Trabalhadores terão 11 feriadões para enforcar em 2015, fora carnaval e Semana Santa

foto: Guilherme Pinto/Agência O Globo
foto: Guilherme Pinto/Agência O Globo

Rafaella Barros, no Extra

Outubro nem acabou e já circula em grupos do WhatsApp uma mensagem sobre os feriados de 2015. Ao contrário do que aconteceu este ano, quase todas as datas serão no meio da semana, gerando expectativas nos trabalhadores quanto aos dias de descanso. No Rio, serão nada menos que 11 feriadões — fora carnaval e Semana Santa, já tradicionais.

A avalanche de feriado, no entanto, divide a economia do país. Se, por um lado, setores ligados ao turismo lucram mais, por outro, o comércio sofre grandes perdas. O Clube de Diretores Lojistas do Rio (CDL-Rio) estima que, num único feriado de meio de semana, o comércio da capital fluminense deixa de faturar cerca de R$ 370 milhões.

Aldo Gonçalves, que preside o CDL e também o Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (Sindilojas Rio) explica que a entidade tem um convênio com o sindicato dos empregados do comércio, que prevê a abertura das lojas em feriados. Muitas vezes, porém, não compensaria abrir os estabelecimentos nessas datas, pois o empresário tem custos, mas não tem clientela.

— O feriadão só é bom para o pessoal do turismo: restaurantes, hotéis… Porque o Rio atrai muita gente. Mas, de um modo geral, é sempre perda de vendas.

A empresária Sabina Sommer, de 63 anos, ficou estarrecida ao saber da quantidade de feriados em dias que seriam úteis no ano que vem.

— Os feriados teriam que ser jogados para os fins de semana, para o país andar. Eles significam que o funcionário público não trabalha, que todo escritório e consultório médico fecha… Com isso, não tenho como abrir (a loja) — diz a dona da loja Camisa Expressa, no Centro do Rio.

O motivo dela é o da felicidade do ambulante Raimundo Oliveira, de 44 anos, que vende cangas e chapéus na Praia de Copacabana:

— As vendas aumentam uns 30% nos feriados, porque vem muita gente do interior do Espírito Santo, de Minas, da Bahia…

Enquanto Raimundo comemora a chegada de pessoas à cidade, os funcionários da agência da CVC do Centro vibram com a saída.

— Quando os feriados caem na terça ou na quinta-feira, as pessoas costumam emendar, o que acaba facilitando para as viagens. Os destinos mais procurados são Natal, Porto Seguro, Foz do Iguaçu, Balneário Camboriú e São Paulo — conta a gerente Valdinisia Aquino.

O secretário de Turismo do Rio, Antonio Pedro de Mello, tenta resolver essa equação:

— Trabalhamos para tornar essas datas mais atrativas entre cariocas e minimizar o impacto negativo no comércio.

— Para a gente que é do comércio, quanto menos feriados houver, melhor. Porque o movimento cai bastante, principalmente aqui no Centro (do Rio). Em alguns bairros, as lojas funcionam. Mas aqui, não. Como as pessoas não vêm ao trabalho, o movimento cai. Com esses feriados, a queda nas vendas, durante os dias que são enforcados, chega a ser de cerca de 60% — afirma Danielle Passos, de 32 anos, dona da loja “As Cariocas Fashion“.

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Brasileiro de 25 anos é pago para viajar e postar fotos no Instagram

Carioca é ‘instagrammer profissional’, trabalho pouco conhecido no país.
Ele é contratado para divulgar destinos; veja dicas para fotografar viagens.

Paulo del Valle com um camelo em Dubai (foto: Paulo del Valle/Divulgação)
Paulo del Valle com um camelo em Dubai (foto: Paulo del Valle/Divulgação)

Flávia Mantovani, no G1

Conhecer belos lugares pelo mundo, postar fotos no Instagram e ainda ganhar dinheiro para isso. Esse emprego dos sonhos se tornou uma realidade para Paulo del Valle, um carioca de 25 anos que é uma das poucas pessoas no mundo a ter a profissão de “instagrammer profissional”.

Paulo é pago por empresas e órgãos governamentais que promovem destinos turísticos para ir até o local, tirar fotos bonitas e postá-las em seu perfil nessa rede social, onde tem mais de 252 mil seguidores.

