Autor de ‘Vai Novinha’ virou evangélico e proíbe filha adolescente de ouvir o funk

Publicado na Piauí

Vai lá, novinha… Mas não convide para a farra a filha de um dos responsáveis pelo funk que, há pouco mais de dez anos, foi fundamental para transformar o adjetivo em substantivo. Mais do que isso, em criar uma nova acepção da palavra que popularizou-se como sinônimo de jovens com disposição para o sexo. MC Frank, de 39 anos, que gravou Vai novinha com o Bonde dos Magrinhos, tenta manter sua própria novinha de 15 anos longe das canções que exaltam performances sexuais de adolescentes. Ele proíbe a filha de escutar, no computador ou no mp3 player, “esse tipo de música”. Uma mudança e tanto para o artista que prometia, em suas canções, deixar a parceira “maluca e suadinha” e cantava que daria “várias linguadinhas” em partes do corpo da moça. Pai de quatro filhos, ele avisa que a mesma interdição será válida para sua outra menina, que tem 7 anos.

“Não quero que elas entrem nisso. Abomino essas músicas, quero que fiquem longe. Quando ela [a mais velha] tenta ouvir, eu tiro na hora”, contou, na varanda de sua casa em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Contraditório? Ele admite que sim. Tanto que, num primeiro momento, disse que não cantaria mais o tal funk – depois até mudou de ideia e disse que, se o público pedisse, poderia cantar. No primeiro contato com a piauí, por WhatsApp, Frank comentou que nem sequer lembrava do antigo sucesso.

Ele e o aposentado MC Loscar estão entre os primeiros artistas a disseminar a palavra que, hoje, é campeã de buscas de brasileiros em sites pornô, novinha que deixou de lado sua função adjetiva para se tornar um substantivo concreto e desejado. Dificuldades relacionadas ao uso excessivo de drogas e bebidas fizeram com que ambos mudassem de cartilha – se tornaram evangélicos. MC Frank hoje alterna a carreira de funkeiro com orações em um templo da Assembleia de Deus. Loscar, ou Carlos Cesar Vieira, seguiu os passos da mãe na direção da Igreja Universal do Reino de Deus. Ele abandonou a carreira artística e hoje é proprietário de uma empresa especializada em trabalhos gráficos no Saara, região de comércio popular no Centro do Rio.

Os dados do Google Trends, ferramenta que mede o interesse por palavras ou expressões na internet, revelam que novinha com este novo significado nasceu no Rio de Janeiro, de onde, embalada pelo batidão do funk, saiu para conquistar o Brasil. O Trends permite, através da quantidade de buscas feitas pelos usuários do Google, verificar a trajetória de uma palavra ao longo do tempo e determinar o seu pico de popularidade, que passará a valer 100. Os valores anteriores e posteriores a esse máximo serão uma fração dele, formando uma curva proporcional ao interesse despertado pela palavra em cada época.

O pico de procura pela palavra novinha ocorreu em dezembro de 2015, no Brasil e no estado do Rio. A diferença é que, entre os fluminenses, o interesse pelo termo foi despertado mais cedo e o crescimento de sua popularidade se deu de forma mais rápida. Em janeiro de 2009, novinha marcava cinco pontos em popularidade no estado do Rio, desfrutava, portanto, de 5% do prestígio que viria a ter entre os fluminenses. No país todo, a palavra apresentava três pontos. Em São Paulo, a procura andava mais lentamente, com dois pontos cravados naquele mês.

Quatro anos depois, em janeiro de 2013, os números já eram bem mais robustos – e os fluminenses continuavam a demonstrar que eram mais velozes: no estado, a popularidade da palavra atingiu então 52 pontos; no Brasil, o índice ficou em 43 e, em São Paulo, bateu 45.

É uma popularidade que vem se mantendo. De dezembro de 2015 para cá, raras vezes a busca por novinha caiu abaixo de 90 pontos. Exatos dois anos depois, o total de procuras era o mesmo e, em janeiro passado, em todo o Brasil, novinha alcançou 92 pontos.

Um outro levantamento no Google Trends, restrito a janeiro deste ano, comprova a nacionalização da palavra. A ferramenta também identifica a busca por expressões que incluem a palavra – no caso, todas as 25 associadas a novinha tinham ligação com prática sexual, como “sexo novinha” e “novinha pornô”. As buscas pela palavra aumentam de maneira vertiginosa a partir das 22 horas, chegam a quadruplicar por volta das quatro horas da manhã, quando há o ápice diário de procura.

