Facebook deu acesso às nossas mensagens privadas e mais um monte de dados

Publicado no UOL

A rede social Facebook compartilhou mais dados pessoais de seus usuários com gigantes tecnológicos como Microsoft, Amazon e Netflix do que tinha revelado até agora, segundo informou nesta quarta-feira (19) o jornal “The New York Times”.

O jornal nova-iorquino teve acesso a 270 páginas de documentos internos da companhia de Mark Zuckerberg que revelam como compartilhou os dados sem o consentimento dos usuários e gerou assim seu modelo de negócio através da publicidade.

O Facebook autorizou ao Bing, o motor de busca da Microsoft, a ver todos os nomes das amizades dos usuários do Facebook.

Em 2014, o Facebook acabou com a personalização instantânea e o acesso à informação dos amigos. Mas em um acordo anteriormente não relatado, os engenheiros da rede social continuaram permitindo ao Bing, ao serviço de streaming de música Pandora e o site de resenhas de filmes e TV Rotten Tomatoes acesso a grande parte dos dados obtidos para o recurso descontinuado. O Bing teve acesso às informações durante o ano passado, mostram os registros.

À Netflix e ao Spotify, além do Royal Bank of Canada, permitiu ter acesso às mensagens privadas dos usuários. Segundo o jornal, as empresas podiam ler, escrever e apagar os inbox, além de ver todos os participantes em um tópico, mas a reportagem não detalha como isso era feito.
“Privilégios que pareciam ir além do que as empresas precisavam para integrar o Facebook em seus sistemas”, diz a reportagem, assinada por Gabriel JX Dance, Michael LaForgia e Nicholas Confessore.

A rede social também deu à Amazon acesso ao nome dos usuários e informações de contato, e ao Yahoo e até mesmo o próprio “New York Times”, permitiu ver publicações das amizades em 2017. “O Yahoo poderia visualizar feeds em tempo real de posts de amigos para um recurso que a empresa encerrou em 2011”, disse o jornal.

A partir de 2017, Sony, Microsoft, Amazon e outros poderiam obter os endereços de email dos usuários por meio de seus amigos.

Funcionários da Microsoft disseram ao “New York Times” que o Bing estava usando os dados para construir perfis de usuários do Facebook em servidores da empresa. Eles se recusaram a fornecer detalhes, além de dizer que a informação foi usada no “desenvolvimento de recursos” e não para publicidade. A Microsoft já excluiu os dados, disseram os funcionários.

Porta-vozes do Spotify e da Netflix disseram que essas empresas não tinham conhecimento dos amplos poderes que o Facebook lhes concedeu. Um porta-voz do Royal Bank of Canada contestou que o banco tivesse tal acesso.

O Spotify ainda oferece a opção de compartilhar músicas pelo Facebook Messenger. Mas a Netflix e o banco canadense não precisavam mais acessar as mensagens porque haviam desativado recursos que a incorporavam.

Um porta-voz do Yahoo se recusou a discutir a parceria em detalhes, mas disse que a empresa não usou as informações para publicidade.

Já o “NYT” tinha acesso às listas de amigos dos usuários para um aplicativo de compartilhamento de artigos que também havia descontinuado em 2011. Uma porta-voz da empresa disse que não estava obtendo nenhum dado.

Segundo o jornal, o Facebook capacitou a Apple a esconder dos usuários da rede social todos os indicadores de que seus aparelhos estavam pedindo dados. Os aparelhos da Apple, como iPhones, tinham acesso aos números de contato e registros no calendário de pessoas que haviam alterado suas configurações para desativar todo o compartilhamento. A Apple disse que não estava ciente desse suposto acesso especial e que os dados compartilhados permaneceram nos aparelhos dos próprios usuários.

Algumas destas práticas ocorreram pelo menos até o meio deste ano, quando atingido por múltiplos escândalos de privacidade, o Facebook tinha dito publicamente que já não permitia tais ações.

No total, foram cerca de 150 companhias, na maioria negócios tecnológicos, que se beneficiaram destes acordos para entrar nos dados do Facebook, que tem 2,2 bilhões de usuários.

O diretor de privacidade do Facebook, Steve Satterfield, disse ao jornal nova-iorquino que nenhum destes acordos violou os acordos de privacidade ou os compromissos com os reguladores federais.

Pessoas da equipe do Facebook disseram ao jornal que o compartilhamento de dados não viola a privacidade dos usuários porque permite acesso apenas a dados públicos, apesar de incluir dados que a rede social tornou públicos em 2009.

Eles acrescentaram que a rede social cometeu um erro ao permitir que o acesso continuasse para Microsoft, Pandora e Rotten Tomatoes, mas se recusou a comentar mais. Porta-vozes da Pandora e da Rotten Tomatoes disseram que as empresas não sabiam de nenhum acesso especial.

O Facebook também se recusou a discutir as outras capacidades que o Bing recebeu, incluindo a capacidade de ver os amigos de todos os usuários.

Por conta da repercussão da reportagem, o Facebook publicou em sua área de imprensa um texto assinado por Konstantinos Papamiltiadis, diretor de plataformas e programas para desenvolvedores da rede social.

Ele diz que o acesso dado às empresas serviu para que as pessoas pudessem acessar suas contas ou recursos específicos do Facebook em aparelhos e plataformas de outras empresas, como Apple, Amazon e afins. Além disso, permitia no Facebook as “experiências sociais”, como ver recomendações de seus amigos do Facebook em outros apps como Netflix e Spotify.

Papamiltiadis ainda reforça que nenhuma dessas parcerias ou recursos deu às empresas acesso a informações sem a permissão das pessoas, nem violaram o acordo de 2012 do Facebook com a Comissão Federal de Comércio americana, que incluia medidas para garantir que cumpriria promessas de manter a privacidade dos seus usuários dali por diante..

Aos diferentes escândalos de privacidade do Facebook que solaparam a imagem e reputação da empresa, se somam a controvérsia que rodeia a rede social pelo uso de sua plataforma divulgar mentiras e notícias falsas em processos eleitorais com o objetivo de influenciar nos resultados.

No caso concreto, nas eleições presidenciais nos EUA de 2016, Facebook estimou que cerca de 10 milhões de pessoas estiveram expostas aos mais de 3 mil anúncios pagos por contas falsas supostamente ligadas com a Rússia.

* Com agência EFE e “New York Times”

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