Quando morre o Amor

Por Tom Fernandes

— Estamos aqui hoje para prestar as últimas homenagens ao Amor. Amor que, cremos todos, agora descansa em paz. Fechemos nossos olhos…
— Com licença, Reputação. Gostaria de dizer umas últimas palavras.
— Esperança, não é o protocolo. A Circunstância não me parece apropriada.
— Eu faço questão, Reputação. Ninguém vai sentir mais falta do Amor do que eu e eu quero dizer umas poucas palavras.
— Como quiser, Esperança. Venha cá.
— Agradeço.
Ao lado do caixão fechado, uma vez que o Amor jazia irreconhecível, a Esperança olha, então, para todos os presentes ao velório.
— Eu vim aqui sangrando hoje para me despedir do Amor. Vim pensando que veria rostos amigos que talvez sofressem a mesma ferida que me lacera. Vim em mim querendo que houvesse algo que abrandasse esse sofrimento. Mas não. Não veio a Consolação. Não veio a Consolação porque vocês, porque ninguém aqui a merece. Não veio a Coragem porque nenhum de vocês a buscou quando era necessária. Não veio a Justiça porque vocês a julgaram desnecessária quando ela podia ter feito tanto. E agora o Amor está aqui. Morto. Irreconhecível. Destruído pela Covardia. E todos vocês agora fingem desconsolo, mas o Arrependimento também não veio. Vocês não o poderão alcançar. Apenas o Remorso está ali dizendo ao pé do ouvido de cada um que, se vocês tivessem agido, o Amor ainda estaria vivo. E eu talvez não estivesse desolada. Me perdoe o Perdão, mas não consigo olhar para nenhum de vocês e sentir pena, sentir dó, sentir nada. A criminosa, sim, a Covardia veio, mancomunada com o machismo, atrelada à Violência, ao Abuso, ao Silêncio de todos vocês. Porque é assim que a Covardia age, confiante de que teria cúmplices em todos vocês. Ainda me dói o primeiro murro que desfaleceu o Amor. Ainda me arde cada hematoma. Ainda me exaspera o sangue derramado pelo chão. Mas o que me desatina, pessoas que agora fingem terem a companhia da Tristeza, o que me desatina é que o Amor pediu, clamou, implorou por Socorro. E nenhum de vocês deu. Olhe aqui, Crítica, veja como seus conselhos para que o Amor não fosse escandaloso e se calasse sobre as primeiras agressões deixou o Amor inseguro e sem saber o que fazer. Olhe aqui, olhe nos meus olhos, Negligência. Olhe para minha alma sangrando e veja o mal que você ajudou a causar. Ilusão, não se esconda, nem tente novamente se parecer comigo. Seu pecado, iludir o Amor de que tudo ia ficar bem, que ele não precisava tomar providências para se proteger da Covardia, custou a vida do Amor. O que me deixa ainda mais furioso com todos vocês é que todos, sem exceção, sempre louvaram o Amor e juraram protegê-lo como mais belo dos sentimentos. A Justiça não foi chamada. O Cuidado não foi oferecido. A Proteção não houve. Vocês desmereceram o Amor, deixaram que seus frutos fossem contaminados pela Violência. Deixaram que a Dor rodeasse o Amor transformando-o em Desespero e Desejo de Morte. Deixaram que, ao longo de anos, a Covardia se disfarçasse de Dependência, que A Violência se disfarçasse ridiculamente de Ciúmes, que o Amor sangrasse até que o Sarcasmo ria a plenos pulmões. A Omissão está aqui, presente e abraçada com cada um de vocês. O Ódio, pai da Covardia, enfim venceu. E todos vocês, Sentimentos de Bem, que não quiseram proteger o Amor com Justiça e Cuidado, todos vocês são cúmplices dessa morte. E, assim, também eu já não tenho razão de existir.

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Comentários

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1 Comentário

  1. E eu estava pensando que fosse algo sério. Bom, o assunto é sério, mas as hashtags são uma piada beeem sem graça.

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