O sucesso nos funks levou as novinhas para passeios em outros ritmos populares, como o sertanejo. Neste caso, a descrição das, digamos, travessuras dessas jovens não chega a ser tão explícita, há até casos em que a dor de cotovelo típica do gênero é mais forte que o faço-e-aconteço tão presente nas composições cariocas. Gravada pelo Bonde do Vaqueiro, Novinha trata de uma moça ambiciosa, que só gosta de rapazes ricos (“Mas ela me disse eu só saio de Camaro amarelo”). Dono de um Gol “velho e vermelho”, o narrador apela: “Novinha, se eu te pegar/te dou o meu amor.” Morto num acidente em 2015, Cristiano Araújo também cantou o amor ao falar de uma novinha: “Ai meu Deus, nossa que situação, essa novinha linda e dona do meu coração/Não aguento mais viver nessa ilusão/Fico logo atordoado, todo cheio de paixão.” Outras letras são mais assanhadas: “Que isso novinha/não dá essa reboladinha” (Que isso novinha, gravada por Yago e Juliano); “Êê êê êê é hoje que eu vou arrochar você/Êê êê êê me provocou agora cê vai ver” (Vem novinha, Henrique e Juliano).

Pioneira, Vai novinha trata de um tema pouco comum nas canções de MC Frank, que ficaria conhecido por abordar temas ligados à criminalidade e à violência. Chegou a compor “proibidões”, funks em que nomes de traficantes eram citados. Ele e o irmão, também MC, passaram boa parte da infância numa das favelas do Complexo do Alemão – a família teve que sair de lá por causa do crescimento do poder de bandidos. Policial civil, o pai dos músicos não tinha mais como morar na comunidade. Em 2010, no rastro da ocupação do complexo por policiais e tropas federais, Frank, o irmão MC Tikão e outros funkeiros ficaram nove dias presos, acusados de fazer apologia ao crime.

Autor de outro grande sucesso do gênero (Choveu, cabelo encolheu), Frank conta que o convite para gravar o funk sobre as novinhas partiu do Bonde dos Magrinhos. A letra não é nada sutil, fala em bundinha, xotinha, peitinho, mas, segundo ele, não gerou polêmica ou acusações de machismo e de eventual estímulo à violência contra mulheres.

“Na época, o funk rolava dentro das comunidades, não ia tanto pra Zona Sul. Nessas comunidades, ninguém achava a música desrespeitosa, não tinha problema”, disse. Hoje, porém, admite que a letra do funk “é totalmente machista”. Em 2017, quando o gênero musical já se impusera em todo o país, Só surubinha de leve, de MC Diguinho, seria banida do Spotify depois de muitos protestos e reclamações. O funk, que teria a letra amenizada, foi considerado por muita gente como capaz de estimular estupros. “Não condeno [o amigo MC Diguinho]. Ele vem de comunidade pobre, conseguiu fazer sucesso…” Frank ressalta que, nos bailes em favelas, o funk de Diguinho continua a ser cantado com sua letra original (“Taca bebida/Depois taca a pica/E abandona na rua”).

Já Carlos Cesar Vieira, de 28 anos, eliminou as contradições. Fala com tranquilidade sobre seu passado de funkeiro, mas deixa claro que MC Loscar – uma inversão das sílabas do seu prenome – é um personagem do passado. Há um ano e meio, largou a carreira artística para iniciar sua “caminhada evangélica”. Ao contrário de tantos artistas que se destacam no funk, ele não foi criado em favela, mas no bairro de Fátima, região de classe média baixa na área central do Rio. A vontade de ser cantor e o estímulo de amigos fizeram com que se aproximasse do gênero musical e do universo das novinhas.

O repertório de MC Loscar que trata dessas jovens tem, pelo menos, três sucessos. Um deles começa com um discurso em defesa das novinhas – na introdução, ele conta que discordara de um amigo, o sujeito achava que essas moças tinham que ser “esculachadas”. A lição de bom comportamento tinha motivos pouco nobres, como diz o título da composição, As novinhas de hoje são as cachorras de amanhã. MC Loscar queria garantir uma futura abundância: “Primeiro tem que plantar/pra depois você colher”, ensina a letra. O conjunto de funks também inclui Ela é novinha, mas já é piranha e Novinha de 17, em que é feita uma defesa do sexo com adolescentes mais velhas. Nesta última, os versos ressaltam que relações com menores de 14 anos são proibidas pelo Código Penal.