Desde que começou a se dedicar integralmente a esse trabalho, no início deste ano, ele já esteve na Austrália, nos EUA, em Israel e em Dubai, além de em Santa Catarina e na Bahia.

O que hoje é profissão começou como um hobby desinteressado. O estudante de design fez um perfil no Instagram em 2011, três meses depois que a plataforma de compartilhamento de fotos foi lançada. Postava principalmente fotos do Rio de Janeiro, onde mora, tiradas com seu iPhone.

A qualidade das imagens chamou a atenção da equipe do Instagram, e em 2012 ele passou a ser um “usuário sugerido” — uma espécie de usuário modelo, que posta fotos boas com frequência e interage bastante com outros membros.

“Não tinha nem ideia de que isso existia. Eu nem era fotógrafo, tirava fotos dos meus amigos, de pedras, plantas, coisas aleatórias”, diz. Em duas semanas, seu número de seguidores cresceu de 1.400 para 34 mil.

Foto tirada em mesquita de Abu Dhabi (foto: Paulo del Valle/Divulgação)
Foto tirada em mesquita de Abu Dhabi (foto: Paulo del Valle/Divulgação)

Viagens

Paulo então estudou fotografia por contra própria, em livros e na internet. Trocou o celular por uma câmera e pouco tempo depois recebeu um convite de uma “instagrammer profissional” australiana para ir até o seu país, junto com outros usuários que se destacavam na rede social. O grupo viajou pela Austrália divulgando fotos dos destinos em seus perfis, para despertar em seus seguidores a vontade de conhecer o país.

Foi lá que ele viu que aquilo podia se tornar uma profissão e decidiu abandonar a marca de roupas que ele tinha com amigos. “Conheci esse novo universo e vi que aquilo era o que eu queria fazer. Meu sonho sempre foi conhecer o mundo”, diz ele.

Em seguida veio um convite para conhecer Israel e outro para ir a Florianópolis fazer trabalhos para uma marca de automóveis. Durante a Copa do Mundo no Brasil, uma marca esportiva o convidou para um trabalho em Salvador. Depois foi o órgão de promoção turística de Dubai que o chamou para gravar um programa de viagens no país.

Paulo também recebeu um convite para conhecer a sede do Instagram na Califórnia, e foi para lá com amigos.

Experiências

Durante as viagens, o brasileiro andou de camelo no deserto e de caiaque com golfinhos, segurou um bebê canguru e flutuou no Mar Morto, entre outras experiências que ele diz que nunca vai esquecer. “Fui a lugares para onde jamais pensaria em ir. Foram oportunidades incríveis”, afirma ele, que até então só tinha saído do Brasil para ir aos Estados Unidos.

Paulo diz que sua profissão está crescendo fora do país e acredita que pode se expandir também por aqui, apesar de não saber quanto tempo a tendência vai durar. “Não sei o que o futuro me reserva. Mas estou aproveitando muito o momento”, completa.

Foto de Paulo em parque nos Estados Unidos (foto: Paulo del Valle/Divulgação)
Foto de Paulo em parque nos Estados Unidos (foto: Paulo del Valle/Divulgação)

Veja as dicas de Paulo del Valle para tirar boas fotos de viagem com o celular

1 – Limpe a lente da câmera do seu celular. É comum lembrarmos de limpar a tela, mas não a lente. Isso pode influenciar no resultado das fotos.

2 – Sempre segure o celular firmemente com as duas mãos. É muito importante para que as fotos não saiam tremidas.

3 – Jamais use o zoom do celular. Ele não é um zoom ótico, como nas câmeras, e só piora a qualidade das suas fotos.

4 – Evite tirar fotos diretamente contra a luz do sol, para evitar que feixes de luz (flare) saiam na imagem. Se aparecer “flare” ao tirar a foto, coloque sua mão acima do celular, tentando bloquear a luz do sol.

5 – Ao tirar selfies, prefira a câmera traseira do celular, que possui maior qualidade, usando a função de timer (disponível no iOS 8 e alguns aplicativos). Utilizar o botão do fone de ouvido também é uma boa opção para esse tipo de foto.

6 – Acessórios são importantes. As baterias dos smartphones não aguentam o dia todo, principalmente tirando fotos. Compre uma bateria externa para garantir que não perderá chances de tirar fotos durante todo o dia. Pequenos tripés, feitos para celulares, são ótimos para aquelas situações em que não tem ninguém para tirar fotos ou quem quer tirar fotos mais avançadas, como de longa exposição e HDR.

