A curiosa trajetória da cor rosa ao longo da História

George Romney produziu várias telas de sua musa, Lady Hamilton: nesse, de 1785, ela é mostrada como uma seguidora de Baco, o deu do vinho e da intoxicação (Foto: Wikimedia)

Publicado na BBC

O rosa é uma faca de dois gumes. Enquanto o vermelho é estridente e picante e o branco é afetado e puro, o rosa corta para ambos os lados. Muito antes da palavra “rosa” ser ligada à matiz pastel bonita e delicada como a definimos hoje, o submundo londrino usava a palavra “pink’d” como algo bem menos perfumado e afetado no século 17: para denotar que alguém foi esfaquedo com uma lâmina afiada.

Não se sabe com certeza em que ponto a palavra “rosa” (pink em inglês) passou a designar o suave pigmento em vez da facada fatal. Mas a matiz em si, seja qual for o nome por qual era conhecida antes de entrar como ‘rosa’ na escala de cores no século 18, provocava rubor desde a antiguidade. Ela pode ser sedutora, pode ser inocente, mas também feliz, tímida, pudica e dengosa.

‘Bailarinas em Rosa’ (1880-1885) de Edgar Degas tem um rosa forte e um estilo que o artista chamou de ‘instantaneidade premeditada’ (Crédito: Alamy)

Se você retirar o rosa da paleta da história da arte, uma considerável naco será perdido. As Bailarinas em Rosa de Edgar Degas perderiam a graça e o período rosa de Pablo Picasso não existiria.

A cor da carne
Um momento-chave na emergência do rosa como elemento essencial no desenvolvimento da pintura é A Anunciação – feita pelo pintor da Renascença Fra Angelico em meados do século 15 em seu famoso afresco no convento de San Marco em Florença, na Itália – que mostra o momento no Novo Testamento em que a Virgem Maria é informada pelo Arcanjo Gabriel que se tornará mãe de Cristo. Colocada no topo de uma escada que é iluminada diariamente por monges devotos, a pintura de Fra Angelico convida o observador a levitar.

O afresco de Fra Angelico em Florença (1439-1444) mostra o arcanjo Gabriel vestido de rosa

Crucial para levantar essa decolagem mística do afresco é o retrato do etéreo arcanjo – ele mesmo cruzou planos ao pular para o campo material em que Maria estava. Sem contar as asas policromáticas, o que é mais surpreendente sobre a representação de Gabriel é a decisão de Fra Angelico de cobri-lo com pregas fofas de um rosa suntuoso.

Nós sabemos, a partir do manual de um artista contemporâneo que ensina como misturar pigmentos (Il libro dell’arte, de Cennino Ceninni, publicado em italiano algumas décadas antes de Fra Angelico pintar seu afresco), que o rosa era tradicionalmente reservado para a representação de carne. “Feito a partir da mais bela e leva sinopia (um tipo de pigmento terroso) encontrada, misturada e suavizada com o branco”, explica Cenini, “esse pigmento é útil quando você quiser usá-lo para pintar rostos, mãos e nus em paredes”.

Ao vestir Gabriel com o mais luxuoso dos rosas, Fra Angelico expõe o arcanjo como sendo feito de corpo e sangue, quebrando a distinção entre o espírito sagrado e a carne efêmera. Rosa humaniza o paraíso. Ninguém jamais veria a cor da mesma forma de novo. Nos próximos séculos, artistas invocariam o rosa como um atalho para borrar limites.

Os cravos de Jesus
No centro da ação no famoso quadro Madonna dos Cravos, do mestre renascentista Rafael, o ramo de cravos entregues à Virgem Maria por um Cristo bebê pode não parecer digno de nota à primeira vista. Na verdade, esse ramo equivale a um milagroso nó no tempo. De acordo com a tradição religiosa, dianthus (o nome grego da planta, que significa “flor de Deus”) não havia aparecido ao mundo até o momento do choro de Maria durante a crucificação de seu filho.

Em ‘Madonna dos Cravos’ do mestre da Renascença Rafael, um bebê Cristo entrega um ramo de cravos à Virgem Maria

Portanto, a aparência anacrônica da flor na cena de Rafael, tingida com o sangue futuro do bebê que o segura, estabelece misteriosamente um nó rosa no desenrolar linear do universo.

Com o tempo, o rosa floresceu além das pétalas de teologias complexas para refletir uma variedade de personalidades seculares enquanto manteve seu fascínio fugaz e sua capacidade de provocar. No século 18, o rosa se tornou a cor escolhida para pintar amantes famosas, desafiando observadores a negar sua legitimidade como cor respeitável.

