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Adolescente em estado terminal arrecada mais de R$ 3,7 mi para caridade

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Publicado na BBC Brasil

Um blogueiro britânico de 19 anos com câncer terminal arrecadou 1 milhão de libras (R$ 3,7 milhões) para a caridade e postou uma última mensagem para seus seguidores.

Quando Stephen Sutton foi diagnosticado com câncer de intestino aos 15 anos, ele começou a levantar fundos para a Teenage Cancer Trust, instituição na Grã-Bretanha dedicada à adolescentes com câncer.

Na terça-feira, Sutton postou no Facebook: “Esta é minha última mensagem. Acho que já fui muito longe.”

Em reação à notícia de que o total de arrecadações ultrapassou 1 milhão de libras, Sutton tuitou: “Muito obrigado à todos”.

“Essa situação é de tirar o folêgo de várias maneiras!”, ele adicionou.

Dezenas de pessoas responderam dando parabéns, incluindo uma que descreveu Sutton como uma “verdadeira inspiração”, enquanto outra disse que ele tinha “mudado a vida de milhares de pessoas”.

No dia anterior ele disse à seus milhares de amigos e seguidores no Facebook que aquele seria seu último post e que qualquer novidade viria de seus familiares.

Ele escreveu: “É uma pena que o fim tenha chegado tão de repente. Há tantas pessoas à quem eu não consegui agradecer ou dizer adeus. Me desculpem por isso.”

“Eu continuarei lutando enquanto eu conseguir, e o que quer que aconteça em seguida, eu quero que vocês todos saibam que eu estou mentalmente bem, e em paz com a situação.”

“Isso é tudo. Mas a vida tem sido boa. Muito boa.”

As mensagens de terça-feira fizeram com que as pessoas doassem mais de 250 mil libras durante a noite e mais 200 mil libras na quarta-feira de manhã.

Sutton criou uma lista de desejos que ele gostaria de realizar antes de morrer para ajudar a levantar fundos e dar à outras pessoas a motivação para “aproveitar a vida”.

Entre os vários desejos que conseguiu realizar estavam tocar bateria para 90 mil pessoas, abraçar um elefante e fazer uma tatuagem.

Jesus era uma metralhadora de spoilers

E aí eu vou dizer: “perdoa, pois eles não sabem o que fazem”. Ai a galera fica olhando, é muito louco

E aí eu vou dizer: “perdoa, pois eles não sabem o que fazem”. Ai a galera fica olhando, é muito louco

Publicado no Pdh Título original: O spoiler e toda sua complexidade

Jesus era uma metralhadora de spoilers. Contou aos apóstolos, no auge de sua trama pessoal, que seria capturado e crucificado. Contou para eles também que a reviravolta aconteceria com a traição de um dos seus. Como se não bastasse, abriu para todos, como se fosse normal e pertinente, que ele voltaria depois do fim, como se as cenas pós-créditos não tivessem o mesmo peso no que houve e no que estaria por vir.

Indo mais a fundo, o messias ainda colou em um solitário Pedro e, sem botar hashtag alguma, soltou ao coitado que, antes do galo cantar, ele o negaria por três vezes. E foi batata.

Foi ainda nesse ano que, falando sobre final de séries ou algo que valha, surgiu no papo o desfecho de LOST, série que tinha tudo — pelo impacto que teve em seus primeiros anos — para estar entre as mais queridas e lembradas de todos os tempos, mas que ficou guardada atrás de outras caixas de lembranças das pessoas. Nesse papo, antes que desenvolver qualquer raciocínio, o Guilherme se colocou em posição de defesa e mandou em alto e bom tom: “sem spoiler, hein. Eu ainda não vi”.

Quatro anos se passaram e, mesmo sem continuar com ele por perto, me senti na liberdade de desenvolver o assunto, atitude não tomada pelo bom senso, e não por algum decoro. Poxa, uma copa do mundo de distância. Não se pode pedir segredo com esse tanto de água passada por debaixo da ponte. Isso me lembrou de outro fato curtinho.

