Lições que aprendi com uma viúva estressada

Marília César

“Marta! Marta! Você está ocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10) 

Marta! Marta! Sua incompreendida. Sempre atarefada, para lá e para cá, cuidando de tudo e de todos. Sempre querendo deixar a casa arrumada, preparar o almoço, o jantar, atender a família em suas necessidades. Sempre cansada e sobrecarregada, sem tempo para si mesma. Marta, minha irmã, queria hoje dizer-lhe o seguinte:#tamojunto.

A passagem narra uma das vezes que Jesus visitou seus amigos, os irmãos Marta, Maria e Lázaro. Eles moravam em Betânia, uma cidadezinha próxima a Jerusalém e possivelmente eram uma família de posses. Marta, provavelmente, segundo os estudiosos, era viúva, porque as Escrituras Sagradas contam que a casa era dela (Lucas 10:38) e, se fosse casada, o narrador citaria o nome do marido, e não o dela.

Ouvi muitos pregadores ensinarem essa passagem, ao longo dos anos. Eles explicavam que Marta simboliza a pessoa que não tem tempo para as coisas de Deus, que vive ocupada demais para dar atenção ao que é realmente importante – ouvir atentamente o que Jesus tem a dizer, como fazia Maria. O texto de Lucas diz que, enquanto Marta trabalhava, Maria estava aos pés do Mestre, ouvindo atentamente o que ele dizia.

Maria, no caso, me ensinaram esses pastores, é o símbolo da mulher espiritual, que dá valor ao que realmente deve ter valor em nossa vida. Marta, portanto, seria o sinônimo da mulher carnal.

A história segue. A certa altura, a viúva reclama: Pô, Senhor, não acha injusto eu ter de fazer tudo sozinha?

Note que ela não reclama por estar servindo, mas por estar servindo sozinha.

Porque servir, para Marta, é um dom, e não um peso. Mas os dons podem, sim, se tornar um fardo, quando não há cooperação.

Veja o que diz a passagem de João 12: 1 e 2:

“Seis dias antes da Páscoa Jesus chegou a Betânia, onde vivia Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. Ali prepararam um jantar para Jesus. Marta servia, enquanto Lázaro estava à mesa com ele. “
Marta servia.

“Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça ..” (Romanos 12: 7 e 8)

O dom de servir, em geral, vem junto com a qualidade de receber, generosamente, as pessoas, incluindo estranhos, em nossa casa – o que chamamos de ser hospitaleiro. “Pratiquem a hospitalidade”, pede o apóstolo Paulo, no mesmo capítulo 12 de Romanos.

O problema é que servir e ser hospitaleiro dá muito trabalho. Você tem que se dispor a preparar a casa para acolher as visitas. Ser desprendido e repartir o que tem na geladeira (ou, se não tem, precisa ter energia para correr ao Extra para abastecer a despensa). Acima de tudo, tem de ser dona de um coração amoroso e ter os ouvidos abertos para conversar um pouco com o visitante e deixá-lo à vontade. Servir e ser hospitaleiro são uma linda qualidade. Mas que, infelizmente, poucos, nestes dias estressantes que vivemos, podem colocar em prática.

É verdade então o que me ensinaram os pregadores da minha juventude – que o fato de Marta estar sempre “servindo” diminui sua estatura espiritual? Apenas Maria, que “escolheu a boa parte”, é uma mulher espiritual, porque não sai dos pés do Mestre, é contemplativa, gasta todo seu tempo com ele e ainda por cima unge-o com um óleo caríssimo e que deixa a casa toda perfumada?

Claro que não!

Marta é, sim, à sua maneira, uma mulher profundamente espiritual. Em seu encontro com Jesus, quando Lázaro falece, ela trava com o Mestre uma conversa em que demonstra ter intimidade com a natureza messiânica do Nazareno e conhecimento teológico – ela até cita a promessa de ressurreição dos mortos (Ver João 11)

Por que, então, ela é tão injustamente usada pelos pregadores que lhe dão uma conotação negativa? Será que é porque ela reclama que a folgada da Maria não a ajudava? Mas ela reclamou por que não queria trabalhar, porque era preguiçosa? Não!! Ela reclamou apenas porque precisava de ajuda!

Ela queria acabar o “serviço” logo, para também poder conversar com Jesus, aquele a quem ela diria, um tempo depois, que era “o Cristo, o filho de Deus que devia vir ao mundo” (João 11: 25)

Quantas mulheres andam sobrecarregadas e exaustas, porque têm esse dom maravilhoso de servir, mas não têm tido ajuda para que o dom não se torne um fardo. Mulheres que servem com alegria, na igreja, em suas casas, na casa dos parentes e amigos, tantas vezes têm vontade de dizer – Pô, Senhor, manda fulano me ajudar! Eu também quero ouvir o que o Senhor tem a dizer, mas nesta casa só tem folgado!

O que Jesus diz para Marta, que também é sempre visto como uma reprimenda, uma exortação, poderia ser então entendido desse jeito (minha hermenêutica particular)

– Marta, minha querida, não precisa se preocupar tanto, não seja tão perfeccionista, eu sou de casa! A única coisa que é necessária é saber que você me ama e também quer estar comigo, como Maria, me escutando, me adorando, aqui junto a meus pés.

Imaginar essa fala, mesmo que não totalmente demonstrável cientificamente (risos) não muda totalmente a perspectiva a respeito da coitada da Marta?

Parei para pensar em tudo isso, não porque seja uma devota de Santa Marta, padroeira das cozinheiras, mas porque me identifico com ela. E sei que há milhares de Martas por aí, cansadas e sobrecarregadas, e ao mesmo tempo desejando ter mais tempo de intimidade com Deus – sem conseguir.

Por isso, resolvi escrever esse este texto para registrar minha admiração por essa mulher proativa, inquieta, mão-na-massa, pau-pra-toda-obra e, ainda assim, sim, muito espiritual, chamada Marta de Betânia.

Marta, minha irmã, você está absolvida!

fonte: Facebook

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