“Conheci meu marido na igreja e fui estuprada durante todo o casamento”

Publicado no Universia

Estupros, traições e uma agressão marcaram os quase quatro anos de casamento da dona de casa Virgínia*, de 28 anos. Evangélica, ela conheceu o ex-marido aos 20 anos na igreja que frequentava. Sempre presente nos cultos, era tão religioso que a cobrava que estivesse mais presente no cotidiano de fé. “Ele parecia um homem doce, sensível e preocupado em ajudar a todos. Namoramos por um ano e não tive nenhum sinal de que ele poderia ser um abusador. Como eu havia acabado de me batizar, o que, no protestantismo, significa começar a seguir os ensinamentos de Deus, decidi me casar”, conta.

O primeiro estupro aconteceu na lua de mel e as agressões sexuais se repetiram quase toda noite durante anos. Quando Virgínia engravidou, teve problemas de pressão alta e a barriga atrapalhava o sexo. Sob esse pretexto, o marido começou a sair com outras mulheres. A elas, dizia que a esposa tinha esquizofrenia. “No fim de tudo, quando já estava saturada, contei para a mãe dele, que não duvidou de mim e me recebeu muito bem. Ao descobrir que eu estava na casa dela, ele foi até lá e ainda me espancou. Desde aquele dia, não voltei mais para casa”.

“Engraçado que dizem por aí que, em relacionamentos abusivos, o cara vai dando sinais desde o começo, né? Não foi meu caso. Meu ex, durante o namoro, era respeitoso, querido por toda a minha família. Nunca foi ciumento, ou, se era, escondia muito bem. Decidimos nos casar rápido, com menos de um ano de namoro. Na lua de mel, viajamos para Foz do Iguaçu. No primeiro dia, cheguei esfomeada das Cataratas e disse que queria jantar. Ele disse: ‘Agora não é hora de jantar’, me trancou no quarto e me forçou a fazer sexo com ele. Eu chorei, disse que não queria, mas ele não me deixou sair. Doeu muito, eu chorei um monte, fiquei machucada. Compartilhei minha chateação, mas ele disse que vida de marido e mulher era assim mesmo.

Eu não tinha com quem conversar, minha mãe nunca falou comigo sobre sexo e era um assunto proibido entre as mulheres da igreja. Eu me peguei pensando, por algumas vezes, se outras irmãs também passavam por isso, se era normal entre casais. Voltei da lua de mel com nojo, muita vergonha e nunca contei a ninguém. Meus pais não sabem dessa parte e morreriam de vergonha se soubessem. Por isso não revelo meu nome: tenho medo de meu ex me punir por contar.

Eu era jovem e desinformada, não sabia que quando eu dizia ‘não’ e ele me obrigava era um estupro. E esse sexo forçado começou a se tornar rotineiro. Ele trabalhava à noite dia sim, dia não e, quando estava de folga, não conseguia dormir durante a madrugada. Quase todos os dias, eu acordava com ele já em cima de mim. Eu pedia que parasse, dizia que não queria, mas ele sempre respondia a mesma coisa: “Calma, já tô acabando”. Até hoje, tenho pesadelos com a cena.

Logo, descobri que estava grávida da minha mais velha. Com a gestação, vieram alguns problemas de saúde. Minha pressão aumentou muito e eu já não conseguia mais atender às necessidades dele, até pela barriga que dificultava as posições sexuais. Foi quando ele começou a me trair. Ao confrontá-lo, eu ouvi que estava grávida, doente, e por isso ele precisava procurar na rua o que não tinha em casa. Depois de um tempo, meus pais descobriram e me obrigaram a me separar. Voltei para a casa deles, mas descobri que estava grávida do meu segundo filho.

Sempre que converso com mulheres que viveram relacionamentos abusivos, elas relatam um comportamento padrão. Ao saber que eu estava grávida, meu ex me procurou algumas vezes; disse que tinha mudado, que queria criar nosso filho e que, para isso, alugaria uma casa para a gente. Decidi ir, apesar de meus pais tentarem me impedir. Minha mãe me bateu para que não voltasse – e eu estava grávida. Rompi a relação com eles, voltei com meu ex.

Durante os dois primeiros meses, ele melhorou, mesmo. Parou de sair à noite, me ajudava a cuidar da nossa filha. Mas logo voltou ao normal. E, em vez de me trair com uma mulher específica, começou a ficar com várias. No trabalho, ele dizia que eu era esquizofrênica e que só não colocava fogo na casa porque me impedia. Sabe como eu soube disso? Uma das amantes dele me procurou. Ficamos amigas e descobri que eu não era a única vítima dele, todas éramos. Ele chegou a namorar firme com uma moça, comparecia aos aniversários de família, aos almoços…

As agressões eram contínuas, mas a gota d’água foi quando ele começou a me impedir de orar. Meu ex mudou de religião, e, até aí, nenhum problema. Só que ele não queria mais que eu exercesse a minha. Tenho o hábito de rezar ajoelhada, com um véu na cabeça. Um dia, ele chegou em casa, arrancou meu véu, jogou minha Bíblia longe e me empurrou. Disse: ‘Na minha casa, não permito isso’.

Aí pensei: ‘Eu não sou essa louca, ele faz o que quer, eu não tenho direito a nada na minha própria casa e agora até na minha fé ele quer interferir? Chega’. Fui até a casa da mãe dele e contei tudo. Diferentemente do que imaginava, ela me acolheu e me protegeu. Porém, ele descobriu que eu estava lá, foi atrás de mim e me espancou. A mãe dele tentou impedir e ele a empurrou. A partir daquele momento, nunca mais voltei para casa.

Ele me agrediu na frente da minha filha, que tinha três anos à época. Ela ainda lembra de tudo, fala sobre esse momento. A mãe dele me acompanhou até a casa dos meus pais, que me receberam de volta. Seis dias depois, ele já estava morando com outra mulher, e eu descobri que estava grávida de novo. Sofri, mas percebi que a melhor coisa era ficar longe.

A separação não foi difícil. Pouco tempo depois de eu sair de casa, ele pediu que eu o deixasse ver as crianças; as levou para casa e, quando voltaram, minha filha disse que estava machucada. Ela tinha um corte na vagina e contou que foi a madrasta que fez. Perguntei o que tinha acontecido, só que ela mal falava, então não conseguiu me explicar. Fui à delegacia fazer B.O, só que como não tinha provas, fui desencorajada pelo delegado. Ele disse: ‘Tem certeza que você vai estragar a vida do seu ex-marido o acusando de algo sem provas?’. Me senti sozinha e fui embora. No hospital, a médica que a atendeu disse que o estupro não foi consumado, mas que ela foi abusada. Liguei e fiz um escândalo.

Hoje, ele vê as crianças a cada 15 dias, mas elas não têm permissão para dormirem lá. A mais nova, de dois anos, ele não registrou. E eu nem faço questão. Me livrei de um monstro, só que minha vida ainda é um inferno. Meus pais não permitem que eu estude, nem que eu namore. Dizem que não vão me ajudar com as crianças se eu quiser fazer coisas de vagabunda. Não tenho dinheiro, nem emprego. Estudo para concursos públicos e faço marmitas para vender. Vou prestar um concurso agora que tem até auxílio babá. Imagina, que sonho, auxílio babá?”

*O nome publicado nesta reportagem é fictício e visa preservar a identidade da personagem

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