7 – Tire muitas fotos durante o dia e deixe para editá-las depois, quando tiver tempo. Tenha paciência nesse processo, pois uma boa edição manual (controlando brilho, contraste, saturação etc.) faz toda diferença.

8 – Entenda como funciona a câmera do seu celular. No iPhone, você pode tocar na tela para focar, arrastar o dedo para controlar a exposição de luz, “trancar” o foco e usar o botão de aumentar o volume para tirar fotos. Ferramentas como HDR garantem melhores fotos no pôr do sol e no contra-luz, mas é necessário manter as mãos muito firmes ou usar um tripé, pois o telefone tira 3 fotos ao mesmo tempo e as junta em uma só.

9 – Vá além da câmera nativa do seu celular para fazer melhores fotos e vídeos. Algumas dicas de aplicativos:

– Camera+ (iOS): Tem recursos manuais, como ajustar a velocidade do obturador (ideal para fotos em movimento e de pulos), permite tirar várias fotos por segundo, possui timer, foco manual e muitas outras funções.

– Cortex Camera (iOS): Permite tirar fotos de ótima qualidade em baixas condições de luz, sem a necessidade de flash.

– Average Cam Pro (iOS): Faz fotos com aspecto profissional de longa exposição com o iPhone e dá um efeito incrível a fotos de cachoeiras e mar. Exige o uso de um tripé.

– Hyperlapse (iOS): Para fazer timelapses das viagens sem a necessidade de equipamentos caros, como câmera e tripé.

10  Utilize aplicativos para editar suas fotos e vídeos. Algumas dicas:

– VSCOcam (iOS e Android – Grátis): Tem filtros incríveis disponíveis gratuitamente, além de opções pagas.

– Snapseed (iOS e Android – Grátis): Oferece muitas ferramentas de edição manual.

– TouchRetouch (iOS e Android): Ótimo para dar retoque final, removendo coisas indesejadas de fotos, como lixo na rua ou imperfeições no rosto.

– Over (iOS e Android): Bom para escrever textos sobre as fotos de viagens, com muitas fontes e gráficos.

– Mappr (iOS): Permite colocar a localização de qualquer lugar do mundo nas fotos.

– Videon (iOS): Permite editar filmes controlando brilho, contraste, saturação e muito mais. Oferece ainda muitos filtros, junção de vários vídeos e adição de trilha sonora.

 

 

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Suzane von Richthofen: “Não virei pastora evangélica, apenas frequentei alguns cultos”

Suzane Von Richthofen: “Quero que as pessoas saibam que sou um ser humano comum. Cometi um erro, estou pagando por ele e quero recomeçar minha vida” (foto: André Vieira)
Suzane Von Richthofen: “Quero que as pessoas saibam que sou um ser humano comum. Cometi um erro, estou pagando por ele e quero recomeçar minha vida” (foto: André Vieira)

título original: Suzane von Richthofen nega suposto abuso do pai e diz que sonha em ser mãe: “Quero a chance de recomeçar”

Maria Laura Neves, na Marie Claire

Ela diz que sonha com a mãe, toma antidepressivos e reza antes de dormir. Trabalha na oficina de costura do presídio, gosta de bordar e de livros de autoajuda. Condenada por ter planejado o assassinato dos pais em 2002, Suzane von Richthofen recebeu Marie Claire em Tremembé (SP), onde cumpre pena, para sua primeira entrevista em oito anos. Em uma longa conversa, negou boatos de que seria abusada pelo pai e afirmou que sonha em ter uma família.

“Isso aqui é o paraíso”, me disse uma das presas quando cheguei ao presídio de segurança máxima de Tremembé para o concurso Miss Primavera 2014, a festa que, todos os anos, elege a detenta mais bonita da prisão. O paraíso a que ela se referia é a quantidade de pretendentes disponíveis na cadeia. São dezenas de mulheres que, muitas vezes heterosse­xuais antes de serem presas, encontram na companheira de cela um alento para a solidão. Enquanto me contava sobre os preparativos para o concurso – as sessões de ginástica, os ensaios sobre o tablado – e os romances entre as detentas, uma outra presa, candidata a miss, disse: “A mulher dela vai ser a jurada representante das presas no concurso”, apontando para a colega que “se sente no paraíso”. “Moramos todas na mesma cela”, completou. Minutos depois, o locutor da festa chamou a detenta para participar do júri. Sob aplausos, gritos e assovios das colegas, Suzane von Richthofen, 31 anos, sentou na mesa dos jurados.

