Sentar-se é o novo fumar (um vício não muito saudável)

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Publicado no El País

Não fumo, não bebo, sigo a dieta mediterrânea… Mas, você de mexe? Se o seu horário de trabalho o deixa exausto para realizar qualquer tipo de exercício físico de forma rotineira, saiba que são cada vez mais as pessoas que decidiram se manter em forma no escritório. Como? Graças às iniciativas de algumas empresas pioneiras que instalam academias para seus empregados, fornecem bolas para sentar-se ou, inclusive, favorecem reuniões em esteiras para caminhar. Lembra-se de quando proibiram fumar no trabalho? Então, para o sedentarismo não sopram ventos melhores.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou em 2013 que o sedentarismo é um dos quatro fatores de maior risco para a saúde. Estima que aproximadamente 3,2 milhões de mortes por ano se devam à inatividade física. A European Heart Network (EHN) elaborou um ranking dos países europeus com o maior índice de sedentarismo, e a Espanha ocupa o quarto posto. 42 % da população maior de 18 anos confessa “viver sentada” toda a semana, frente a 6 % na Suécia e 7 % na Finlândia.

Com a evidência científica acumulada, são muitas as iniciativas que estão em curso para tentar facilitar a prática de atividades para a população. Por isso, há anos, do outro lado do Atlântico foram desenvolvidos programas para levar o exercício físico até o escritório. Inclusive foram desenhadas cadeiras especiais que permitem exercitar a musculatura enquanto se trabalha. É o caso da Officegym, que distribui um sistema inovador que permite realizar exercícios para fortalecer o tônus muscular durante um momento de descanso no lugar de trabalho.

Giovanni Bonotto, da empresa, esclarece: “Todos nós passamos muitas horas sentados no escritório ou em casa. Nossos dispositivos, uma espécie de correias que se adaptam às cadeiras de trabalho, nos permitem, durante pequenos intervalos de descanso, realizar atividade física, algo imprescindível para manter nosso corpo em forma, garantir uma boa circulação sanguínea e, inclusive, um pouco de energia extra para sermos mais produtivos”.

Mesmo que dentro das fronteiras espanholas o conceito de mimar a saúde dos trabalhadores não esteja ainda tão difundido como nos EUA e no Canadá, já existem iniciativas pioneiras que estão dando bons frutos. É o caso da CET 10 com seu programa Wellnessjob. Sua diretora, Sandra Carballo, afirma: “Montar a academia no escritório é algo relativamente novo no país, mas muito consolidado nos Estados Unidos e em outros países da Europa”. Surge da necessidade cada vez maior, segundo afirma, de cuidar do trabalhador para reduzir as faltas ao trabalho e aumentar a produtividade. “O lugar de trabalho é onde passamos a maior parte do nosso tempo e as empresas se tornam muitas vezes o lugar mais idôneo para desenvolver programas de exercício físico (fora da jornada de trabalho se dispõe de pouco tempo livre para ir à academia). Além disso, é um valor agregado para os empregados e um incentivo de que dispõem as empresas para oferecer mais benefícios sociais aos trabalhadores e reter talentos, com o plus de conseguir funcionários mais motivados e melhorar o clima no trabalho”, explica. Na Espanha, a companhia farmacêutica Almirall é uma das empresas que oferece esse serviço aos empregados.

Sente-se, mas sobre uma bola gigante

Existem medidas mais simples, como a introdução de uma bola Fitball (bola de elastômero de grande diâmetro que se usa na no pilates, por exemplo), que permite trabalhar a estabilidade do centro do corpo. “Ao ser uma superfície instável, requer que o usuário mantenha a musculatura ativa em todo momento. É um trabalho mais funcional, já que uma das funções mais importantes dos músculos abdominais e da região inferior das costas (lombares) é estabilizar o corpo. Sentar-se sobre uma fitball obriga a manter as costas mais erguidas e em uma posição mais correta”, afirma Sandra Carballo.

Outras iniciativas vão mais longe, como a introduzida pela companhia Salo, em Minneapolis (EUA), onde foram instaladas, em uma sala de conferências, esteiras para caminhadas adaptadas com uma escrivaninha e seus respectivos computadores, que convidam os participantes da reunião a caminhar enquanto trabalham. Para os intervalos, dispõem de várias mesas de pingue-pongue.