Retratos famosos feitos pelo retratista do rococó francês Maurice Quentin de La Tourda Madame de Pompadour e pelo artista inglês George Romney de sua musa Emma, Lady Hamilton (a última amante do Lorde Nelson), posando como uma bacante mitológica, revelam como a cor conseguiu fazer a transição do sagrado para o secular.

O retrato que Maurice Quentin de La Tour da Madame de Pompadour mostra a amante do rei Louis 15 em tons pastéis (Crédito: Wikimedia)

O retrato em tons pastéis da amante oficial do rei Louis 15 da França é uma mistura de rosas suaves que se espalham por cada centímetro da tela e ameaçam sufocar seu objeto. Aqui, o rosa é uma energia que vibra da cadeira até os assuntos seculares com os quais Pompadour se cercou – música, astronomia e literatura.

Rosa porcelana
Patrona do comércio de porcelana, Pompadour inspirou a confecção de um novo tom de rosa delicadamente amalgamado com tons de azul e preto, criado pela fábrica de porcelana Sevres. Para Pompadour, o rosa não era mais um mero acessório, mas um parceiro de crime – uma segunda pele com a qual ela crescia intelectualmente e emocionalmente. Ela se tornava sua cor.

Nenhuma pintura incorpora o movimento pendular gradual do rosa do espiritual para o secular com tanta vida do que o exuberante O Balanço, do artista francês Jean-Honoré Fragonard, pintado por volta de 1767, entre os trabalhos de La Tour e de Romney. Aqui, um rompante fantástico de rosa flutuante é congelado nos movimentos de uma menina que se balança, cercada de rosa, com um sapato de seda caindo e atraindo a atenção de vários olhares masculinos escondidos nos arbustos em volta dela. Aqui estamos bem distantes do sussurro rosa dos anjos.

Mais recentemente, o rosa continua a ser usado por artistas que querem confundir nossas expectativas sobre quais impressões ou mensagens o pigmento pode transmitir. Tendo mantido uma ótima reputação em meados do século 20 em uma primeira geração de expressionistas abstratos, e tendo se afastado completamente de objetos figurativos nos anos 1950, o artista americano nascido no Canadá Philip Guston usou o rosa como uma volta dramática à arte representativa no fim dos anos 1960.

Na época, a cor em si havia passado por uma transformação comercial na cultura de varejo americana, tendo começado o século como uma cor mais associada a meninos e masculinidade do que princesas e bonecas de meninas. Mas no momento em que Guston começou a introduzir as figuras cartunescas inspiradas em membros da Ku Klux Klan, com os capuzes pontudos de rosa pálido que ainda atordoam a imaginação popular até hoje, a cor foi recomercializada como delicada e feminina. Ao usar o rosa para suas cenas inquietantes de uma cultura americana decadente, Guston dá um tapa na cara da Barbie.

No mesmo momento em que o rosa provocante de Guston dava uma dedada no olho do mundo da arte, estudos científicos eram desenvolvidos por Alexander Schauss, diretor do Instituto Americano de Pesquisa Biosocial, para determinar se as manipulações de cor poderiam ajudar a controlar o comportamento de indivíduos cercados por ela. O investigação de Schauss resultou na criação do pigmento conhecido como o “rosa Baker-Miller”, nomeado em homenagem a dois generais do Instituto de Correções Navais de Seattle, onde o pigmento foi testado com sucesso nas paredes das celas de presos, tendo se revelado como poderoso “calmante”.

Apesar de fazer as pessoas ficarem mais dóceis, o rosa ainda causa brigas, desafiando nossas percepções a um duelo estético. Ao descobrir que o artista britânico Anish Kapoor havia assinado um contrato dando a ele direitos exclusivos sobre uma cor conhecida como vantablack (o tom mais escuro jamais criado) e o direito de proibir qualquer outro artista de usá-la, o artista Stuart Semple ficou furioso.

Revoltado com o embargo ao preto de Kapoor, Semple começou a criar um rosa extremamente fluorescente que ele diz ser “o mais rosa dos rosas” (“ninguém jamais viu um rosa mais rosa”, insiste). E deu uma cutucada em Kapoor disponibilizando sua cor por um preço módico a qualquer um no mundo que não seja Anish Kapoor nem amigo o suficiente do artista para compartilhar a cor com ele.

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