Escutar música clássica tem algum benefício real?

Publicado na BBC

Será que doses diárias de música clássica podem mudar sua vida? Soa como uma afirmação exagerada, mas a resposta é um sonoro “sim”.

Somos uma espécie que produz música – sempre fomos, sempre seremos. Também somos uma espécie de intercâmbio musical: muito antes de adolescentes apaixonados trocarem suas playlists, ou o serviço de streaming nos permitir compartilhar nossas faixas favoritas, já nos comunicávamos e nos conectávamos através da música.

Evoluímos como humanos ao nos reunir ao redor da fogueira depois de um longo dia de caça e coleta para cantar canções e contar histórias com músicas. Era isso que nossos ancestrais faziam; é assim que eles davam sentido ao mundo; foi assim que eles aprenderam a ser.

Esse é um impulso ainda fundamental sobre quem somos. Hoje, no entanto, nossas vidas modernas estão desintegradas e exauridas em um grau sem precedentes. Quem tem o luxo de encontrar tempo todo dia para prestar total atenção a uma determinada música? E, por outro lado, talvez nunca tenhamos precisado tanto do espaço emocional que a música – especialmente a clássica – nos oferece.

Pesquisas científicas vêm mostrando que atos de autocuidado trazem benefícios indescritíveis à nossa saúde mental e nosso bem-estar, mas pessoalmente nunca consegui manter, por exemplo, uma meditação ou ioga regularmente.

Nunca vou à academia, não importa o quão nobres sejam minhas intenções. Eu funciono essencialmente à base de café e açúcar. Sempre deixo a declaração do meu imposto de renda para o final do prazo. Todo ano defino metas que não consigo cumprir – e com isso fico ainda mais estressada. Tenho certeza de que não estou sozinha (pelo menos é o que espero).

Mas na realidade até eu tenho a disciplina para, em alguns minutos por dia, pôr meus fones de ouvido, escutar uma única peça musical e me transformar. Embora tenha tocado o violino desde a infância e trabalhado escrevendo e apresentando programas de música clássica, só entendi o efeito milagroso do contato diário com essa música depois de dois anos particularmente difíceis.

Dores pessoais, malabarismos entre as incompatíveis demandas de uma carreira freelancer implacável e uma criança enérgica; um permanente sentimento de estar à beira do esgotamento enquanto dizia ao mundo “está tudo bem!” – nem é preciso dizer que estava num estado pouco saudável. No entanto, nenhuma das soluções que experimentei teve efeito. Exceto a música.

Quando tornei meu hábito musical um ritual diário, comecei a me sentir menos ansiosa quase que imediatamente. Fiz uma curadoria mensal com uma peça clássica por dia. Entrar no metrô e apertar o play em vez de automaticamente ser sugada pelas redes sociais parecia me estabilizar espiritualmente. Eu comecei a esperar ansiosamente por isso. E me ocorreu que, se eu posso me beneficiar de uma forma tão significativa com esse pequeno mas poderoso hábito de “manutenção da alma”, então outros também poderiam.

E se eu pudesse me aprofundar no meu grande amor pela música clássica? E se eu conseguisse desvelar o vasto tesouro de riquezas musicais ao desmistificar a música e humanizar aqueles que a criaram, dando algum contexto à peça, contando algumas histórias e lembrando aos leitores/ouvintes que essa música foi criada por uma pessoa real, provavelmente alguém que compartilhou muitas das mesmas preocupações que eles, que pode ser como eles de muitas maneiras?

Por onde começar?

A música clássica é uma arte que, por complexas razões, é geralmente percebida como exclusiva a uma pequena elite; como uma festa particular para poucos convidados. Isso é dolorosamente irônico, porque essa música é uma das mais emocionalmente diretas que temos. Há uma razão pela qual todos, de cineastas a diretores de funerárias, invariavelmente se debruçam sobre a música clássica quando querem provocar emoção. Eu mesma já perdi a conta de amigos, familiares e estranhos que perguntaram, muitas vezes timidamente, se eu poderia fazer uma playlist clássica para eles.

Em alguns casos tratava-se de um pedido bem específico: música para estudar ou trabalhar; música para ninar o recém-nascido ou dormir; ou até para impressionar os pais de seu novo parceiro; música para se exercitar, desacelerar, cuidar do jardim, deslocar-se ou oferecer um jantar.

O homem que cuida da cafeteria que frequento me pediu que eu selecionasse uma trilha sonora clássica para seu turno entre o fim da tarde e início da noite. Minha sobrinha adolescente queria algo para ajudá-la na revisão das provas. E assim por diante. Comumente, o que ouvia dessas pessoas em busca de uma playlist era algo como “Eu escutei uma peça na TV/show/filme/anúncio e adorei. Eu não sei nada de música clássica, mas gostaria de ouvir mais e não tenho ideia de por onde começar…”

A pergunta “por onde começar” é crítica. Como acontece com outros segmentos, a tecnologia afetou profundamente a indústria musical de forma tanto positiva quanto negativa.

É verdade que a dizimação dos modelos financeiros tradicionais prejudica artistas e selos musicais. Mas o surgimento de plataformas de streaming, como Spotify e Apple Music, escancarou a porta da festa de uma forma empolgante e democratizante. Temos acesso a uma quantidade de conteúdo que há dez anos seria inimaginável. Agora qualquer um com internet minimamente decente pode explorar o universo musical antes limitado àqueles com mais recursos.

Um guia prático
Mas, ainda assim, o incrível volume do que está disponível de graça ao clique do botão pode ser assustador, se não paralisante.

Por isso decidi escrever uma espécie de guia prático, não tanto sobre a história da música clássica, e sim um tesouro curado à mão das músicas que tanto amo. Ele inclui várias mulheres – que por séculos foram excluídas dos cânones – além de compositores negros, gays, transgêneros; compositores com capacidades diferentes (afinal, Beethoven compôs algumas de suas obras mais magníficas totalmente surdo); compositores que lutaram – ou lutam – contra transtornos mentais, vícios, baixa autoestima; compositores que sobreviveram trabalhando de várias formas (como motorista de táxi, bombeiro, químico, catador de laranja, funcionário dos correios), mas que continuaram na função, apesar das dificuldades, e criaram gloriosas peças para nosso prazer de escutá-las. E talvez nossa salvação.

Acredito que os maiores trabalhos musicais são motores de empatia; eles nos permitem viajar sem nos deslocar: para outras vidas, idades, almas. Eles também são robustos: encaixam-se na nossa vida multitarefa, nossa vida real. Então não questione se você tem as “credenciais” certas para se tornar um aficionado por música clássica ou se está ouvido “de forma correta”. Confie em mim, o único critério é ter orelhas.

Você pode ouvir a playlist enquanto se desloca; levá-la para uma caminhada; colocá-la ao fundo quando prepara o café da manhã de seus filhos ou os leva à escola; faça dela sua trilha sonora para preparar o jantar, beber ou relaxar, para quando lavar ou passar a roupa, quando ler seus emails; tudo o que você precisa fazer é apertar o play. Acredito que há poucos momentos da vida que a música não consiga complementar. Isso é música para se viver – para viver sua melhor vida.

*Clemency Burton-Hill, apresentadora da BBC Radio 3, é autora do livro ‘Year of Wonder – Classical Music for Everyday’ (Ano de Fascinação – Música Clássica para Todos os Dias, em tradução livre), em que apresenta compositores e suas obras, desde a era medieval até os dias atuais, com sugestões de músicas a serem escutadas a cada dia do ano.

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