O que fazem os missionários e o que pensam da morte de John Chau, recebido a flechadas por tribo isolada

Em 21 de outubro, Chau postou nas redes socais que estava viajando no sul da Ásia

Publicado na BBC

“Vocês podem pensar que sou louco… Mas eu acho que vale a pena falar de Jesus a essas pessoas.”

Foi assim que John Allen Chau encerrou a última carta enviada aos pais antes de ser morto pela tribo que vive na Ilha Sentinela do Norte, parte do arquipélago indiano de Andaman e Nicobar, no Oceano Índico.

A tentativa – que terminou em tragédia – do jovem americano de 27 anos de levar a palavra bíblica aos aborígenes colocou em destaque os milhares de missionários cristãos que viajam pelo mundo com o objetivo de evangelizar.

Quem são essas pessoas? O que elas querem alcançar? Elas têm um impacto positivo ou negativo pelo mundo?

O que é um missionário?
Embora várias religiões enviem devotos pelo mundo para pregar suas crenças, os missionários cristãos são os mais conhecidos.

Eles justificam sua atividade com uma menção a uma passagem bíblica do livro de Matheus, na qual Jesus pede aos seus seguidores que “formem discípulos em todas as nações”.

Religiosos sempre estiveram à frente em missões colonizadoras

Essa passagem é conhecida como A Grande Comissão e representaria a última instrução de Jesus aos seus discípulos.

Os religiosos sempre estiveram à frente das missões colonizadoras. Espalhar “a palavra de Deus” era uma forma de “civilizar” as pessoas que habitavam terras fora da Europa.

“Embora o que aconteceu possa gerar debates sobre projetos missionários, John Chau não é um evangelizador representativo”, diz David Hollinger, professor aposentado da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

“Os evangelizadores ainda querem catequizar, mas hoje em dia eles também constroem hospitais e escolas. Muitos têm projetos sociais significativos”, destaca.

De acordo com o Centro Global de Estudos sobre Cristianismo, havia cerca de 440 mil missionários cristãos atuando pelo mundo em 2018.

Esse número inclui católicos, protestantes, cristãos ortodoxos e grupos americanos como as testemunhas de Jeová e os mórmons.

Os mórmons são um dos únicos a terem um programa centralizado de evangelização missionária. Há quase 66 mil pessoas dessa religião pelo mundo. Ao longo da história, essa igreja contou com um milhão de missionários.

Em 2017, a igreja disse que foram convertidas 233,7 mil pessoas nessas missões.

O que os missionários fazem?
John Allen (que não tem nenhuma relação com John Allen Chau) e a esposa Lena, que é parteira e enfermeira, trabalham como missionários em Papua Nova Guiné há 15 anos.

O casal americano “busca promover os valores cristãos e um modelo transformador Gospel”, disse Allen à BBC News, por e-mail.

“Não se trata de fazer com que as pessoas creiam como a gente crê”, escreve. “É sobre fazer as pessoas verem por si próprias, pela Bíblia, que Deus tem um plano para a humanidade em geral e para cada um, em particular.”

O casal abriu uma clínica médica há 10 anos para atender o povo Kamea, na Província do Golfo.

Cinco cidadãos locais e três enfermeiros americanos trabalham com eles no Centro de Saúde Kunai. Além de tratar enfermidades e ferimentos, a equipe tem uma série de programas de atendimento a mulheres grávidas e a recém-nascidos.

Missionários cristãs atuam em missões de evangelização há séculos

Allen diz que ele e a esposa são fluentes no idioma Tok Pisin e que estão estudando a língua Kamea – um dialeto que jamais fora escrito, até o casal americano começar a documentá-lo, em 2006.

“É muito difícil aprender esse idioma e somos nós que o estamos escrevendo e documentando”, afirma Allen. “Até onde sei, nenhum estrangeiro é fluente em Kamea ainda. As missões religiosas não têm todas o mesmo mote.”

Andrew Preston, professor de história americana na Universidade de Cambridge, diz que alguns missionários estão na vanguarda do conhecimento linguístico.

“Essa não é a realidade hoje em dia. Mas, há 100 anos, os missionários eram os únicos estrangeiros fluentes tanto nos idiomas mais desconhecidos da África e da Ásia quanto em chinês e japonês.”

Allen afirma que a melhor maneira de aprender sobre um povo é “sentar na lama como eles, comer a comida deles, dormir nas cabanas que eles usam, se divertir com os jogos que eles desenvolvem e carregar com eles os fardos que enfrentam”.

Scott e Jennifer Esposito trabalham como missionários cristãos na Nicarágua. Eles administram uma fazenda, um projeto esportivo e um grupo de estudos bíblicos para espalhar sua fé.

“Estamos constantemente compartilhando a palavra”, disse Scott à BBC News, por telefone. O casal intencionalmente não contabiliza o número de pessoas que aderiram à sua fé, mas estima que tenha convertido entre 800 e 1,2 mil pessoas nos últimos seis anos.

