Um ano sem saudade

Ricardo Gondim

2017 foi-se e com ele, lágrimas doloridas. Em toda a minha história de vida, já chorei muito. Acompanhei minha família rumo ao cemitério, logo depois que papai foi preso. Sepultávamos uma irmã, incapaz de sobreviver à gravidez da mamãe sob o terror da ditadura. Anos depois, fiz o mesmo trajeto para enterrar um sobrinho, filho de minha irmã mais velha, assassinado na flor da idade – 17 anos.

Verti lágrimas por escolhas desastrosas e impensadas. Nessas horas, enquanto escorriam por minha face, provei o gosto salgado de tolices que eram só minhas. Também sofri, angustiado, com decisões açodadas de pessoas que amo. Findei o último dia de vários anos com um soluço travado na garganta.

2017 foi único. Dele, guardo uma dor assombrosa. Não sou ingrato. Tenho o que celebrar. Todavia, poucos anos acabaram tão devedores, com a coluna dos déficits sobrecarregada com ais. Despeço-me dele sem saudade.

As lágrimas de 2017 foram corrosivas, ácidas, acres. Chorar convulsivamente me revelou o quanto pesam os pingos que brotam de dentro da gente. Quando lamentos nascem nos porões profundos da alma, remorder choros inconsoláveis e discernir perdas incontornáveis tornam-se parte de nós mesmos.

Minha agonia teve um único benefício: me ajudar a seguir adiante sem armaduras, sem couraças, sem fantasias. Aprendi em 2017 o sentido das expressões “traspassado”, “afligido”, “esmagado”. Recitei diversas vezes o cântico de Isaías.

Quem atravessa o vale da sombra da morte perde o direito vestir qualquer farda com empáfia. Em um ano fui revirado por dentro. Minha esperança virou simples teimosia. De repente, deparei-me velejando no rio da impermanência sem a veleidade típica dos conquistadores. Sei que meu teto é de vidro e as paredes da minha casa são de giz. Inauguro um novo ano. Piso, entretanto, o palco da existência com mais delicadeza.

fonte: site do Ricardo Gondim

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