Guia ensina como fazer trabalho voluntário sem parecer babaca nas redes sociais

Publicado no UOL

No conforto de seu quarto, a jovem acompanha, pelas redes sociais, dois perfis cheios de curtidas. Os protagonistas dessas fotos –uma mulher e um homem, ambos loiros e bonitões– mostram suas aventuras pela África, cercados por criancinhas pobres que ficam encantadas com a atenção estrangeira. É então que aquela primeira moça, com três míseras curtidas em sua última foto, decide virar o jogo e virar também protagonista do vídeo “Como conseguir mais likes em redes sociais” (em inglês), todo trabalhado na ironia.

Primeiro passo: viaje para a África. A surra de selfies deve começar já no avião, mostrando –sem consentimento– um suposto africano que dorme na poltrona ao lado. Chegando lá, escolha sempre a versão raiz do passeio, pois o modo Nutella possivelmente renderá menos cliques. Não poupe contorcionismo na hora da foto, caso isso garanta a participação de um coitadinho (lembrando que crianças = likes). Por fim, aposte nas legendas e hashtags de efeito, que reforcem toda sua coragem e boa vontade para com o próximo.

O guia obviamente às avessas termina com a mensagem “Estereótipos ferem a dignidade” para não deixar dúvidas sobre sua intenção real. Ou “real oficial”, se assim soar mais verdadeiro.

Desenvolvido pelo Saih, um fundo norueguês de estudantes que promove a educação e o desenvolvimento global, o vídeo é parte de uma campanha criada no final de 2017 com dicas para voluntários e turistas não errarem o tom ao retratar países em desenvolvimento. “Pode ser difícil apresentar outras pessoas e ambientes de maneira adequada com um rápido post nas redes sociais”, reconhece o texto de apresentação do projeto.

COMO CONSEGUIR MAIS LIKES? GUIA SOBRE O QUE NÃO FAZER

Lembrete: o voluntário não é o herói da história

O material baseia-se em quatro princípios:

1. Promova a dignidade (“pessoas não são atrações turísticas”);
2. Compartilhe com consentimento (“respeite a privacidade do outro”);
3. Questione suas intenções ao postar (“o voluntariado visa o outro ou você?”);
4. Derrube estereótipos (“conte novas histórias a seus amigos e a quem te segue”).

Kristin Marie Skaar, responsável pela área de comunicação do Saih, contou em entrevista ao UOL como a equipe chegou a esses quatro tópicos. Primeiro, pesquisaram em redes sociais o que os voluntários geralmente compartilham. Também trocaram experiências entre eles, pois o fundo norueguês atua em países em desenvolvimento. Por fim, buscaram referências em diretrizes já existentes para o uso ético de imagens por ONGs (Organizações Não Governamentais).

“Depois de consultar várias dessas diretrizes, percebemos que algo parecido e simples deveria ser amplamente disponibilizado, pois as redes sociais transformam todos em ‘editores’ de alguma forma. Essas plataformas estão em todos os lugares, são instantâneas e deram origem a discussões sobre privacidade e ética que devem ser levadas em conta também quando viajamos”, afirma Kristin.

Para facilitar a aplicação das diretrizes, disponibilizaram uma checklist à la “pense antes de postar”. Dois spoilers: “não se coloque como o herói da história” e “pergunte-se se você gostaria de ser retratado daquela mesma maneira”.

Essa lista foi feita em parceria com o perfil Barbie Savior, em que uma experiente Barbie salvadora mostra para 145 mil seguidores no Instagram seu voluntariado na África. As fotos da boneca enfatizam sempre sua disposição em ajudar, seus looks, seus selfies, sua habilidade em criar hashtags e, claro, sua #gratidão. “Esse apoio foi importante por causa do conhecimento que eles [os responsáveis pelo perfil] têm sobre os aspectos críticos do voluntariado”, disse a norueguesa.

É fácil cair na armadilha de mostrar exatamente o que as pessoas querem ver: o exótico, o desfavorecido etc. Sem perceber, também é comum se colocar ao centro e virar o ‘salvador’ daquela história, pois selfies rendem curtidas

Kristin Marie Skaar, responsável pela comunicação do Saih

O poder (e o perigo) da ironia

O Saih promove todos os anos o concurso Radi-Aid Awards, com o objetivo de transformar a comunicação das campanhas para arrecadação de dinheiro. Na ocasião, são eleitos os melhores e piores vídeos nessa área. Em 2017, o músico Ed Sheeran figurou entre os piores na produção da instituição britânica Comic Relief. “Esse vídeo é sobre Ed Sheeran. Trata-se, literalmente, de turismo de pobreza. […] Que coisa irresponsável de se fazer”, comentou o júri sobre a forma como o cantor interagiu com crianças de rua na Libéria.

Esse concurso teve origem em 2012, quando o Saih produziu o vídeo “Africa for Norway”, mostrando de forma bem-humorada o risco dos estereótipos. Nele, generosos africanos decidem doar radiadores domésticos para aquecer os noruegueses, duramente afetados pelo frio. Em uma clara referência a “We Are The World”, hit criado nos anos 80 para combater a fome na África, a canção do Saih tem até um cosplay do cantor Stevie Wonder.

“Todos os nossos vídeos são baseados em ironia e sátiras, pois percebemos que assim a mensagem causa mais impacto do que quando simplesmente transmitida de forma direta. Faz com que as pessoas reajam e entendam o que queremos dizer. Também exageramos para podermos rir de nós mesmos”, disse Kristin quando questionada se o público identifica a ironia, uma linguagem frequentemente associada a mal-entendidos na internet.

Apesar da escolha consciente, ela admite ter recebido algumas críticas em relação à personagem criada para o guia dos voluntários: houve quem a considerasse um tanto vulgar e estereotipada. “Escolhemos uma mulher, pois elas superam a quantidade de homens nas viagens de voluntários. Poderíamos, no entanto, ter criado alguém com mais roupas e sem essa imagem bimbo [gíria em inglês para alguém atraente e pouco inteligente]. Nem todo mundo entendeu e não devemos brincar com algumas coisas”, concluiu.

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