às 10h, ele chega no mesmo lugar no mesmo horário”, conta. Ele prepara um neto para assumir sua função.

Na tarde desta quinta-feira (14), Luiz distribuiu doces a crianças com deficiência na Apae na cidade, para alegria não só dos pequenos, mas também dos pais que lhe pediam uma foto.

Apesar da sensação térmica de 34°C, manteve-se fiel ao figurino, que demora cerca de uma hora para montar. A roupa, de pelúcia, foi costurada por sua mulher. Com corpo e rosto suado, ele aposta em água de coco para repor o líquido perdido.

“Inventei isso. E para sair? Não tem jeito”, diz. Ele dança e brinca sem aparentar a idade que tem. “Não bebo, não fumo. Pode ser isso.”

O trabalho começa em 1º de dezembro e só para no dia 25. Ele atende a pedidos para entregar presentes em festas particulares até na noite de Natal (nunca cobrou por isso, diz). “Eu nunca tive Papai Noel em casa. Era sempre na casa dos outros”, conta Rosângela.

Os pedidos são atendidos na medida do possível: no ano passado, Luiz ficou doente e não pode cumprir o cronograma. Ele também para se houver alguma morte.

É que, enquanto não está vestido com roupas polares ou pensando na decoração do trenó do próximo ano, Luiz comanda uma funerária no centro de Itatiba.

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