“Sr. Miyagi” não sabia caratê e ficou confinado a uma cama por nove anos

Publicado no UOL

Quando Daniel Larusso (Ralph Macchio) reencontra o grande inimigo Johnny Lawrence (William Zabka) no primeiro episódio de “Cobra Kai”, a sequência de “Karatê Kid: A Hora da Verdade” lançada no começo do mês pelo Youtube, ele vai visitar o túmulo do seu antigo mestre em busca de paz. Eternizada no imaginário popular, a figura zen do Senhor Miyagi em nada lembra a vida atribulada de Pat Morita, o ator que o interpretou.

Nas telas, Pat Morita foi um mestre de caratê. Na vida real, ele sabia só o necessário para fazer suas cenas e, mais surpreendente, teve de reaprender a andar: só aos 11 anos começou a caminhar normalmente. Além da doença, o descendente de japoneses sofreu perseguição por causa da Segunda Guerra e amargou papéis pequenos em Hollywood mesmo após o sucesso de “Karatê Kida: A Hora da Verdade”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

Talvez as dificuldades do início de sua jornada tenham dado a Morita de um lado o humor para aproveitar a vida, que marcou o início de sua carreira na TV, e, de outro, o vigor de um mestre, necessário para encarnar Miyagi.

Os pais de Morita eram catadores de frutas nos campos da Califórnia, e a vida complicou logo cedo para o bebê Noriyuki, nascido em 28 de junho de 1932, em Isleton, no mesmo estado. Aos 2 anos ele contraiu tuberculose vertebral (ou mal de Pott), uma doença que muitas vezes é fatal. Ela afeta a coluna, estreitando espaços entre os discos e causando hérnias e fraqueza nos membros inferiores, entre outros sintomas.

Enviado a um sanatório, o pequeno Noriyuki acabou confinado a uma cama por nove anos. ”Eu fiquei imobilizado dos ombros aos joelhos”, contou o ator, à agência “AP”. Em 1941, uma cirurgia experimental o salvou e permitiu que reaprendesse a andar sem a ajuda de muletas. Foi lá que ele um padre o apelidou de Pat.

Inimigo público número 1
A liberação do sanatório não foi tranquila. Ele saiu de lá para um cenário de 2ª Guerra Mundial e de perseguição aos japoneses. Teve de ir para um campo no deserto do Arizona com os pais e o irmão mais velho. “Fui de uma criança alienada a inimigo público. Virei um ‘japa’ da noite para o dia, sendo escoltado pelo FBI para um campo de internato. Foram anos enormemente difíceis para o nosso povo. Pessoas andando pelo deserto que nunca mais seriam vistas. Pessoas se enforcando… Foi horrível. Horrível.”

Passada a guerra, a família foi liberada, passou a morar em Sacramento, e viveu numa mistura de etnias ao abrir um restaurante. “Uma família japonesa, administrando um restaurante chinês em uma vizinhança com clientela de negros, filipinos e quaisquer outros tipos que não se encaixaram nos outros bairros. Consegue imaginar?”, questionou ele, ao Los Angeles Times.

Suas próximas experiências profissionais em nada ajudaram o ator a se aproximar do que o faria famoso. Trabalhou com análise de dados no “Detran” local e trabalhou no turno da madrugada da Aerojet-General Corp uma empresa de manufatura.

Comediante em saia-justa
Foi só aos 30 anos que foi para o tudo ou nada e decidiu se lançar comediante, aparecendo em pequenos clubes, até ser convidado para substituir um nome mais famoso em uma casa no Havaí. Diante de uma plateia de veteranos da Segunda Guerra Mundial – muitos com sequelas da batalha. “Se você é um comediante, é nesses momentos que você tem de provar a que veio. Então, comecei a me desculpar, em nome do meu povo, brincando por ter estragado o porto deles”, disse ele, ao “San Jose Mercury News”, referindo-se ao Pearl Harbor.

Pat manteve uma carreira de duas décadas fazendo comédia stand-up em clubes noturnos. Mas quase desistiu. Quando foi morar no Havaí, foi convidado para entrar para a televisão. Virou o dono de um restaurante na série “Happy Days” e trabalhou em “Sanford and Son”. Depois, virou o primeiro descendente de japoneses a ter um papel de protagonista na série “Mr. T and Tina”, em 1976.

Mas, se você acha que a escolha do ator para ser o Sr. Miyagi foi fácil, não se engane. Havia dois problemas: o passado como comediante e o medo de que ele não fosse levado a sério no papel do mestre de caratê e o fato de ser “pouco japonês”. Pat não sabia imitar bem o sotaque japonês e seu nome não lhe dava nenhum ar nipônico.

Assim, precisou aprender caratê do zero – não virou um praticante, mas aprendeu direitinho o que precisava para o papel –, teve de aperfeiçoar seu sotaque e obedeceu a uma ordem da chefia: o seu nome nos créditos precisava ter o nome original, então, apareceu como Noriyuki “Pat” Morita.

O sucesso do seu papel no filme fala por si só. Seu colega de cena, Ralph Macchio costuma dizer que a química entre eles nasceu automaticamente, desde as cenas de teste para o primeiro filme. O resultado foram os chamados para estar em mais três filmes da série.

Em tempos de menos minorias representadas nas telas, o fato de se tornar o maior asiático em papéis de coadjuvante é uma amostra de sua importância no cinema. E ele foi usado à exaustão em outros filmes, tendo até emprestado a voz à animação “Mulan”.

Já estabelecido, Morita sempre teve status de respeito e ficou conhecido pelo bom humor e o profissionalismo para lidar com seus pais – qualquer nacionalidade oriental em que o chamassem.

O ator morreu 24 de novembro de 2005, aos 73 anos, por insuficiência renal.

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