Por que cientistas acreditam que você pode estar fazendo suas refeições nas horas erradas?

Publicado na BBC

A ciência alerta frequentemente para os riscos de saúde presentes em ignorar o ritmo natural do corpo. Mas será que os horários das nossas refeições estão de acordo com o nosso “relógio” natural? Uma mudança nos horários das refeições pode melhorar a nossa saúde e ajudar a perder peso?

O que você comeu hoje cedo, no café da manhã?

Provavelmente não foi um bife acebolado com batata frita, um frango assado ou qualquer outra coisa que você consumiria no almoço ou no jantar.

Mesmo assim, alguns cientistas acreditam que quanto mais concentramos nossas calorias diárias na parte da manhã, ou antecipamos nossas refeições, tanto melhor para a nossa saúde.

Um estudo recente descobriu que mulheres que estavam tentando perder peso tinham mais sucesso quanto mais cedo almoçavam. Outra investigação científica descobriu uma correlação entre tomar café da manhã mais tarde e ter massa corporal maior.

“Há aquele ditado muito antigo: ‘tome café da manhã como um rei, almoce como um nobre e jante como um pobre’. E há alguma verdade nisso”, diz a Dra. Gerda Pot, professora visitante de ciências nutricionais do King’s College de Londres.

Agora, cientistas estão tentando entender melhor os resultados desses estudos e explicar a relação entre a alimentação e o nosso “relógio” interno, conhecido como “ciclos circadianos”. Este tipo de pesquisa está sendo chamada de “crono-nutrição” por alguns acadêmicos.

Não é ‘o quê’, é ‘quando’
Os ciclos circadianos não influenciam apenas seu período de sono. Na verdade, esse “relógio” está presente em cada célula dos nossos corpos.

Ele nos ajuda a cumprir tarefas diárias, como acordar de manhã; regula a nossa pressão sanguínea, temperatura corporal e níveis de hormônios, entre outras coisas.

Especialistas estudam como os alguns maus hábitos – inclusive o de comer em horários irregulares ou tarde demais – são prejudiciais para o nosso ritmo interno.

“Nosso relógio interno estabelece que a cada período de 24 horas há um momento para cada processo metabólico funcionar de forma ótima”, diz Gerda Pot, que é estudiosa da crono-nutrição.

“Isso indica que fazer uma grande refeição à noite não é realmente a melhor coisa, do ponto de vista do metabolismo, pois neste momento o seu corpo está se acalmando para ir dormir”, diz ela.

Jonathan Johnston é especialista em cronobiologia e fisiologia da Universidade de Surrey, no Reino Unido. Segundo ele, os estudos disponíveis apontam que o nosso corpo é menos hábil para processar a comida à noite, mas a razão disso ainda não é totalmente conhecida.

Uma teoria indica que isso estaria ligado à capacidade do corpo de controlar o gasto de energia.

“A informação preliminar existente hoje mostra que há uma certa energia gasta para processar uma refeição – e gasta-se mais energia para isto de manhã do que à noite”, diz ele.

Compreender a ligação entre a alimentação e a saúde é importante, diz Johnston, porque esse tipo de estudo pode ter grande repercussão na epidemia de obesidade enfrentada hoje.

“O ideal seria que pudéssemos chegar para um paciente e dizer: ‘Bom, você não precisa mudar ‘o quê’ você come, só precisa mudar ‘quando’ você come”. Esta pequena mudança poderia ter um impacto muito grande na saúde das pessoas em toda a sociedade”, diz Johnston.

Além disso, o horário das refeições também pode ter implicações para pessoas que têm seus “relógios” internos alterados. É o caso de quem trabalha em turnos com horários alternativos – no Reino Unido, estima-se que até 20% das pessoas estejam neste grupo, diz Johnston.

Estudos com animais indicam que comer em certos momentos do dia pode ajudar a “redefinir” os ciclos circadianos. Pesquisadores investigam, agora, se esse tipo de mecanismo funciona com humanos também.

Em um estudo piloto com dez homens, Johnston descobriu que, ao atrasar os horários das refeições em cinco horas, houve uma alterações claras dos ciclos circadianos.

Outras questões
Então, todos devemos começar a comer mais cedo?

Especialistas dizem que há ainda muitas questões que precisam ser respondidas antes que uma recomendação geral possa ser feita.

Por exemplo, há períodos ótimos no dia em que devemos comer e outros nos quais o melhor é esperar?

Como isto afeta os nossos ciclos individuais? Os efeitos são os mesmos para quem é mais “noturno” ou mais “diurno”?

Existem comidas piores ou melhores para serem ingeridas em certos horários do dia?

Tanto Johnston quanto Gerda Pot dizem que a evidência existente hoje mostra que sim, é melhor consumir uma parte maior das nossas calorias mais cedo – por exemplo, tornando o almoço uma refeição maior que a janta.

A nutricionista Alexandra Johnstone, porém prefere ser cautelosa. Ela diz que, embora existam estudos ligando a ingestão de alimentos mais cedo a benefícios para a saúde, seria melhor esperar até termos certeza sobre as causas disto.

Johnstone espera que a pesquisa a ser desenvolvida no futuro mostre as razões deste fenômeno – e forneça indicações melhores sobre quando comer.

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