4 exemplos práticos de que a filosofia serve para a vida cotidiana

Publicado no El País

A disciplina de filosofia deixou de ser considerada uma “área prioritária” e tem sido questionada por sua natureza pouco prática. Mas, como lembrava a filósofa Marina Garcés, “a filosofia não é útil ou inútil. É necessária”. Trata-se de uma “linguagem fundamental” para aprender a pensar de forma crítica.

De qualquer forma, neste momento haverá leitores dizendo algo como: “Ok, tudo bem. A filosofia é bonita. Pode ser um hobby, como jogar xadrez ou fazer palavras cruzadas. Mas não se traduz em nada que possa me servir. Nunca me verei na situação de duvidar se o mundo existe, como Descartes”.

Mas a reflexão e a análise de questões fundamentais têm muito mais consequências práticas do que parece. A filosofia não só nos ajuda a ver o mundo de maneira diferente, mas também pode mudar a forma como interagimos com ele. De como podemos ajudar os outros até como enfrentar a morte, ou se devemos tuitar com raiva. O pensamento crítico e as ferramentas que a filosofia nos proporciona nos ajudam a tomar decisões conscientes.

1. Como posso ajudar mais pessoas?
Suponhamos que você queira doar 10 reais para uma ONG. Qual deveria escolher? Uma sobre a qual já ouviu falar? Alguma que esteja trabalhando em catástrofes? Ou talvez outra que atue em sua cidade?

Os filósofos que defendem a corrente do “altruísmo eficaz” acreditam que as doações, por menores que sejam, podem ajudar muito mais do que imaginamos. Em entrevista ao EL PAÍS, o filósofo australiano Peter Singer destacou que pessoas de países em situação de extrema pobreza “vivem com menos de 700 dólares (cerca de 2.600 reais) por ano e, muitas vezes, não têm acesso à água potável, saneamento básico e educação para seus filhos”. Ou seja, esses 10 reais podem valer muito mais em um desses países com uma situação econômica pior.

Além disso, nem todas as iniciativas funcionam da mesma maneira. Em seu livro Doing Good Better (fazendo o bem melhor), o filósofo William MacAskill, da Universidade de Oxford, nos aconselha a fazer perguntas como as seguintes: estamos ajudando uma área que está esquecida e, portanto, carente de recursos? Ou doamos quando ocorre uma catástrofe e, portanto, já existem muitas pessoas dando uma mãozinha?

MacAskill também defende levar em consideração se há provas do alcance das ações da ONG. Por exemplo, e embora pareça paradoxal, os programas de eliminação de vermes intestinais são mais úteis para reduzir o absenteísmo escolar no Quênia do que comprar livros didáticos.

Muito trabalho para 10 reais? Sim, é. Mas existem organizações que fornecem essas informações, como a Give Well, que analisa o impacto das ONGs recomendadas, e a The Life You Can Change, do próprio Singer, que inclui até uma calculadora que permite saber como cada doação será usada.

2. Devo participar da polêmica do dia no Twitter?

Bem, você já doou os 10 reais. Agora, pega o celular para dar uma olhada no Twitter. Como geralmente acontece nesses casos, depois de alguns segundos já está morrendo de raiva de alguém que falou uma barbaridade e tem vontade de dizer-lhe umas poucas e boas.

Embora talvez não seja uma boa ideia. Os psicólogos Paul Bloom e Matthew Jordan se perguntavam no The New York Times há algumas semanas se somos todos “torturadores inofensivos”, por causa das redes sociais. Esse termo se refere a um experimento mental proposto por Derek Parfit no livro Razões e Pessoas, publicado em 1986. O filósofo, que morreu em 2017, imagina torturadores que, durante anos e individualmente, tinham de causar o máximo de dor possível a uma pessoa, mas agora têm um sistema que os isenta de responsabilidade. A única coisa que precisam fazer é apertar um botão que aumente em um milésimo a dor sentida por cada um dos 1.000 prisioneiros.

Ou seja, os torturadores podem alegar que não causaram muita diferença no sofrimento dessas pessoas. “Se eu tivesse parado de apertar o botão, sua dor teria passado de 1.000 para 999, então, por que arriscaria ser demitido?” Ou, no caso do Twitter, se 280 caracteres não vão fazer muita diferença, por que eu deveria ficar sem meus retuítes, mesmo à custa de humilhar ou insultar alguém?