Anos antes, antes mesmo de LOST estar entre nós, fui a um sebo e comprei, dentre outras delicinhas, o Histórias Extraordinárias do Edgar Allan Poe. Nele, há o conto “O Gato Preto”, um dos mais legais do autor. Em outro papo com amigos, um deles — que já havia lido o livro — me disse que eu iria adorar ler o conto d’O Gato Preto e, em sua análise, contou a porra do conto todo. Eu, claro, fiquei chateado.

Cacete, estamos falando de uma historieta publicada no começo do começo do século 19!

É, se o spoiler for medido em tempo, teremos mais paradoxos do que julga nossa vã filosofia de internet. Querendo desabafar, eu fui contar a um casal de amigos o que o cara me fez e, empolgado em minha própria narrativa revoltosa, contei a eles a porra do conto. Eles também não haviam lido esse livro do Poe.

Não há tempo como unidade de medida para um spoiler. Duas horas, oito minutos, três vidas inteiras. Há que se respeitar o momento do outro.

Coisa da mais simples, segurar a ponta da língua pra dentro da boca alguns segundos. Ao mesmo tempo, cabe ao não-curioso de saber seu lugar e não empacar um papo interessante por conta de ainda não ter assistido ao filme. Quer se preservar contra spoilers, não dê pano para manga e, o quanto antes, bota a bunda na cadeira e vá ver o que precisa ser visto. Ou lido. Ou escutado. Deu pra entender.

O bom e velho equilíbrio. Eu não conto e você não fica escutando. Li, em algum lugar na internet ontem de manhã que, se a pessoa realmente se interessa pela obra e não quer saber nenhum detalhe que possa lhe estragar a experiência, vai ver o quanto antes. Se assim não o fez, é porque não era tão importante assim. Achei bem pesado.

Eles estão em todos os lugares

Eles estão em todos os lugares

Sabemos que há situações que não dá pra ver na hora que se está passando. A maluca dicotomia embalando nossos argumentos. Assim como é bem triste ver os caça-spoilers se aventurando no Facebook logo pela manhã atrás de quem está “erroneamente” contando pra deus e o mundo o que deveria ser segredo. Se sabe que o bom senso não impera em nosso planeta, me parece bem errado contar com a sorte e sair lendo tudo o que contenha a palavra-chave da sua série favorita ou filme que quer ver.

Mas estamos na era dos exageros. Tempos velozes em que a internet, as redes sociais e a fibra óptica te botaram em contato com milhares e milhões de pessoas, muitas delas desprovidas de qualquer noção. Mesmo tentando escapar dos spoilers, granadas visuais são jogadas — imagens da cena final ou das pessoas que você jurava ter morrido retornando ou casais improváveis se abraçando, qualquer uma dessas bombas que não precisa nem ler para interpretar tudo — e pessoas da maior confiança pisam na bola, muitas vezes até sem querer.

Não é nem um pouco saudável também ficar se esquivando constantemente em seu Facebook ou Twitter ou o que mais apeteça. O amigo Rodolfo Viana escreveu sobre esse lance de spoilers. Mais interessante que sua opinião (desculpa, amigo), foi o comentário de uma menina que disse:

Quer dizer, internet é putaria. Mas mesmo assim tem que rolar uma ética e tal.

O problema provavelmente está na internet. Você conhece seus amigos, sabe quais deles não suportam a ideia mais vaga de poder, em qualquer momento, ouvir um suspiro que seja sobre qualquer coisa. Você tem outros camaradas que, ao contrário, ficam empolgadíssimos para ver algo justamente quando lhe contam uma parada fundamental. Já na internet, você não tem como saber da sensibilidade dos vários amigos que não são seus amigos. Mais ainda quando você amplifica sua voz em uma página pública, uma “fanpage”.

Ora pitombas, se não sabe com quem tá lidando, é hora de limar por baixo e botar um simples aviso de que está para contar algo revelador. Os menos afetados lerão sem problemas. Os afetadinhos seguirão com suas vidas e os muito afetados vão reclamar mesmo sem ter lido. Mesmo com ética e tal, a internet ainda será putaria.