O concurso é a grande comemoração de Tremembé, o evento para o qual as detentas se preparam o ano todo, e também uma estratégia de disciplina do comando da prisão. “Só podem participar as que têm bom comportamento”, afirma a diretora da penitenciária, Eliana Maria de Freitas Pereira. A festa de 2014 teve o tradicional desfile das candidatas e apresentações de dança. Uma dupla de detentas dançou ao som de “O Show das Poderosas”, de Anitta; outras fizeram coreografias ensaiadas nas semanas anteriores. No fim da noite, dançavam sob a chuva e cantavam, extasiadas, “Beijinho no Ombro”, de Valesca Popozuda. Nesse momento, me aproximei da presa que disse se sentir no paraí­so e dançava ao lado de Suzane. Perguntei se topava dar entrevista. Depois da negativa, pedi, então, que me apresentasse para a colega, a presa mais famosa do Brasil.

Esta foi a primeira vez que Suzane topou participar de uma festa da penitenciária onde cumpre pena desde 2007. Ela, que sempre fugiu dos holofotes, anda mudada, dizem as colegas. Está mais sorridente e conversadora. Surpreendeu a todos quando se candidatou a jurada do concurso, tanto que as presas que concorriam à vaga desistiram do posto em solidariedade a ela.

Em Tremembé, a maior parte dos funcionários e detentas torce por Suzane. Os primeiros por causa de seu comportamento exemplar; as segundas, porque a consideram simples e simpática. “As outras presas famosas são mais fechadas”, disse uma detenta, que não quer ser identificada, sobre Anna Carolina Jatobá, condenada a 26 anos pelo assassinato da enteada Isabella Nardoni, e Elize Matsunaga, acusada de esquartejar o marido, Marcos Kitano Matsunaga, CEO da indústria de alimentos Yoki.

Dias depois da festa, a diretora do presídio me disse que Suzane falaria à Marie Claire com algumas condições: o passado, a noite do crime e a relação com outras presas não poderiam ser abordados na conversa. Imposições aceitas, a doutora Eliana, como é conhecida, me recebeu em sua sala no presídio e pediu para chamar Suzane, que estava na oficina de costura da cadeia, onde é funcionária.

Ela entrou tímida na sala em que eu, o fotógrafo André Vieira e a doutora Eliana a aguardávamos. De uniforme azul, Crocs nos pés, unhas vermelhas e cabelos soltos, nos cumprimentou sorrindo e recusou a água e o café que lhe oferecemos. Visivelmente tensa e insegura, sentou à nossa frente com as mãos entre as pernas. De cara, pediu que não ligássemos o gravador. “Tive experiências ruins no passado com outras entrevistas”, disse, temendo que o áudio fosse divulgado na TV. Antes de responder a cada pergunta, buscava a aprovação da diretora com o olhar. Negou-se a responder as mais delicadas, hesitou em tantas outras ou as comentou laconicamente.

Suzane não quis falar sobre os irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, respectivamente o ex-namorado e o ex-cunhado que mataram seus pais, o engenheiro Manfred Alfred e a psiquiatra Marizia von Richthofen, com golpes de barras de ferro, em um plano elaborado e acobertado por ela em 2002.

Em nenhum momento se emocionou, mas disse que havia chorado naquela manhã com medo de dar entrevista. Falou dos pais com carinho e, algumas vezes, como se não tivesse participado da morte deles. Contou que há algumas semanas levou um tombo em que bateu a nuca e ficou desacordada. Quando despertou, não conseguia falar nem se mexer. “Fiquei assustada”, afirmou. O episódio, segundo ela, teria mudado sua vida. “Percebi que a vida pode ir embora em um minuto”, disse, como se fosse seu primeiro contato com a morte. Também se referiu ao crime como se tivesse “acontecido” e não sido praticado por ela.

