Evangélicos lutam pela tradição do Carnaval e contra intolerância religiosa

Publicado no UOL

Desde os primórdios, o Carnaval sempre esteve ligado ao profano. Afinal, surgiu como um ritual de excessos marcado para acontecer exatamente antes da Quaresma, época de jejuns e provações. Não à toa, a origem do nome da festa vem do termo italiano “carnevale” – em português, adeus à carne. Ao longo dos tempos, foi natural a relação de tensão e antagonismo entre foliões e religiosos mais ortodoxos. O capítulo mais recente foi o imbróglio ocorrido com o corte de verbas públicas do Carnaval carioca, que acirrou ânimos entre os sambistas e o prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas nem tudo é “guerra santa” na folia. Espalhados em várias agremiações, sambistas provam que o caminho do entendimento é o mais viável. Evangélicos hoje cantam, compõem, sambam e rodopiam com desenvoltura pela Sapucaí.

Tuane Rocha, da São Clemente, se converteu após acidente de carro
Imagem: Ricardo Almeida/Divulgação

“Cantar samba é meu ganha-pão”

Intérprete de samba experiente, com passagens pelo Grupo Especial como cantor principal em escolas como São Clemente, Estácio de Sá e Acadêmicos da Rocinha, Anderson Paz, 44 anos, se converteu há cinco e, ato contínuo, abandonou o Carnaval. Seu exílio da folia não durou mais do que um ano: “Na época, não tinha muito conhecimento e fui influenciado por pessoas mais tradicionalistas. Mas foi um colega meu da Igreja que me convenceu a voltar. Afinal, cantar samba é meu ganha-pão e não influi nada na minha forma de lidar com o mundo e com a minha espiritualidade”, relata.

Anderson Paz, da Inocentes de Belford Roxo e da São Clemente
Imagem: Instagram/Reprodução

Anderson, que atualmente é intérprete oficial da Inocentes de Belford Roxo (escola do Grupo de Acesso) e integrante do time de cantores de apoio da São Clemente, diz que o Carnaval ainda impõe barreiras para os evangélicos: “Muitas pessoas vão às igrejas, mas têm vergonha de admitir. Às vezes me chamam no canto e pedem conselhos. De minha parte, não vejo problema. Quando era puxador da Porto da Pedra, eu falava de Jesus em cima do palco com toda tranquilidade”. Frequentador da Igreja Cristo Vive, no bairro de Campinho, na Zona Norte carioca, o intérprete também tem um grupo de pagode e não pensa, no momento, em se enveredar pela música gospel: “Se um dia isso vier a acontecer, acho que deixo o Carnaval. Acho que são públicos diferentes e precisaria focar em apenas um”, afirma.

Louvando a Deus, mas com a Portela no coração

Na mesma igreja de Anderson, os cultos têm a presença de uma sambista de linhagem portelense. Filha do ex-presidente da escola, Nelson de Andrade, Jane Carla, 52 anos, é presidente da ala das baianas da azul e branca e, há 30 anos, após um problema de saúde de seu filho, resolveu se converter. Enfrentou resistências da família, predominantemente católica e espírita. Assim como o cantor, em um primeiro momento, ela abandonou a vida do samba, mas retornou após um ano de afastamento. “Sair da Portela foi como me afastar da minha família. Deus é supremo, mas eu tenho a escola como meu trabalho e minha diversão”, assegura.

Nos meses que antecedem ao Carnaval, Jane concilia a intensa agenda de preparação para o desfile com suas obrigações religiosas. Ela vai ao culto nas segundas, quartas e domingos e, em muitos momentos, emendando um compromisso no outro. “Já cansei de ir para a Igreja ‘virada’ do samba ou sair de lá diretamente para uma reunião na quadra. Mas, depois do Carnaval, as coisas se acalmam e eu consigo me dedicar melhor à vida espiritual”, relata a sambista, que também participa do grupo da Velha Guarda Show da escola, ao lado de baluartes como Monarco e Tia Surica.