“Cada alma tem importância”, diz Scott. “Quando você começa a contar e estabelecer metas, como a de evangelizar 500 pessoas, você começa a se orientar por números e esquece que cada pessoa é importante e pode demandar mais tempo (para ser evangelizada).”

O que os missionários acham de John Chau
“Quando a história de John Chau foi divulgada, a gente pensou: ‘Puxa, nós pensamos em fazer isso'”, diz Allen.

O missionário americano esclarece que ele próprio não tinha cogitado ir até a Ilha Sentinela do Norte, mas colegas próximos já haviam manifestado a vontade de se aproximar da tribo isolada que mora lá.

“Embora não considerassem a ideia seriamente, eles discutiam como seria possível se aproximar daquela população com segurança, como iniciar um contato amigável, como chegar à tribo para aprender a lingua e a cultura dela”, afirma.

Tanto Scott quanto Jennifer Esposito consideram o que aconteceu com John Chau uma tragédia. Eles estão cientes que muitos classificaram a atitude dele como insensata.

“Eu hesitaria em julgá-lo. Pelo que li, (John Chau) amava o Senhor e o sacrifício dele pode levar muitos ao cristianismo no futuro”, afirma Jennifer. “Quem sabe quais frutos (foram plantados) e que grandes coisas estão para acontecer.”

Scott Esposito argumenta que, se um time de médicos tivesse descumprido as leis e costumes para salvar a tribo de doenças, a reação teria sido diferente.

“Se esses médicos tivessem sido mortos nessa missão, a maioria das pessoas estaria dizendo que eles são pessoas corajosas”, diz ele. “(John Chau) foi até lá para salvar a vida eterna (dos integrantes da tribo).”

Dito isso, Scott diz que não compactua com práticas que desrespeitem a lei, como a de Chau, e garante que “respeita muito” a lei local e os costumes de Papua Nova Guiné.

“Todos deveríamos imitar o coração dele, no sentido de que ele estava disposto a morrer, mas não acho que todos deveríamos ir atrás de tribos perigosas desnecessariamente.”

Trabalho missionário é uma forma de imperialismo?
A ex-missionária Caitlin Lowery comentou sobre John Chau na sua conta do Facebook algun dias após a morte do jovem.

“Eu já fui missionária. Achava que estava fazendo um trabalho por Deus. Mas, para ser honesta, estava fazendo esse trabalho para me sentir bem. Isso é supremacia branca. É colonização”, afirmou.

Mark Plotkin é botânico e presidente da Amazon Conservation Team, um grupo que trabalha em conjunto com o governo colombiano para proteger tribos isoladas.

“Eu trabalhei por 30 anos na Amazônia e percebi que existem dois tipos de missionários: aqueles que querem preparar a tribo para o mundo exterior e aqueles que querem salvar algumas almas para Jesus”, disse ele à BBC News.

Plotkin afirma que embora os missionários acreditem piamente que estão tornando o mundo um lugar melhor, o trabalho deles pode ser extremamente danoso.

“Arrastar da floresta povos isolados para o bem deles, às vezes não faz nada bem a eles”, disse.

Ele dá o exemplo os integrantes do povo Akuriyo, do Suriname, que foram contatados por missionários em 1969. Em dois anos, diz Plotkin, 40% a 50% dos Akuryio morreram devido a doenças respiratórias e ao que o botânico chama de estresse causado por “choque cultural”.

“Eles estavam vendo pessoas usando roupas e dando injeções neles pela primeira vez. Ninguém deve brincar de Deus”, afirma.

Mark Plotkin trabalha na proteção de índios isolados

Muitos país enxergam o trabalho missionário com desconfiança. O proselitismo religioso é ilegal no Nepal. Em agosto, uma lei entrou em vigor para estabelecer estrangeiros condenados por esse crime podem ser deportados após cumpirem cinco anos de prisão.

Historicamente, alguns missionários protestantes dos Estados Unidos desenvolveram uma “ambivalência ao imperialismo” americano, diz o professor Andrew Preston, da Universidade de Cambridge. Segundo ele, missionários passaram a promover identidades locais e causas nacionalistas dos países onde eles atuavam que batiam de frente com os interesses dos EUA.

“Eles queriam transformar o mundo conforme bases cristãs, não americanas.”

Allen admite que há quem faça uma associação entre trabalho missionário e imperialismo. Ele diz que se sente “enojado” quando vê qualquer forma de ação colonialista entre missionários ou empresários.

“Às vezes, embora trabalhemos muito para evitar, recebemos uma deferência desnecessária”, afirma, explicando que se esforça para construir “uma relação genuína baseada na confiança e no respeito mútuos.”

“Eu não sou ingênuo para achar que um dia serei Kamea, mas nossa equipe se esforça para desmantelar qualquer inclinação colonial e substituir isso por uma relação de amizade codependente.”

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