Com um português correto e a voz doce, explicou o motivo pelo qual decidiu falar. “Quero que as pessoas saibam que sou um ser humano comum. Cometi um erro, estou pagando por ele e quero recomeçar minha vida.” Segundo as colegas de cadeia, a “nova” Suzane, mais alegre e aberta, é fruto do rompimento com o advogado Denivaldo Barni, amigo de seus pais que a acompanhou durante todos estes anos e foi flagrado orientando a cliente a chorar em uma entrevista para o “Fantástico”, em 2006. Isso porque Barni exerceria uma proteção obsessiva sobre ela, a ponto de impedir amizades.

Vários motivos teriam levado Suzane a romper com o advogado. De acordo com pessoas próximas, Barni queria que ela fosse trabalhar em seu escritório, em São Paulo, durante o semiaberto. Suzane teria negado o convite, para sua decepção, e teria desistido de brigar na Justiça com o irmão Andreas von Richthofen, 27, pela herança dos pais, batalha da qual Barni não abriria mão. Procurado pela reportagem, o advogado negou o rompimento e disse que não é mais responsável pelos processos de Suzane.

Suzane e os jurados aplaudem as participantes do concurso Miss Primavera 2014 (foto: André Vieira)
Suzane e os jurados aplaudem as participantes do concurso Miss Primavera 2014 (foto: André Vieira)

A VIDA NA PRISÃO
Hoje, ela trabalha na mesa de distribuição de tarefas da oficina de costura da Funap (Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel, que emprega presos dentro de cadeias paulistas), onde coordena as funções de outras detentas. Admitida em 2008, recebeu promoções e hoje ocupa o cargo máximo na hierarquia, pelo qual recebe R$ 705 mensais. Diz que guarda boa parte do dinheiro e gasta o restante com compras de supermecado organizadas no presídio, que incluem produtos de higiene pessoal e alimentos, e também com consultas com um dentista particular que atende ali dentro.

Quando cheguei, fiz o caminho de todo mundo: comecei varrendo o pátio, um trabalho que não tem salário mas conta para remissão da pena. Depois fui servir comida, com uma pequena remuneração. Na sequência, virei monitora da educação, era a assistente da professora e dei aulas de inglês para um grupo de presas até que entrei na oficina.”

Ela começa a trabalhar às 7h30, almoça na cela das 11h30 às 13h e encerra o expediente às 17h. Nos dois turnos, há uma pausa de 15 minutos para o café, momentos em que faz caminhadas. “Até aqui dá para ter alguma vaidade”, diz. Entre os rituais de beleza, passa hidratante no corpo, pinta as unhas,  corta e hidrata os cabelos. Todos os pertences ficam em uma prateleira perto de sua cama. “São algumas cartas e unifomes. Se tenho algo fora da cadeia, não sei”, disse.

Ela conta que aprendeu a fazer trabalhos manuais – bordou toalhas de mesa, fronhas – e que lê muito. Gosta de obras de ficção, como as do americano Nicolas Spar­ks, e de autoajuda. No momento diz estar lendo “Quem Me Roubou de Mim?”, do padre Fábio de Melo.

“NÃO SOU FRESCA”
Nascida e criada em uma família de classe média alta, Suzane afirmou que se surpreende com os hábitos e histórias de vida das colegas. “Outro dia uma presa colocou a escova de dentes no chão. Ela não sabia que não podia fazer aquilo por causa da sujeira. Isso me fez ver que as pessoas não sabem regras básicas de higiene e valorizei ainda mais a educação que tive.” A diferença social, segundo ela, não é um problema. “Depois que me conhecem, as presas veem que não sou fresca e se surpreendem quando sento no chão para comer com elas.”

Suzane não recebe visitas. Contou que deixou de falar com o irmão há 11 anos, quando ele ia vê-la aos domingos na Penitenciária Feminina da Ca­pital, o primeiro presídio em que cumpriu pena. “Ele era um menino e nos despedimos como se fosse voltar na semana seguinte”, disse. O motivo da desavença seria a disputa pela herança. Ela diz que hoje Andreas se tornou professor universitário e mora com a avó materna e o tio, os únicos parentes dos Richthofen.

“Meu grande sonho é me reconciliar com meu irmão”, disse. “Sei que não tenho direito ao que era dos meus pais, nada daquilo me pertence. Dele [Andreas], quero apenas o amor e o perdão.” Andreas não respondeu às perguntas enviadas por Marie Claire.