Apesar da letra agressiva sobre as novinhas, Carlos afirma que a palavra não tem sentido pejorativo. “Novinha é algo positivo, as meninas gostam de ser chamadas assim. Ninguém chama uma feia de novinha”, detalhou. Ele admite que, em sua carreira, pegou muitas dessas moças. Dizia que elas queriam ficar ao lado do MC, ir para a área VIP dos bailes, demonstrar prestígio, desfrutar de momentos de fama. E dinheiro não faltava para garantir a diversão. Era uma época em que funkeiros recebiam cachês entre 1 500 e 2 000 reais – bem menores que os atuais, frisa. Ele ficava com 40% do que era pago para cada show, o resto da grana ia para o empresário, responsável pela agenda e infraestrutura. Mesmo assim, faturava bem: chegava a fazer cinco apresentações por noite e não via necessidade de economizar em bebidas ou em drogas como ecstasy.

O dinheiro permitiu que ele saísse da casa dos pais e fosse morar com a namorada, de 19 anos. Aos poucos, MC Loscar começou a ficar cansado das noitadas, a sentir o que chama de “vazio”. “O tempo vai passando, você vê que aquilo tudo é ilusão.” Na época, sua mãe começara a frequentar a igreja – um gesto que, para ele, fez com que seu pai parasse de beber. A irmã também se converteu e demonstrava felicidade com a nova vida. A influência familiar fez aumentar as dúvidas do funkeiro – num primeiro momento, ele decidiu virar evangélico e manter a carreira artística. Não deu muito certo. “Virei as costas para Deus”, comentou. Mas, no dia 14 de agosto de 2016 (ele faz questão de citar a data exata), Loscar viraria Carlos de vez. “Eu estava andando em círculos. Como se diz no funk, a vida é uma roda-gigante, numa hora você está em cima, na outra, lá embaixo”, resumiu. Cansado das subidas e descidas, ele optou pela segurança do chão religioso.

Em meio às idas e vindas, acabou se afastando da moça, Juliana, com quem dividia uma casa. Carlos a reencontraria num momento difícil, ela estava deprimida, insatisfeita com a vida de festas. Ela também acabaria se convertendo, a relação seria retomada, agora em outras bases. Eles vivem um “namoro cristão” – ou seja, sem sexo. Evitam até ficar sozinhos porque, afinal, como está na Bíblia, a carne é fraca. O casamento dos dois será neste mês de março.

Apesar das críticas que faz ao próprio passado, Carlos não demonstra amargura ao contar sua história. Frisa que o funk “conta muito da realidade da favela” e que dá oportunidade profissional a tantos jovens que, desde cedo, convivem com o tráfico e as armas pesadas. Ressalta que, graças ao gênero musical, teve boas experiências, conheceu outros estados. “Mas não quero ressuscitar o MC Loscar”, avisou. Sobre as novinhas, diz esperar que elas entendam “o quanto que se desvalorizam”. Sentado à sua mesa de trabalho, Carlos diz que nunca conseguiu fazer um funk gospel, que perdeu o desejo de cantar. Isso não o impediu de compor uma canção de viés religioso, a Desanima não, uma ode à persistência, à busca de uma solução em Jesus.

MC Frank permanece no funk. A ida aos cultos colaborou para que ele deixasse a cocaína que consumiu por vinte anos. Bebidas, agora, só em casa, nada de álcool nos camarins. As novinhas estão ausentes de seu repertório, agora dedicado principalmente ao funk ostentação: “Eu cheguei de Megane/o pisante, um Adidas bolado/Uma blusa da Christian e uma calça da Armani.” Volta e meia retoma temas do passado. Numa composição fala de “Lili” – não, não se trata de apelido de nenhuma novinha, mas de uma abreviação da palavra liberdade. A canção fala de um preso que sonha em deixar a cadeia e que espera a chegada de seu alvará de soltura. A variação de temas – novinhas, crimes, presos, ostentação – é vista com naturalidade pelo cantor e compositor. Ressalta que essa diversidade está relacionada ao gosto do público, ao que faz sucesso em determinado período. “A vida – e aqui ele repete a imagem usada por Carlos, ex-MC Loscar – é uma roda-gigante.”

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