Jane Carla é presidente da ala das baianas da Portela
Imagem: Facebook/Reprodução

Uma das principais críticas feitas pelos sambistas às igrejas evangélicas é a de que suas estratégias de conversão tenham resultado no afastamento de muitos componentes das escolas, sobretudo, nas alas de baianas. Questionada se observa esse fenômeno, Jane afirma que ele foi mais forte há cerca de dez anos e elege um novo motivo para a pouca renovação no segmento mais tradicional das escolas: “As fantasias são muito pesadas e muitas baianas se afastaram. Graças a Deus, a nossa roupa para esse ano está levíssima. Vamos rodopiar bastante”, comemora.

“É possível louvar e sambar”

Juntamente com as baianas, o segmento que mais dá destaque às mulheres no desfile é a ala de passistas. E, em meio às dançarinas da São Clemente, encontramos Tuane Rocha, 35 anos, desfilante há 20. Com seu samba no pé, charme e beleza, já viajou por vários países e integra o elenco fixo do show do cantor Dudu Nobre. Mesmo assim, nunca deixa de estar com a sua Bíblia na bolsa e, quando está no Rio de Janeiro, frequenta o culto. A igreja prefere não revelar para se preservar. “Quem nos vê no palco, tem uma visão totalmente distorcida. Ali, eu sou uma artista, uma dançarina, que faz o seu trabalho da melhor forma possível. Fora do palco, sou a Tuane, que é mãe, que paga suas contas e que construiu sua vida graças à dança e ao Carnaval, com muito orgulho”, afirma.

De família católica, Tuane ainda frequentou a umbanda, o candomblé e o budismo até se converter, há cinco anos, depois de sofrer um acidente de automóvel. Convidada pela irmã, encontrou-se espiritualmente. “Fui, gostei e fiquei. Sofri um tanto toda a intolerância, vinda dos dois lados. Mas estou aqui para mostrar que é possível louvar e sambar. Espero que, um dia os preconceitos caiam, já que a busca religiosa é algo intimo e não pode interferir em nosso convívio com as outras pessoas”, sonha a passista, que estrelou o curta-metragem “Pele de Pássaro”, da diretora Clara Peltier, vencedor do Festival do Rio de 2015.

Um fiel da Universal na Mangueira

Da Estação Primeira de Mangueira surgiu a resposta mais firme contra o prefeito Crivella, com seu enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”. E, dentre as parcerias que disputaram o seu concurso de samba-enredo, um dos compositores é membro atuante da Igreja Universal do Reino de Deus, do bairro de Campo Grande, na Zona Oeste. O jornalista e psicanalista Marcos Lodi, 35 anos, é de Juiz de Fora (MG) e, desde os 15 anos, participa ativamente da folia de sua cidade como puxador e compositor. Radicado no Rio há três anos, hoje também atua como repórter na imprensa especializada de Carnaval e é diretor do Arrastão de Cascadura, escola do Grupo D.

“Sou da Universal há 11 anos e nunca me senti privado de nada. Jamais passou pela minha cabeça sair do Carnaval porque teologia e cultura são assuntos diferentes. A intolerância só cresce onde as pessoas desconhecem aquilo que não toleram”, afirma o compositor, que não abre mão de frequentar os cultos e conversa abertamente com os colegas de Igreja sobre sua opção de vida. “Muitos ainda têm uma visão de que o Carnaval é coisa do demônio. Tento explicar a importância cultural de uma escola de samba. A felicidade que sinto ao louvar é a mesma que sinto ao pisar no Sambódromo”, afirma.

Marcos, além de sambista, não votou em Crivella em 2016. E viu na situação atual um cenário perfeito para concorrer com seu samba na Mangueira: “O que motivou a fazer o samba foi a inteligência da crítica na sinopse. A construção do enredo me chamou a atenção e me senti obrigado a participar, dando a minha versão”.

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