Pets também podem sentir luto. Entenda como isso acontece

Publicado no Huffpost

Animais de estimação constroem laços especiais com seus companheiros humanos e com outros bichos.

Um dos exemplos comoventes dessa amizade é a história de Hachikō, um cachorro da raça akita que viveu no Japão na década de 1920. Ele ia esperar o dono todos os dias na saída de uma estação de metrô de Tóquio e continuou fazendo o mesmo durante quase uma década depois da morte do dono.

Ao longo dos anos, histórias parecidas ganharam as manchetes ao redor do mundo – do Equador à Rússia e à China –, e as pessoas sempre ficam comovidas com esses relatos de lealdade, devoção e luto.

Apesar de algumas pessoas duvidarem da capacidade de os bichos sentirem luto, muitos especialistas afirmam que ele é real.

“Os animais de estimação podem sentir luto quando morre um humano ou um animal companheiro”, diz a australiana Kate Mornement, consultora especialista em comportamento animal. “Nossa compreensão desse fenômeno era baseada em histórias, mas agora temos evidências científicas do luto em cães e gatos.”

Além de cachorros e gatos, donos de coelhos, cavalos e passarinhos também já observaram sinais de luto nesses animais.

É claro que nem todos os bichos de estimação ficam de luto, e a maneira como ele se expressa varia, dependendo do animal. Mas existem alguns sinais comuns do luto. Em muitos casos, os bichos se comportam como os humanos, segundo Mark Benoff, professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade do Colorado, em Boulder, e autor de Canine Confidential: Why Dogs Do What They Do (segredos caninos: por que os cachorros se comportam assim, em tradução livre).

“Em geral, um indivíduo pode parar de comer ou passar a comer menos, parar de brincar, chorar e ficar procurando o amigo – andando devagar, com a cabeça e o rabo baixos, por exemplo. Eles simplesmente parecem ausentes e pouco interessados em atividades”, diz Benoff. “Um dos cachorros que tive era hiperativo, muito social e não parava de comer. Quando seu amigo morreu, ele ficou dois dias sem se alimentar.”

Mornement concorda com Benoff. A especialista diz que mudanças no comportamento são os sinais mais óbvios do luto entre os bichos de estimação.

“Bichos de luto podem perder o apetite, checar constantemente os lugares em que seus amigos costumavam dormir ou relaxar, pedir mais atenção e choramingar, miar ou dormir mais que o normal. Cães e gatos têm processos de luto muito parecidos”, afirma ela.

Ainda assim, não podemos equiparar o luto de animais de estimação e o dos humanos. Bekoff diz que seu cachorro voltou a se comportar normalmente depois de quatro dias, mais ou menos.

Kirstin McMillan, treinadora de animais baseada em Los Angeles, disse ao HuffPost que os bichos que mais sentem luto tendem a ser aqueles com estruturas sociais mais complexas, como primatas, elefantes e cachorros.

No caso dos cachorros, o nível do luto pode variar dependendo da proximidade do animal com a pessoa ou bicho que morreu. Irmãos ou cachorros que sempre viveram juntos tendem a sentir luto mais intenso.

“Os cachorros demonstram tristeza. Eles ficam choramingando pela casa com cara triste”, diz ela. “A energia é acinzentada, muito diferente da disposição que o cachorro mostra normalmente. Eles também não brincam muito.”

Muitos idosos aposentados ou viúvos tendem a passar muito tempo com seus cães, acrescenta McMillan. Por isso, seus cães podem sentir a morte dos donos de forma mais profunda. “É como se o mundo deles desaparecesse”, explica ela.

No caso dos gatos, o luto se manifesta de maneira parecida. “Ele ficam retraídos, podem querem descontar em outros gatos ou até mesmo ficar agressivos com humanos”, diz Carole Wilbourn, terapeuta de gatos de Nova York. Ela também afirma que alguns gatos param de comer e começam a arranhar móveis pela casa quando estão de luto.

“Eles também podem ficar doentes. Talvez toda a tensão se acumule na bexiga, e eles param de usar a caixinha de areia”, acrescenta ela. “A ansiedade de separação pode acumular e causar problemas de saúde.”

Existem algumas abordagens possíveis para quem busca ajuda para um bicho de estimação de luto.

Wilbourn recomenda que os donos de gatos devem tentar criar uma atmosfera alegre para os bichos.

“Muitos gatos costumam espelhar os sentimentos e ações dos donos. Você não precisa fingir que não está triste. Basta fazer coisas que melhoram seu ânimo, como ouvir música, praticar ioga ou meditar”, sugere ela.

Wilbourn também recomenda dizer ao gato que tudo vai ficar bem. “Não estou dizendo que ele vá entender, mas eles percebem a linguagem corporal e o tom de voz”, afirma ela.

McMillan diz que muito do luto sentido pelos bichos de estimação tem mais a ver com rotina do que com emoções.

“O que faço é virar a rotina do animal de ponta-cabeça”, diz ela. Se o cachorro comia de manhã antes de sair para passear, ela inverte essa ordem –escolhe um caminho completamente diferente para o passeio e dá comida para o cão em outro lugar da casa.

“O espaço que outros animais ou humanos ocupam no coração do cachorro está orientado em torno dessa rotina. Então, se você introduz mudanças, eles vão sentir menos a ausência. Não vai apagá-la, mas ela vai ser menos pronunciada.”

McMillan diz que a história de Hachikō é um exemplo da força da rotina. “É por isso que a mudança ajuda o bicho a ficar no agora”, diz ela. “A ideia é incentivá-lo a seguir adiante e criar uma nova vida. Os animais são resilientes por natureza.”

Se seu cachorro perdeu um companheiro, McMillan recomenda comprar uma nova caminha, por causa do cheiro do cão que se foi. Outra coisa importante é permitir que o cão possa ver o companheiro morto, se possível.

“Se você vai sacrificar um dos seus bichos, permita que o companheiro esteja presente, se for possível. Deixe ele cheirar o corpo do animal que morreu. Ele vai registrar a morte”, diz ela. “Recomendo o mesmo caso eles tenham perdido alguém. Assim, não vão pensar: ‘Onde é que eles foram parar?'”

No fim das contas, a coisa mais importante é estar presente.

“As pessoas podem ajudar no processo de luto simplesmente estando por perto”, diz Mornement. “O tempo vai aliviar o luto. Fazer atividades que seu bicho curte, como passear e brincar, também ajuda. Demonstrar um pouco mais de cuidado e compaixão ajuda na transição para a vida sem um companheiro.”

“Conforte-os, acalme-os, faça-os se sentir seguros e deixe claro que você está lá para cuidar deles e oferecer amor”, diz Bekoff.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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