María Giner, personal trainer, jornalista e promotora de iniciativas para exercícios no trabalho, defende: “O ideal é começar pelas coisas mais simples. Não tomar o elevador na empresa, descer do ônibus uma parada antes do lugar de trabalho e ser consciente de que o corpo humano não foi feito para a inatividade”. Lembra, de fato, que devem ser feitas pausas a cada duas horas para levantar-se da cadeira. São gestos simples, como ter uma bola de espuma de borracha que possamos apertar entre as coxas enquanto estamos trabalhando. “Isso tem grande utilidade para a musculatura das pernas e o fortalecimento dos ligamentos do joelho, assim como para revigorar o assoalho pélvico”, diz.

Quando não se pode trabalhar e fazer certos exercícios ao mesmo tempo, a especialista incentiva que se façam manobras para aliviar nossa tensão corporal, como rotações circulares do pescoço, “sem nunca deixar a cabeça cair para trás”.

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Para produzir mais, funcionários devem tirar mais folgas

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publicado na Exame

Um novo estudo da Universidade de Toronto descobriu o que, no fundo, já sabíamos: as pessoas não foram feitas para trabalhar por oito horas seguidas sem descanso.

Muito pelo contrário. As pessoas mais eficientes são aquelas que se concentram em uma tarefa e, logo depois, fazem uma pausa.

Isso acontece porque o cérebro tem um estoque limitado de energia psicossocial, disse John Trougakos, coautor da pesquisa e professor do departamento de Comportamento Organizacional e Gerenciamento de Recursos Humanos.

“Todos os esforços de controlar o comportamento para produzir e manter o foco esgotam a fonte de energia psicossocial. Uma vez que a energia se esgota, nos tornamos menos eficientes em tudo que fazemos”, diz ele.

A pesquisa se baseia em um mapeamento feito na empresa de redes sociais Draugiem Group. A partir do aplicativo DeskTime, os pesquisadores mapearam como as horas de trabalho eram gastas e quanto trabalho estava sendo realizado.

O resultado foi surpreendente. As pessoas mais produtivas não trabalhavam mais do que as demais. Sequer completavam as oito horas diárias de trabalho.

Elas faziam mais pausas. A chave para ser mais produtivo, segundo esse estudo, são folgas de 17 minutos a cada 52 minutos trabalhados.

Mas não adianta usar esses minutos de folga para checar e-mails ou assistir vídeos no YouTube. Para ser efetiva, a pausa precisa ser feita longe do computador – andando, tomando um café, lendo um livro ou conversando com colegas.

A pesquisa sugere que as empresas ofereçam um horário de almoço razoável, além de permitir que os funcionários tirem pausas de qualidade, sem medo de serem taxados de preguiçosos ou folgados.

Outro segredo das pessoas mais produtivas é trabalhar com um propósito. A lista de tarefas deve ser realista e objetiva.

“Trabalhar com propósito também pode ser chamado da teoria de dedicação 100%”, disse Julia Gilford à revista Muse, quando postou os resultados da pesquisa. Ou seja, a noção de que tudo o que você faz, faz totalmente concentrado.

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Negligenciar matemática prejudica saúde, emprego e vida em geral

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Publicado no HypeScience

É comum pensar que matemática não serve para nada, e que tudo aquilo que aprendemos na escola é uma perda de tempo. No entanto, não ter habilidades matemáticas é uma má notícia para a nossa carreira, escolhas de vida e até mesmo para nossa saúde mental.
Muitos estudantes têm verdadeiro medo de matemática, um sentimento impulsionado por uma cultura que está constantemente tentando nos convencer de que ela é difícil e inútil.

No entanto, o tempo passa e nossas vidas pessoais e profissionais tornam-se cada vez mais dependentes da nossa capacidade de compreender e processar números, que hoje simplesmente não é boa.