Mas, claro, na verdade não agimos sozinhos. Uma pessoa não faz muita diferença, mas cada um dos torturadores continua sendo responsável pelos danos causados. Especialmente se levarmos em conta que, provavelmente, apenas aperte o botão porque acredita que os outros 999 também o apertarão.

3. Em quem posso votar?
Um dos exemplos de que normalmente não agimos sozinhos são as eleições. Um voto pode ajudar a fazer diferença, por isso é preciso tomar essa decisão com certa responsabilidade. Por exemplo, queremos ajudar a criar uma sociedade mais justa ou preferimos aumentar a liberdade individual?

O filósofo norte-americano John Rawls sugeria em Uma Teoria da Justiça (1971) que nos imaginássemos todos reunidos para escolher os princípios fundamentais da sociedade. Há um porém: não sabemos qual será nossa posição nesta sociedade. Pode ser que sejamos ricos ou pobres, saudáveis ou doentes, inteligentes ou simplesmente justos. Não saberemos sequer se nasceremos na Espanha ou na Somália. Estamos sob o “véu da ignorância”, o qual Rawls chama de “posição original”.

Nestas circunstâncias e, segundo Rawls, todos imaginaremos que corremos o risco de estar em uma posição mais desfavorável, por isso optaremos por uma sociedade que nos proteja, chegando a dois princípios básicos:

1. O primeiro garante liberdades básicas e iguais para todos os cidadãos, como a liberdade de expressão e de religião.

2. O segundo se refere à igualdade social e econômica. As desigualdades só serão permitidas se beneficiarem os membros da sociedade em pior situação. Segundo Rawls, para saber se uma sociedade é justa, não precisamos olhar para a riqueza total ou como é distribuída. Basta examinar a situação daqueles que estão em pior situação.

Mas nem todos concordam com os resultados dessa abordagem. Se Rawls lançou as bases do pensamento social-democrata contemporâneo, Robert Nozick fez o mesmo para o liberalismo moderno com sua obra Anarquia, Estado e Utopia, de 1974.

Para Nozick, o termo “justiça redistributiva” não é adequado. Em sua opinião, a riqueza não é algo que já exista e só precise ser distribuída: a riqueza deve ser criada. Quando as pessoas tomam decisões livres sobre questões econômicas, algumas acabam com mais dinheiro e outras, com menos. Sempre que houver uma troca livre, o resultado é justo.

4. Como devo encarar a morte?
Por outro lado, tudo isso importa? Afinal, nossas vidas são muito curtas para que um punhado de votos, alguns tuítes ou doações de 10 reais de vez em quando representem uma mudança significativa.

Para Arthur Schopenhauer, o fato de que nossas vidas estejam cercadas por nada nos leva a sentir ansiedade metafísica, “uma angústia existencial que nos assalta quando tentamos contemplar o abismo eterno do Nada”, como resume Simon Blackburn em Pense: Uma Introdução à Filosofia.

Os dois nadas não nos angustiam igualmente. Pode dar vertigem saber que milhões de anos se passaram até nascermos. Mas o nada que virá é o que costuma dar mais medo: milhões de anos passarão (provavelmente) quando já estejamos mortos. Por que não escutamos o filósofo romano Lucrécio, quando diz em Da Natureza das Coisas, que esta eternidade até nosso nascimento é um espelho do que vai acontecer depois de nossa morte?

De fato, para Epicuro, esse medo é irracional. A morte não é nada, já que, uma vez mortos, não poderemos sentir absolutamente nada. Não deveríamos temê-la porque, quando chega, já não estamos lá.

As palavras de Epicuro são geralmente recebidas com admiração, mas sem causar muito efeito. Antes de nascer, não existíamos, mas de fato existimos antes de morrer. Certamente, não saberemos como é estar morto, mas saberemos “o que significa morrer”, como observado por Oriol Quintana em 100 preguntes filosòfiques (100 perguntas filosóficas).

E se pudéssemos ser imortais? Segundo o britânico Bernard Williams, a imortalidade seria entediante e tiraria o sentido de nossas vidas. Sempre haverá tempo para fazer tudo e, consequentemente, não teríamos urgência em fazer nada. Ou seja, talvez não consigamos nos livrar do medo da morte, mas, pelo menos, pode servir para nos lembrar que devemos aproveitar nossas vidas. E não ainda que sejam breves, mas precisamente porque são.

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