A mãe, disse, é tema recorrente de seus sonhos. “São sempre coisas boas, como se ela viesse para me proteger.” Batizada na igreja protestante, Suzane acredita em vida após a morte, em reen­carnação, e diz que reza ao acordar e antes de dormir. “Não virei pastora evangélica, apenas frequentei alguns cultos.” Afirmou ainda que se emocionou quando a diretora do presídio contou que seria avó. “Imaginei como minha mãe receberia essa notícia.” Também negou o boato de que era abusada pelo pai. “Isso nunca aconteceu.”

SONHO DE SER MÃE
Sobre a privação da liberdade, disse que sente falta da noite ao ar livre – as presas voltam para a cela antes do anoitecer. “Fico paralisada quando vejo o céu e as estrelas. A noite tem um cheiro característico que a gente não percebe normalmente.” Também contou que não usa roupas comuns há anos. “Não sei mais o que é colocar uma calça jeans ou vestir preto.” Hoje, Suzane toma fluoxetina, antidepressivo prescrito pela psiquiatra do presídio. “Quando cheguei aqui só chorava, mas nunca tive dificuldade para dormir.”

Suzane acha que não consegue se perdoar, que será difícil ser completamente feliz, mas que o é na medida do possível. “Não tem como olhar no espelho e não lembrar  [do crime]. Cometi um erro, vou lembrar dele para sempre. Todos os dias penso que queria acordar e ver que tudo foi um pesadelo.” Contou que recentemente esteve presa em Tremembé a mãe de um amigo de infância, que lhe disse os rumos de sua turma de escola.

“Um foi morar em Dubai, o outro na Alemanha. Acho que [se não tivesse cometido o crime] estaria morando fora, talvez tivesse filhos.” Seus planos são mudar-se para o novo pavilhão de Tremembé e continuar trabalhando na Funap, onde “faz o que gosta”. Quer voltar a estudar e diz que sonha em ser mãe e construir uma família. “Estou pagando pelo meu erro e quero a chance de recomeçar”, disse, com uma candura que não combina com o crime estarrecedor que ela planejou.

 

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Big Bang e Teoria da Evolução não contradizem cristianismo, diz Papa

Francisco ainda criticou interpretação errada do Gênesis: ‘Deus não é mago’.
Declarações foram feitas à Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.

Papa Francisco fez declarações sobre a ciência durante inauguração de busto em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI (foto: Osservatore Romano/Reuters)
Papa Francisco fez declarações sobre a ciência durante inauguração de busto em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI (foto: Osservatore Romano/Reuters)

Publicado no G1

O Papa Francisco afirmou nesta segunda-feira (27), durante discurso na Pontifícia Academia de Ciências, que a Teoria da Evolução e o Big Bang são reais e criticou a interpretação das pessoas que leem o Gênesis, livro da Bíblia, achando que Deus “tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas”.

Segundo ele, a criação do mundo “não é obra do caos, mas deriva de um princípio supremo que cria por amor”. “O Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige”, disse o pontífice na inauguração de um busto de bronze em homenagem ao Papa Emérito Bento XVI.

O Big Bang é, segundo aceita a maior parte da comunidade científica, a explosão ocorrida há cerca de 13,8 bilhões de anos que deu origem à expansão do Universo. Já a Teoria da Evolução, iniciada pelo britânico Charles Darwin (1809-1882), que prega que os seres vivos não são imutáveis e se transformam de acordo com sua melhor adaptação ao meio ambiente, pela seleção natural.

O Papa acrescentou dizendo que a “evolução da natureza não é incompatível com a noção de criação, pois exige a criação de seres que evoluem”.

Ele criticou que quando as pessoas leem o livro do Gênesis, sobre como foi a origem do mundo, pensam que Deus tenha agido como um mago. “Mas não é assim”, explica.

Segundo Francisco, o homem foi criado com uma característica especial – a liberdade – e recebe a incumbência de proteger a criação, mas quando a liberdade se torna autonomia, destrói a criação e homem assume o lugar do criador.

“Ao cientista, portanto, sobretudo ao cientista cristão, corresponde a atitude de interrogar-se sobre o futuro da humanidade e da Terra; de construir um mundo humano para todas as pessoas e não para um grupo ou uma classe de privilegiados”, concluiu o pontífice.