De acordo com dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), uma rede mundial de estimativa do desempenho escolar coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil está na 58ª posição do ranking em matemática. O primeiro lugar é da China. Abaixo do Brasil, aparecem Argentina (59ª) e Peru (65ª).
De 2009 a 2012, o Brasil ganhou pontos no ranking em matemática, passando de 386 a 391, mas a melhora não foi suficiente para que o país avançasse de posição e, apesar da melhora, 2 em cada 3 alunos brasileiros de 15 anos não conseguem interpretar situações que exigem apenas deduções diretas da informação dada, e não são capazes de entender percentuais, frações ou gráficos.

A numeracia que poucos têm, ou a matemática que é pouco ensinada

Alfabetização matemática não implica proficiência em algumas das áreas mais avançadas de matemática, como cálculo ou trigonometria. Em vez disso, descreve o conhecimento e as habilidades necessárias para gerenciar com eficácia as demandas matemáticas de diversas situações.

Também chamada de numeracia, a alfabetização matemática não requer o conhecimento da “matemática escolar”, mas sim um nível mínimo de competência necessária para compreender e manipular números.
É a capacidade de um indivíduo de identificar e compreender o papel que a matemática desempenha no mundo, fazendo julgamentos bem fundamentados e usando a matemática de forma que atenda às suas necessidades como um cidadão construtivo, preocupado e reflexivo.
Alfabetização em matemática, portanto, é menos sobre as habilidades com equações complexas e mais sobre a capacidade de realizar operações mecânicas com números e símbolos.
Numeracia também pode envolver o que o matemático Sol Garfunkel chama de “alfabetização quantitativa”, a habilidade de fazer conexões quantitativas sempre que a vida exige (como ser confrontado com resultados de testes médicos conflitantes, e precisar decidir se submeter a um ou outro procedimento) e “modelagem matemática”, ou a capacidade de resolver na prática problemas cotidianos e formulações matemáticas (como decidir se é melhor comprar ou alugar uma casa).

Necessidade gritante

A nossa necessidade de matemática nunca foi tão grande. Cada vez mais tem uma influência pronunciada sobre nossas escolhas fiscais e até mesmo sobre nosso risco no que tange à saúde. Tem até sido associada com uma susceptibilidade reduzida ao efeito de enquadramento (um viés cognitivo no qual as pessoas reagem às opções dependendo se elas são ou não apresentadas de uma forma positiva ou negativa), a tendência de escolha lógica sobre a emoção, e uma maior consciência dos riscos que têm um componente numérico envolvido.

Tão importante quanto isso, a numeracia também tem um impacto significativo em nossas carreiras. Tendo em conta que o mundo está se movendo em direção a uma economia baseada no conhecimento, a falta de habilidade matemática é uma grande preocupação que afeta não só nossas oportunidades, mas também nossa capacidade de avaliar criticamente as informações a nós apresentadas, tirando nossas próprias conclusões, ao invés de alguém ter que nos dizer o que elas significam.

De fato, muitas profissões exigem pelo menos um senso rudimentar de matemática, incluindo contabilidade, análise de risco, finanças, engenharia, arquitetura, ciências sociais, planejamento urbano e outras, incluindo trabalhos fora das áreas especializadas.
Não saber matemática reduz as chances de emprego e promoções, resultando em carreiras não qualificadas, empregos de baixa remuneração e desemprego.

De acordo com a pesquisa PISA, a proficiência em matemática é um forte preditor de resultados positivos para jovens adultos, que influencia seus ganhos futuros. As competências de base em matemática têm um grande impacto sobre as oportunidades de vida dos indivíduos, aumentando o acesso das pessoas a empregos melhor remunerados e mais gratificantes, além de estarem intimamente relacionadas à forma como a riqueza é compartilhada dentro das nações.

Além disso, a pesquisa mostra que as pessoas com fortes habilidades em matemática também são mais propensas a se voluntariar, se veem mais como atores e não como objetos de processos políticos e são mais propensas a confiar nos outros. Justiça, integridade e inclusão nas políticas públicas, portanto, também dependem das competências matemáticas dos cidadãos.
Solução simples

Taxas de numeracia baixas e até mesmo a relutância em se concentrar em áreas mais avançadas de matemática são, em grande parte, a consequência de uma cultura antimatemática. Não é raro ouvir os alunos queixarem-se de quão chata, difícil ou inútil ela é. Claramente, essa cultura tem que mudar.

