A peneira digital do Facebook

Publicado no G1

uso, sem autorização, dos dados de 50 milhões de eleitores americanos no Facebook se tornou um escândalo de proporções gigantescas dos dois lados do Atlântico.

A empresa Cambridge Analytica (CA), ativa nas campanhas do Brexit e de Donald Trump, coletou a massa de informações em 2014 com a ajuda de um acadêmico russo-britânico da Universidade de Cambridge, revelaram os jornais The Observer e The New York Times.

Elas serviram para destinar mensagens publicitárias específicas, correspondentes ao perfil psicológico de cada eleitor, deduzido a partir de sua atividade no Facebook, revelou o consultor canadense Christopher Wyllie, artífice do sistema da CA.

Uma pesquisa acadêmica desenvolvida desde 2013 (depois publicada na revista científica PNAS) demonstrava como deduzir, a partir das “curtidas” na rede social, as preferências pessoais, sexuais ou ideológicas dos internautas. Wyllie, hoje com 28 anos, adaptou os resultados para uso em campanhas eleitorais.

Seu trabalho recebeu dois impulsos. O primeiro foi o investimento de US$ 15 milhões do bilionário americano Robert Mercer, para criar a CA a partir da empresa britânica de análises de perfis psicológicos SCL. A nova empresa seria supervisionada pelo aliado de Mercer Stephen Bannon, depois estrategista-chefe de Trump.

O segundo impulso veio do professor de Cambidge Aleksandr Kogan, também vinculado à Universidade de São Petersburgo, na Rússia. Ele firmou um acordo com o Facebook, por meio do qual poderia usar perfis de usuários para uso acadêmico.

De acordo com as reportagens, esse acordo foi usado para aplicar um questionário a respeito das preferências psicológicas a 160 mil participantes do Facebook e, subrepticiamente, capturar as informações de todos os seus “amigos”. Vieram daí os 50 milhões de perfis.

Eles não foram usados apenas academicamente, mas também vendidos à CA, depois serviram de base para toda a campanha digital de Trump, sobretudo nos estados-pêndulo decisivos para a eleição.

O marqueteiro digital Brad Parscale produzia, a cada dia, mais de 150 anúncios sob medida, de acordo com o perfil de cada internauta, segundo reportagem publicada antes da eleição pela Bloomberg BusinessWeek. O objetivo não era apenas conquistar os prováveis eleitores de Trump, mas também convencer os adversários a não votar no dia da eleição.

No Reino Unido, a CA se viu obrigada a enfrentar duas investigações paralelas a respeito de seu papel no plebiscito do Brexit. Nos Estados Unidos, foi questionada no Congresso, uma vez que não é permitido a estrangeiros atuar em campanhas sem autorização.

Ela também é objeto das investigações do procurador-especial Robert Mueller sobre a intervenção russa na campanha. O presidente da empresa, Alexander Nix, manteve contato com o Wikileaks na esperança de obter os e-mails furtados por russos da campanha de Hillary Clinton.

A CA prestou serviços durante a campanha, segundo o próprio Nix, à petrolífera russa Luksoil, comandada por um oligarca ligado a Vladimir Putin. “Por que uma empresa de petróleo russa desejaria dirigir informações a eleitores americanos?”, pergunta Wyllie.

Mais que a CA, as revelações atingem em cheio as pretensões do Facebook. Mesmo que a rede social não tenha sido a principal responsável pela violação dos dados, demorou dois anos até reconhecê-la. Apenas em 2016, enviou um e-mail solicitando que os representantes da CA que destruíssem os dados. Mas não verificou se isso foi feito, de acordo com o relato de Wyllie.

Só na semana passada, quatro anos depois da violação, o Facebook suspendeu Kogan, a CA e até mesmo Wyllie, enquanto diz promover uma investigação interna. O primeiro suspeito é o pesquisador do Facebook Joseph Chancellor, ex-colega de Kogan em Cambridge e ex-diretor na empresa que fez a coleta dos dados e os revendeu à CA.

Independentemente do resultado da investigação, o episódio é mais uma demonstração da inépcia do Facebook para lidar com as consequências de suas atividades.

A rede social de Mark Zuckerberg não se tornou apenas a principal plataforma para a veiculação de notícias falsas (126 milhões de americanos tiveram acesso a conteúdo produzido por agentes russos na campanha) e uma incentivadora das bolhas ideológicas, cujas práticas comerciais monopolistas são objeto de a cada dia mais indignação nos mercados de publicidade e de produção de conteúdo digital – em especial, no jornalístico.

Ficou evidente agora que o desleixo com os dados dos usuários pode dar origem a abusos graves de ordem política. Quem tem perfil no Facebook não é cliente da empresa, mas o produto que ela vende aos anunciantes – entre eles, partidos e consultores políticos.

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