Mais do que pensar em regras, há que se pensar no respeito com outra pessoa de não relevar nada que poderia estragar a experiência de alguém e, ao mesmo tempo, entender que a outra pessoa tem liberdade para falar sobre o que quiser, mesmo que seja sobre o final da sua série ou filme favoritos.

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Se você não liga para spoilers, agradeça a Deus. Se você odeia, reclama lá com Jesus.

E se hoje fosse o último dia ao lado do seu pai?

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Publicado no Obvious

Primeiramente, é preciso deixar claro que esse não será um texto fácil, talvez pelo tema, ou pelas imagens que serão apresentadas, mas acredito que principalmente por que todos temos mães e pais, e independentemente de qualquer adversidade da vida, é impossível não nos colocarmos no lugar de Phillip Toledano, com seu pai nos seus últimos anos de vida.

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O projeto fotográfico começa quando a mãe de Phillip falece no ano de 2006, deixando-o incumbido da tarefa de cuidar de seu pai, na época com 97 anos e portador da perda de memória recente, o sofrimento pela morte da esposa era revivido várias e várias vezes, até que chegaram os dias em que a melhor opção era dizer que sua amada estava em viagem a Paris. O idoso escrevia em um caderno as lacunas de lembranças e questionamentos que nunca foram e serão preenchidos: “Onde está todo mundo?”, “O que está acontecendo?”.

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Os Registros feitos por Phillip Toledano ao longo desses três anos foram agrupados e transformados no livro Days With My Father ou na sua versão traduzida “Dias Com Meu Pai”, que registram a simplicidade do convívio cotidiano e das adversidades enfrentadas por ele nesse período. Onde existiam dias, que o simples ato de ir ao banheiro era uma missão e que poderia levar o dia inteiro, já que a perda da memória recente fazia com que ele dispendesse uma enorme quantidade de tempo e logo ao colocar as calças dizer: “Espere um segundo, eu tenho que ir”.

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Mas também existiam dias bons, onde o pai de Toledano relembrava da sua juventude, de como era belo quando jovem e de como o humor sempre esteve presente em sua vida, nos breves trechos de texto do livro, momentos como esses eram descritos como um curto espaço de tempo onde tudo volta a ser como era antes.

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Mas como tudo na vida em algum momento ela chegaria ao fim, e depois de três anos de convívio diário e batalhas vencidas, o pai de Phillip Toledano falece, e na última página do livro uma foto sua logo após a morte, e a frase que encerra esse que é um dos mais belos ensaios reais retratando o amor entre pai e filho: “Eu me sinto um sortudo por ter passado os últimos três anos. Por não ter mais nada pra dizer. Por saber que nós amamos um ao outro nus, sem constrangimento. Por ter sentido seu orgulho por minhas realizações. E ter descoberto o quanto engraçado ele era.”

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Depois de ler o livro e rever imagem por imagem e nos colocarmos no lugar desse fotógrafo, quem é capaz de dizer que essas relações e ligações familiares não tem um laço mais forte? É obvio que diferenças vão surgir, e é natural que em dado momento pais e filhos se afastem, mas ao nascermos estamos presentes um na vida do outro. O que podemos tirar de lição desse ensaio fotográfico real, é que ao fim da vida, estaremos unidos novamente.

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Mas agora refaço a pergunta título dessa postagem e se hoje fosse o último dia de vida do seu pai? O que você faria? Sinceramente não importa, você pode viver, demonstrar, compartilhar momentos, qualquer ação é válida, só não deixe para o último dia aquilo que poderia ter sido feito ao longo de uma vida inteira de cumplicidade, viva cada dia com seus pais como se fosse o último ou melhor. Aproveite o fato de ainda ter pais, pois um dia eles não estarão mais presentes em nossas vidas e inevitavelmente chegará o último dia, e quando chegar quanto mais coisas foram vividas menos terá a ser dito.