Mas, para isso, também que temos que levar a conta a ansiedade que a matemática produz, uma condição real com consequências para a saúde mental. Ansiedade matemática é um sentimento de tensão, apreensão ou medo que interfere com o desempenho de matemática das pessoas. Pesquisas já mostraram que os indivíduos com ansiedade matemática têm pior memória de trabalho, o que é provavelmente causado por uma interrupção de processos centrais no cérebro.

Estudos anteriores também mostraram que confiança pode amenizar essa ansiedade. Por exemplo, a ameaça de reputação quando se trata de desempenho ruim em matemática causa ansiedade. Estudos têm demonstrado que mulheres se saem melhor em testes quando usam nomes falsos. Ao assumir um outro nome – quer se trate de um masculino ou feminino -, as mulheres podem anular a ameaça de manchar sua reputação (e provar o falso estereótipo de que são ruins de conta) e usam suas verdadeiras habilidades matemáticas.
Além disso, ansiedade matemática é mais sobre a antecipação de fazer contas do que sobre fazer contas. Só de pensar nisso, o cérebro de uma pessoa pode mostrar os mesmos sinais do que quando ela está sentindo dor. Então, como aliviar a ansiedade matemática? E como podemos deixar de lado a cultura antimatemática predominante?

Tudo se resume à qualidade da educação e como a matemática é apresentada, diz Garfunkel.
Diferentes conjuntos de habilidades matemáticas são úteis para diferentes carreiras, e a educação matemática tem que refletir isso.
Por exemplo, quantas vezes a maioria dos adultos se encontrou uma situação em que eles precisaram resolver uma equação quadrática? Será que eles precisam saber o que é um número complexo?

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Claro, matemáticos, físicos e engenheiros profissionais precisam saber de tudo isso, mas a maioria dos cidadãos tiraria melhor proveito do estudo de hipotecas, programação de computadores e leitura de resultados estatísticos de um ensaio clínico, para citar alguns exemplos.
Um currículo de matemática que incida sobre os problemas da vida real exporia os alunos a ferramentas abstratas de matemática, especialmente a manipulação de quantidades desconhecidas, mas não focaria somente no ensino da matemática “pura”, sem contexto, e sim ensinaria problemas relevantes que levariam os alunos a apreciar a maneira como um modelo de fórmula matemática esclarece situações do mundo real.

Outra mudança positiva seria abolir o uso da misteriosa variável “x”, que muitos estudantes se esforçam para entender, e passar para uma abordagem contextual, no estilo que os cientistas trabalham, introduzindo fórmulas com abreviaturas para quantidades simples, como a famosa equação de Einstein, “E = mc2”, onde “E” representa energia, “m” massa e “c” velocidade da luz.

Garfunkel nos pede para imaginar álgebra, geometria e cálculo sendo substituídos por coisas como finanças, contabilidade e engenharia básica. Assim, no curso de finanças, os alunos aprenderiam a usar fórmulas em planilhas e estudar orçamentos de pessoas, empresas e governos, e no curso de engenharia básica, aprenderiam o funcionamento de motores, ondas sonoras, sinais de TV e computadores etc.
O que você acha? Com certeza, seria uma nova visão da matemática nas escolas, mas traria, de fato, melhores resultados para a sociedade?

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‘Como é possível, na era da felicidade, não ficar doente de tristeza?

Para analista, redes sociais impulsionam busca pela perfeição – mas há saída: “Ninguém está propriamente bem. E nunca foi problema não estar feliz o tempo todo”.

foto: Paulo Giandalia/Estadão
foto: Paulo Giandalia/Estadão

Marilia Neustein, no Estadão

Para a psicanalista Maria Lucia Homem, o interesse em assuntos do universo da psicanálise é cada vez maior. E há uma razão clara para isso. O ser humano, diz, está mais aberto a se descobrir e enfrentar seus sofrimentos: “As pessoas fazem análise e não acham que são loucas por causa disso. Isso é uma revolução. O sujeito contemporâneo sabe onde buscar ferramentas para se perguntar o que é a depressão, o que é a loucura, a violência, o racismo, a guerra”.

