Eleitorado evangélico ganha força nas urnas da América Latina

O pastor evangélico Javier Bertucci, um dos candidatos presidenciais na Venezuela, faz comício em Valência – Luis Robayo/AFP

Publicado na Folha de S. Paulo

Às vésperas de três das principais eleições latino-americanas deste ano, na Venezuela, na Colômbia (27) e no México (1 de julho), candidatos e partidos evangélicos vêm ocupando importante espaço.

Até a semana passada na Venezuela, que vai às urnas em 20 de maio, o candidato líder nas pesquisas, Henri Falcón, vinha tentando atrair para sua aliança um outro rival, com valiosos 15% das intenções de voto: o pastor evangélico Javier Bertucci.

A coalizão não foi possível, e Bertucci seguiu com sua propaganda, que não se difere muito das tradicionais do chavismo, uma vez que se fez conhecido por meio de obras de assistência social que promove por meio de sua Igreja e de associações beneficentes pelo país.

Bertucci, porém, carrega uma imagem de dupla leitura. Se é conhecido e querido por seus fiéis por ser carismático e por mostrar-se dedicado a obras de caridade, também é questionado por ter uma fortuna misteriosa, por ser um empresário do ramo petrolífero com negócios no exterior e por uma ação na Justiça em que é acusado de contrabando de toneladas de diesel.

Bertucci dirige há mais de vinte anos a Igreja Maranatha no país, uma congregação evangélica que existe em vários países da América Latina, a partir da qual se organizam também programas de ajuda social e de formação religiosa em comunidades humildes.

Crítico à ditadura de Nicolás Maduro, a quem acusa de deixar o povo com fome e sem remédios —que ele pessoalmente distribui— poderia somar à campanha de Falcón, ainda que sua ideologia conservadora entrasse demais em contradição com as ideias liberais do principal rival de Maduro nesta eleição. O certo é que vem causando ainda mais divisão numa oposição já bastante atomizada e que enfrentará um pleito com sérias possibilidades de fraude.

COLÔMBIA
Na Colômbia, onde o voto evangélico foi considerado decisivo pelo próprio presidente Juan Manuel Santos para vitória do “não” no plebiscito da paz, há dois anos, a corrida dos candidatos por esse setor do eleitorado tem sido feroz.

Quem chegou na frente, desde 2016, foi o próprio líder do Centro Democrático e uma das forças políticas mais importantes do país, Álvaro Uribe. O ex-presidente peregrinou por igrejas evangélicas à época, insistindo que o acordo de paz com a então guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) continha artigos que tratavam de diversidade sexual que ameaçavam a “família colombiana”.

De fato, estes mesmos artigos tiveram de ser reescritos para que o acordo fosse aprovado no Congresso. O tratado, é preciso lembrar, tratava não só do fim da guerra, mas também de como seria a inserção de ex-combatentes na sociedade, e as Farc pediam mais tolerância racial, sexual e políticas para a defesa das mulheres. Algo que incomodou muito os evangélicos, levando-os a votar pelo “não”.

Esse capital político dos uribistas junto aos evangélicos, principalmente na costa colombiana, região mais habitada do país, está sendo transferido de Uribe para seu candidato presidencial nesta eleição, o direitista Iván Duque, que lidera neste momento as pesquisas.

Existem mais de 6.000 igrejas evangélicas na Colômbia, que reúnem mais de 10 milhões de fiéis, principalmente na região costeira, cujo voto tradicionalmente pendia para o lado dos liberais, e agora favorece os conservadores. Nas pesquisas, Duque lidera aí também.

Pastores como Miguel Arrázola, que desde sua Igreja Ríos da Vida, em Cartagena, pregam que a esquerda, com quem identificam o atual presidente, Juan Manuel Santos, é uma inimiga da “família colombiana”.
Isso porque Santos, mesmo estando longe de ser um esquerdista, promoveu em seu governo a paridade de gênero, escolheu duas ministras homossexuais, deu direitos de adoção a casais do mesmo sexo e vem pregando uma discussão sobre a legalização das drogas.

Isso já foi o suficiente para perder o apoio dos evangélicos, que, assim como Uribe, rotulam Santos de “um representante do castro-chavismo” na Colômbia.

Duque também recebeu o apoio de um grupo de pastores ultraconservadores, o Justa Libres, que reúne mais de 60% das igrejas evangélicas do país e que tem uma bancada importante no Congresso. Entre outras coisas, querem derrubar a lei do aborto (que na Colômbia é permitido em caso de risco de vida da mãe, estupro e má formação do feto) e defendem que a família deve ser reconhecida apenas quando formada a partir do matrimônio entre homem e mulher.

MÉXICO
Já no México, também com uma população evangélica grande, de cerca de 10 milhões de pessoas, ocorre algo mais insólito. O apoio evangélico, por meio do partido Encuentro Social (PES), liderado por Hugo Érico Flores, está ao lado do esquerdista Andrés Manuel López Obrador.

Talvez por interesse de ambos os lados —López Obrador tenta pela terceira vez ser presidente e precisa de apoios e o PES deseja aumentar sua bancada no Congresso— o fato é que o partido evangélico é hoje um importante aliado do Morena, partido do candidato.

Os eleitores tradicionais de AMLO, como é conhecido, se incomodam com as bandeiras que trazem os evangélicos (anti-aborto, anti-matrimônio gay), mas por ora não expressaram de forma contundente sua rejeição, até porque AMLO não sinalizou com concessões em seu programa —que é hoje ainda mais à esquerda do que em eleições passadas, em que quis aparecer com uma versão “paz e amor” e foi derrotado.

Agora, AMLO está encarnando o voto dos descontentes do suposto servilismo de Enrique Peña Nieto (PRI) com o presidente norte-americano Donald Trump, o sentimento anti-imperialista e um rompimento com os modelos que vieram revezando-se nos últimos tempos, do PRI (Partido Revolucionário Institucional) e do PAN (Partido da Ação Nacional), que só fizeram aumentar a corrupção e a taxa de homicídios relacionadas ao narcotráfico —as principais preocupações dos mexicanos segundo as pesquisas.

Como essas duas bandeiras —paz e combate à corrupção—​ também são apoiadas pelos evangélicos, a união vem dando certo.

AMLO lidera isoladamente as pesquisas, com mais de 18 pontos percentuais de diferença com relação ao segundo colocado, Ricardo Anaya, da coligação de centro-direita México À Frente.

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