Por que erramos tanto ao dar presentes, segundo esta pesquisa

Publicado no Nexus

Uma das explicações sobre por que a humanidade adere em geral à prática de dar presentes é a ideia de que os membros das sociedades buscam trazer felicidade e fortalecer laços sociais por meio deles. O descompasso entre presenteador e presenteado, que leva a presentes indesejados e situações constrangedoras é, no entanto, um fenômeno frequente, estudado por diversos cientistas.

Por exemplo: um artigo publicado em 1993 no periódico The American Economic Review, intitulado “O peso morto do Natal”, estima que entre 10% e um terço dos presentes são desperdício, porque têm menos valor para quem os recebe do que aquilo que foi efetivamente pago.

Publicado em 2016 na revista Current Directions in Psychological Science, um trabalho de pesquisadores das universidades Carnegie Mellon e de Indiana, busca explicar por que tantos presentes dão errado. Com o nome “Por que certos presentes são ótimos de se dar, mas não de receber”, o artigo defende que há um erro essencial por parte dos presenteadores: eles tendem a fazer escolhas hedonistas, ou seja, divertidas, impactantes e úteis no curto prazo.

Eles enxergam os aspectos abstratos dos presentes, e podem pensar algo como “isto representa a história da nossa relação”.

Quem ganha, no entanto, prefere presentes úteis, que serão capazes de aproveitar no longo prazo. Eles veem os mimos do ponto de vista concreto, e podem pensar algo como “isso vai ocupar lugar na minha casa, mas vai melhorar a minha vida”. Uma das formas de evitar o erro é se colocar no lugar do presenteado.

“Quem dá presentes deve escolhê-los com base em quão valiosos eles serão para quem recebe no decorrer da posse, e não quão bonito o presente parecerá quando ele for aberto”

O descompasso na troca de presentes

De acordo com o trabalho, o descompasso ocorre porque as pessoas que presenteiam valorizam em excesso o momento da troca de presentes. Elas pensam em si mesmas, e desejam parecer bons presenteadores.

Isso leva a optar por presentes imediatistas, como um buquê menor, com todas as rosas em flor, em detrimento de um buquê maior de mesmo preço, mas com botões ainda fechados. “Presenteadores estão tão focados na troca que deixam de levar em consideração quão bom um presente será para o presenteado durante sua posse, e não percebem que estão cometendo um erro.”

Os presenteados, no entanto, não focam no momento da troca, mas na sua relação com o presente no longo prazo. Eles tendem, portanto, a preferir o buquê com os botões fechados, que é maior e durará mais tempo.

Segundo o trabalho, é possível que gafes maiores ocorram em ocasiões em que a troca de presentes ganha observadores, como um aniversário em que todos os embrulhos serão abertos em público e em que o presenteador buscará se destacar mais. E menor, em momentos em que isso não costuma ocorrer, como casamentos.

A pesquisa indica ainda que, mesmo quando há sucesso em impressionar durante a troca de mimos, o fracasso de um presente pode se tornar patente com o tempo, conforme ele se prova inútil. “Como o descompasso geralmente ocorre porque presenteadores subestimam como a posse do presente será para o recipiente, a inaptidão pode se tornar mais aparente conforme o momento da troca se torna mais distante.”

O artigo parte dessa tese para apontar uma série de erros comuns na hora de dar presentes.

Presentes chamativos

Pesquisas apontam que é comum que presenteadores escolham itens que são chamativos e divertidos, como uma almofada com o rosto da Peppa Pig, mas não tão úteis, como seria um bom travesseiro, por exemplo. O presenteador “espera que o destinatário fique embasbacado ao abrir o presente. Mas, em contraste, o destinatário se importa muito com a sua capacidade de usar e aproveitar o presente, e prefere algo mais prático, ou útil”.

Presentes imediatistas

Frequentemente, quem presenteia prefere dar algo que pode ser imediatamente utilizado. O trabalho cita o exemplo de uma batedeira mais simples e barata, mas totalmente paga, em detrimento do pagamento das primeiras parcelas de uma batedeira top de linha. Há pesquisas indicando que os presenteados estão dispostos a esperar para ter um produto de maior qualidade. “Quem dá o presente vê mimos completos como mais atenciosos, mas quem os recebe prefere itens de maior qualidade, mesmo quando incompletos [por ainda precisarem terminar de ser pagos, por exemplo]”, diz o trabalho.

Presentes materiais

Presenteadores costumam preferir dar bens materiais, como um iPad, ou uma roupa, em detrimento de bens experienciais, como ingressos para um show. Segundo o trabalho, isso ocorre porque presentes materiais podem ser imediatamente utilizados no momento da troca e podem causar reações mais fortes. Apesar de serem em geral os preferidos dos presenteados, presentes experienciais são consumidos longe do momento da troca.

Surpresas

Presenteadores frequentemente investem em itens que nunca foram requisitados pelo presenteado e que tendem, portanto, gerar reações de surpresa no momento da troca de presentes. Os presenteados preferem, no entanto, aquilo que pediram, já que isso com certeza está de acordo com suas preferências.

“Achei a sua cara”

Presenteadores frequentemente buscam dar itens que deixam explícito que conhecem os seus destinatários, como, por exemplo, um vale-presente da loja favorita destes. Mas os presenteados tendem a preferir itens mais versáteis e, portanto, úteis no geral, como um vale-presente que pode ser gasto em qualquer estabelecimento.

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