Segundo a analista lacaniana, formada pela USP e com especialização no Collège International de Philosophie da Universidade de Paris 8, as redes sociais contribuem para que vivamos em uma espécie de Show de Truman – em escala planetária. “Trata-se de um grande circo contínuo, divertido, engraçado e feliz, um delírio. Isso tem um custo. A clínica mostra isso claramente”, diz a professora da Faap – que ministra curso, dia 16, sobre cinema e psicanálise na Casa do Saber. Para ela, a psicanálise ajuda nesse processo porque atua no “backstage” e dá espaço para que os pacientes possam… falar. “Falar transforma uma pessoa. Simples assim.”

Abaixo, os principais trechos da conversa com a coluna, na casa de Maria Lucia, no bairro paulistano da Lapa.

Existe uma curiosidade por temas da psicanálise. Andrew Solomon foi aplaudido de pé na Flip e o suicídio de Robin Willians, amplamente debatidos nas redes sociais. Há um crescimento e uma popularização desse interesse?
Sem sombra de dúvidas. Freud foi uma figura importantíssima para fazer uma espécie de divulgação de uma outra concepção de subjetividade. Hoje, qualquer pessoa, em muitos meios, conhece a palavra “inconsciente”. E também termos como “ego”, “superego”, “ato falho”, “recalque”. São palavras que já estão em pleno uso. Então, nós podemos dizer que, inconscientemente, somos todos freudianos. Já estamos há cem anos sensíveis a nos observarmos de um ponto de vista mais sofisticado e menos ingênuo.

Como assim?
Já não achamos que existem forças transcendentais que guiam as nossas cabeças – isso, claro, dentro de uma massa ocidental e intelectualizada. As pessoas fazem análise e não acham que são loucas por causa disso. Isso é uma revolução. O sujeito contemporâneo vem com essa bagagem, ele sabe exatamente onde buscar ferramentas para fazer perguntas a si próprio. Esse interesse é crescente. As pessoas se perguntam: o que é a depressão, o que é a loucura, a violência, o racismo, a guerra?

E como a psicanálise ajuda nesse entendimento?
A psicanálise é uma ferramenta gigantesca, uma lupa. É como se a gente descobrisse uma espécie de microscópio da alma. Para mim, isso é pedagógico. Triste, mas, ao mesmo tempo maravilhoso.

Percebe isso no consultório?
Lógico. Um dos grandes problemas da clínica contemporânea é uma “psicologização” dos pacientes. Eles já chegam dizendo: Eu tenho um trauma de infância” ou: “Eu tenho histórico de abandono”. O paciente chega com uma etiqueta. E aí você precisa desmontar isso para começar o processo analítico real. É muito comum escutar “sou depressivo”. E, na verdade, nós, profissionais, sabemos muito mais do que esse senso comum a respeito da depressão.

O que, por exemplo?
Tem um texto que eu gosto da Elisabeth Roudinesco (historiadora e psicanalista francesa) que explica como a lógica da nossa sociedade é depressiva, ou é – para ser mais precisa – “depressivante”. Não tem como – em uma cultura pautada pelo ideal da felicidade – não existir infelicidade. Vivemos na era do imperativo, do “be cool”, “be happy”. As pessoas têm de estar sempre se divertindo, viajando, na distração, no delírio, no bliss. Mas a própria definição do momento de êxtase é aquilo que é raro – e as pessoas transformam isso em algo necessário. Existe uma inversão muito clara. Queremos tornar o impossível possível. E nos frustramos por nos sentirmos fracassados perante esse ideal.

Que ideal é esse?
Sei lá, meu primeiro milhão, minha casa, meu casal lindo de filhos. Então, a clínica nos mostra que existe um gap entre o que a pessoa é e o que ela acha que tem de ser; como ela acha que deveria estar se sentindo e como o outro espera que ela seja. As coisas ficam embaralhadas e o resultado é que se sofre muito. Esta é uma das razões que fazem com que as pessoas tenham mais interesse a respeito desses assuntos. Porque ninguém está propriamente bem. E nunca foi problema não estar feliz o tempo todo.

