Mortes de Anthony Bourdain e Kate Spade alertam para crescimento dos casos de suicídio

Anthony Bourdain morreu aos 61 anos – ALEX WELSH / Agência O Globo

Nos EUA, houve aumento de 25% no número de mortes de 1999 a 2016

Paula Ferreira, em O Globo

RIO- A morte do chef e apresentador americano Anthony Bourdain, encontrado com sinais de suicídio aos 61 anos, no interior da França, causou forte comoção no mundo poucos dias depois de outra personalidade dos EUA, a estilista Kate Spade, ter morrido em circunstâncias similares — tendo deixado um bilhete para a filha — em Nova York, aos 55. Admirado na área da gastronomia, o carismático apresentador foi encontrado morto em um hotel de Estrasburgo, na França, onde gravava um episódio de seu programa de TV. Os dois casos seguidos envolvendo celebridades admiradas jogaram luz sobre o crescimento dos suicídios nos EUA e no mundo.

Um levantamento do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano, publicado anteontem, revelou que, entre 1999 e 2016, o número de suicídios aumentou 25% no país. Houve alta em todos os estados americanos, exceto o de Nevada. Só em 2016, dado mais recente disponível, quase 45 mil pessoas se mataram nos EUA, o dobro do número de vítimas de homicídio. No mesmo ano, o Brasil registrou 10.5 mil suicídios.

Anthony Bourdain movimentou a gastronomia mundial em 2001, quando lançou o polêmico livro “Cozinha confidencial — Uma aventura nas entranhas da culinária”, onde contava os bastidores das cozinhas de restaurantes de Nova York, incluindo uso de drogas e até relações sexuais. Mas foi em 2013 que, definitivamente, caiu nas graças do público com o programa de TV exibido na rede CNN “Parts unknown”, no qual visitava diversos países do mundo em busca de novos sabores. A vida cercada de sucesso, holofotes e privilégios, no entanto, não impediu que ele chegasse a um ato extremo que vitima uma pessoa a cada 40 segundos em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). As estatísticas dão a dimensão de um tema complexo, ainda pouco discutida na sociedade.

Kate Spade morreu aos 55 anos – Chip East / REUTERS

— O suicídio acontece e com pessoas que sequer imaginávamos. Uma pessoa contente não necessariamente é uma pessoa feliz — afirma a psiquiatra Analice Gigliotti, diretora médica do Espaço Clif. — Tenho pacientes, aparentemente felicíssimos, que me dizem que estão com vontade de se matar. Ser sorridente não é ser feliz, ser sociável também não. Como a pessoa se sente por dentro é totalmente diferente. O mundo interno de uma pessoa é um mundo a ser explorado.

MAIOR INCIDÊNCIA NA MEIA-IDADE

Os dados estatísticos do CDC sobre suicídio mostram que mais americanos, de todas as faixas etárias, entre 10 e 75 anos, cometem suicídio. No entanto, a maior incidência é entre adultos de meia-idade, como Bourdain e Kate Spade.

— São dados alarmantes. O suicídio é uma das dez causas principais de morte nos EUA, e uma das três causas que, de fato, estão aumentando recentemente, além de Alzheimer e overdose de drogas. Por isso consideramos um problema de saúde pública, que está ao nosso redor — afirmou Anne Schuchat, vice-diretora do CDC.

De acordo com Schuchat, muitos fatores podem aumentar os riscos de alguém cometer suicídio, como problemas de relacionamento, financeiros ou profissionais. O abuso de drogas e transtornos mentais, como a depressão, também podem estar associados. Passar pelo fim de um relacionamento ou perder um emprego podem se tornar um gatilho para o suicídio em casos extremos.

A psiquiatra Analice Gigliotti observa que, em uma equação que resulta em um suicídio, há muitas variáveis que se fortalecem em um contexto de fragilidade, nem sempre percebido pelos outros:

— Em geral, pessoas que tentam suicídio apresentam uma vulnerabilidade individual, seja porque vivenciam um transtorno psiquiátrico, por terem uma personalidade mais impulsiva, ou por estarem usando alguma substância que faz com que estejam mais impulsivas naquele momento. Nos casos em que não há nenhum desses fatores e ainda assim o suicídio acontece, pode estar relacionado a alguma situação extremamente dramática. Há pessoas mais resilientes a essas situações e outras menos, a depender da rede de apoio que têm.

NO BRASIL, MÉDIA DE 11 MIL CASOS POR ANO

Dados da OMS mostram que, no mundo, cerca de 800 mil pessoas se matam anualmente. Estatísticas de 2015 mostram que cerca de 78% dessas mortes aconteceram em países de baixa e média renda. No Brasil, o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde registrou em 2016, mesmo ano considerado na pesquisa do CDC americano, 10.575 suicídios, um pouco menos que no ano anterior, quando houve 11.178 mortes do tipo.

A primeira edição do Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, divulgado no ano passado, mostrou que a média de casos no país é de 5,5 mortes por 100 mil habitantes, o que representa cerca de 11 mil mortes a cada ano. Os idosos são o público com maior ocorrência, com uma média de 8,9 a cada 100 mil pessoas.

Para ajudar a combater esse quadro, o Ministério da Saúde celebrou uma parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV), uma organização que oferece apoio emocional. A partir daí, as ligações para o telefone 188, que oferece atendimento a pessoas com pensamentos suicidas, passaram a ser totalmente gratuitas. Hoje, o 188 está disponível em 23 estados e, até o fim do ano, a expectativa é que o serviço chegue a todo o país. Segundo Patrícia Fanteza, porta-voz e voluntária do CVV, a procura por ajuda tem aumentado:

— É importante trabalhar a prevenção. Temos percebido o quanto falar mais a respeito do tema ajuda nesse sentido. Hoje são cerca de 32 suicídios por dia no Brasil. É preciso fazer com que as pessoas percebam que devem buscar ajudar, romper com o estigma com da saúde mental. Antes, o CVV tinha cerca de 1,3 milhão de contatos por ano. Em 2017, tivemos 2 milhões, e, em 2018, a expectativa é que cheguemos a 3 milhões. Os tabus estão caindo e isso é muito importante.

Apesar da rede de apoio disponível, não são todas as pessoas que conseguem buscar ajuda. Alguns comportamentos podem dar pistas de que o estado emocional de uma pessoa pode levar a pensamentos suicidas. Os especialistas apontam que, em alguns casos, essas pessoas demonstram retraimento, podem se isolar dos amigos. Falar sobre morte pode se tornar um hábito mais frequente, assim como afirmações de que não veem mais sentido na vida. Deixar de ter prazer em atividades que antes a pessoa amava também pode acender um alerta.

— É importante que as pessoas ao redor se coloquem à disposição para ouvir sem julgamentos, deixando a pessoa à vontade para falar o que sente. Percebemos que quando a pessoa tem a possibilidade de falar sem medo do que vão pensar, causa um alívio, e ela se sente acolhida — diz Patrícia.

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