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Suzane Richthofen se casa dentro da cadeia. Com uma sequestradora

Casal vive em cela especial desde setembro. Antes, parceira de Suzane mantinha relacionamento com Elize Matsunaga

Suzane von Richthofen está presa desde 2002

Publicado na Veja on-line

Suzane Von Richtofen se casou. A nova parceira da detenta, que está há 12 anos encarcerada na penitenciária de Tremembé, no interior paulista, é Sandra Regina Gomes, condenada a 27 anos de prisão pelo sequestro de uma empresária em São Paulo. As informações foram divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira.

A história de amor entre Suzane e Sandra tem nuances dignos de trama de novela. Antes do enlace entre as duas, Sandra vivia maritalmente com Elize Matsunaga, presa pela morte e esquartejamento do marido Marcos Kitano Matsunaga, em junho de 2012.

O casal se conheceu na fábrica de roupas que funciona dentro do presídio e onde Suzane ocupa um cargo de chefia. Ao perceber o interesse de Suzane por Sandra, o relacionamento com Elize acabou. O triângulo amoroso acabou por romper a amizade entre as presas.

Desde setembro deste ano Suzane e Sandra passaram a dormir em uma cela especial destina a presas casadas. Lá, dividem o espaço com mais oito casais. Antes Suzane ocupava uma ala especial, destinada a presas evangélicas, desde 2002, quando foi presa pelo assassinato dos pais Manfred e Marísia von Richthofen, mortos a pauladas a mando de Suzane.

Para poder dormir com seu novo amor, a ex-estudante teve de assinar um documento de reconhecimento de relacionamento afetivo, exigido para todas as presas que resolvem viver juntas.

Em Tremembé, esse papel funciona com uma certidão de casamento. Permite o convívio marital, mas também impõe regras de convivência aos casais.

Após assinatura desse compromisso, por exemplo, caso se separe, a presa não poderá voltar à cela especial – única destinada a casais –em um prazo de seis meses.

Por já ter vivido com Elize no espaço, Sandra teve que passar por uma quarentena antes de poder assumir o relacionamento com Suzane. Ela é apontada também como o principal motivo para que Suzane abrisse mão do regime semiaberto. Em agosto passado, a juíza Sueli de Oliveira Armani concedeu a chamada “progressão de regime”, mas a moça abriu mão do benefício.

Os advogados tentavam essa decisão desde final de 2008 e começo de 2009. Surpreendentemente, Suzane pediu à magistrada para adiar sua ida para o regime semiaberto e permanecer na cadeia em tempo integral.

Se aceitasse o benefício, seria transferida para outra unidade, já que a unidade feminina de Tremembé onde elas estão só tem autorização para receber presas em regime fechado.

Recentemente, Suzane abriu mão de lutar pela herança dos pais e tenta se reaproximar do irmão, Andreas.

Por outras penitenciárias onde passou Suzane também despertou paixões. Em Rio Claro, por exemplo, duas funcionárias do presídio se apaixonaram por ela. Com isso, recebeu algumas regalias ilegais, como acesso à internet. A história só foi descoberta porque as funcionárias brigaram pelo amor de Suzane.

Em Ribeirão Preto, para onde foi transferida, um promotor teria se apaixonado por Suzane e prometido lutar para tirá-la da “vida do crime”. Ela não gostou da proposta e denunciou as investidas.

O promotor foi punido pelo Ministério Público por comportamento inadequado – ele nega o suposto assédio.

Pessoas que conversaram com Suzane recentemente afirmam que ela pretendia fazer uma cerimônia para celebrar o enlace no começo de novembro. Tinha escolhido até padrinhos. O plano, no entanto, foi adiado depois que ela soube que uma TV preparava uma reportagem sobre ela. Com medo de expor a relação, adiou o evento.

Quando foi presa, Suzane namorava Daniel Cravinhos de Paula e Silva. Teria sido em nome desse amor que eles arquitetaram a morte dos pais. O pai da menina não aceitaria o namoro porque Daniel não estudava nem trabalhava. Para concretizar o plano, contaram com a ajuda do irmão de Daniel, Cristian.

Todos foram condenados. Os irmãos cumprem pena no regime semiaberto. O Ministério Público acredita que ela foi a mentora do crime.

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