A empresa que faz vídeos sobre depressão e apoia quem precisa de ajuda

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Ana Saad e Geison Luz, em São Paulo. Com problemas de infância parecidos, eles filmam histórias difíceis de vida (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Publicado na Revista Época

Ana Maria Saad e Geison Ferreira Luz têm muito em comum. Além de ter passado por transtornos emocionais na infância, têm grande paixão pelo cinema. Juntos, fundaram a Pensamentos Filmados, que conta histórias de pessoas que, como eles, viveram em meio a tabus, como suicídio e depressão.

Ana, formada em hotelaria, sofria de depressão desde os 8 anos. Aos 23, a doen­ça lhe deu uma trégua e ela foi para Londres, onde durante um ano e meio estudou cinema. Quando voltou ao Brasil, os sintomas reapareceram. “Como não tratava a causa, tive uma recaída”, diz. Foi nessas condições, em 2006, que começou um curso de atuação. Lá conheceu Geison. Nascido em Jaboatão, interior de Pernambuco, ele não se sentia emocionalmente confortável. “Cresci num ambiente sem estímulos para me desenvolver. Era uma família religiosa, um presídio”, afirma ele. Em 1994, aos 12 anos, veio para São Paulo com sua mãe. No Sudeste fez teatro e, num dos cursos que frequentava, se encontrou com Ana. Como perceberam que tinham histórias de vida parecidas, em 2008 resolveram criar um projeto audiovisual. Assim nasceu a primeira obra, V.I.D.A., um curta-metragem que mostra a depressão do ponto de vista de quem sofre da doença. Inspirado na vida de Ana, o filme chamou a atenção. “Foi enviado no primeiro corte para o Festival de Brasília. Lá a sala teve lotação máxima. Aos poucos nos demos conta do tamanho do filme”, afirma Geison. Com o sucesso, a ideia de desenvolver um projeto social ganhou força. “Ana e eu entendemos que cinema não é algo que você coloca na prateleira.

É uma ferramenta para abrir o diálogo com as pessoas, sobre questões que incomodam.”
A partir daí, a Pensamentos Filmados começou a se moldar e a produzir outros filmes, tratando de outros temas delicados. O curta-metragem Solo fala sobre a solidão. Jogatina discute a psicopatia. Todos estão na internet, no site do projeto.

Para pagar os filmes, os fundadores da Pensamentos usaram o próprio dinheiro. “Fomos tentar pela Lei Rouanet e não conseguimos. Fui atrás de editais, não tive resposta. Não consegui apoio de empresas, mas muitas pessoas físicas ajudaram, ainda que de forma tímida”, afirma Ana. Ela faz bicos para conseguir o dinheiro. Os trabalhos vão de coaching para atores a aulas de inglês. Geison trabalha como caixa de um restaurante em São Paulo. “Para fazer nosso último projeto, tive de colocar R$ 1.000 do meu bolso, o Geison mais R$ 500, e todos os que trabalharam ali foram voluntários.”

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FILMES E CAUSAS
Capas dos DVDs da Pensamentos Filmados. Entre os temas: solidão, depressão, psicopatia e superação (Foto: Reprodução)

A ação trouxe resultados, principalmente entre quem sofre com os problemas retratados nas obras do projeto. Com os celulares disponíveis no site do projeto, os fundadores acabam se tornando orientadores de muitos que não sabem a quem recorrer. “Todo dia falo com gente que me procura nas redes sociais. Vou atrás de terapeutas e indico lugares que atendem de graça”, diz Ana. Uma ferramenta mais lúdica, como os vídeos, para disseminar conhecimento sobre temas tabus é bem-vinda. “Toda vez que alguém foge do normal das coisas e quer mostrar um outro lado, deve ser incentivado”, diz Adriana Rizzo, voluntária membro da comissão nacional de divulgação do Centro de Valorização da Vida (CVV).

Mesmo com as dificuldades financeiras, há planos de crescer. Para o futuro, a Pensamentos planeja embarcar em esquetes de humor para internet que transmitam alguma mensagem positiva. O plano é arrecadar dinheiro com a publicidade da exibição dos filmes no YouTube. “Serão temas de comportamento abordados de maneira cômica, trazendo uma reflexão”, afirma Geison. “Acredito que podemos mudar o mundo. Principalmente começando por nosso próprio mundo”, diz Ana.