Isso é um problema do nosso momento histórico?
Com certeza. Não que a gente não tenha tido ideais desde sempre. Sempre houve melancolia – isso é retratado pelos gregos. Mas uma coisa é retratar a melancolia como quadro possível, outra coisa é colocar a felicidade, o prazer e o entretenimento como obrigações contínuas. Todas as estatísticas mostram que estamos em uma epidemia de sintomas mentais em que depressão, pânico e transtornos alimentares são a ponta de lança. Como não estar doente de tristeza na era da felicidade? Como não estar doente de desemparo, de medo, de pânico quando todas as redes de amparo estão esgarçadas? O individualismo mata os elos comunitários. É um paradigma que não tem como não jogar o sujeito no desamparo. Os iguais são seus concorrentes e você tem de se destacar. Então, como é possível não ter medo? Como o pânico, a fobia, a fragilidade não vão ser os sintomas básicos de um era que só prega o ideal de força, potência e vitória? E como não ter transtorno ou distúrbios com o corpo e com a imagem que se tem de si em um universo que dita o tempo todo o corpo que você deve ter: jovem, magro e belo?

As pessoas querem mandar uma no corpo da outra?
Sim, e isso é muito autoritário. Quer maior autoritarismo do que o conceito de “humanos, não envelheçam” – sobretudo mulheres? Vivemos em uma cultura que diz “tempo, não passe”. Ora, isso é impossível. Então, estamos numa luta inglória, dando murro em ponta de faca com grandes preceitos da vida. Como não sofrer? Como não ter uma forma de defesa psíquica com isso tudo?

E você acha que o amor e o casamento também sofrem com essa ‘superidealização’?
Claro. É interessante analisar as estatísticas do momento, mas cerca de metade das relações termina em divórcio. As pessoas mais se desencontram do que se encontram. E ao se encontrarem – aquele encontro real mesmo, quando ‘bate o santo’, tem química, identificação do inconsciente – não é tão óbvio, é mais raro, é quando você está muito à vontade com alguém e quer dar o seu melhor. Ainda assim, quando há tudo isso, é muito difícil manter essa sensação. Porque você também está operando em um real “hiperfetichizado” do que seria o amor, o casamento, o casal, o comercial de margarina. Exigimos muito do outro – o mesmo tanto que exigimos de nós mesmos. Entretanto, os afetos, no meio disso, pulsam – graças a Deus. E é justamente porque eles pulsam que a gente acaba sofrendo. O afeto não mente.
Mas há, hoje em dia, um resgate dos casamentos mais tradicionais, com cerimônias religiosas. Isso é um aspecto interessante. Eu vejo que os rituais simbólicos têm uma importância, mantiveram um valor simbólico, o peso da tradição – para usar uma expressão clichê. Aquilo que sempre foi feito carrega um peso simbólico que pode ser interessante.

Como assim?

Para além dessa leitura meio superficial de que vivemos em um momento de “caretização” global. Acho que é mais complexo do que isso. Eu ousaria colocar lenha na fogueira e dizer que a gente pode olhar para trás e se perguntar: o que posso aprender com quem viveu antes de mim? Enterramos os mortos, alguma sabedoria isso deve ter. É útil? A rigor não sei se é. Mas talvez a gente precise desse ritual simbólico para elaborar a perda, a nossa própria consciência enquanto seres mortais. Então, eu quero acreditar que esse retorno pode ter alguma sabedoria. “Ritualizar” as uniões ou os pactos pode ter alguma força, mas isso é a leitura mais interessante que eu poderia fazer do fenômeno. Entretanto, há um rebote.

Qual?
A gente não faz essa ritualização, por exemplo, do casamento ou dos aniversários das crianças só como uma forma de reflexão, de simbolizar as passagens. As pessoas “espetacularizam”, contratam o buffet x, as flores y, o vestido não sei como, transformam tudo em um grande evento, por onde circula muito dinheiro. Depois, vêm a infelicidade e a separação.

Isso tem tudo a ver com as redes sociais?
Sim, acredito que a lógica da rede social é transformar o seu ‘eu’ em várias imagens postadas numa lousa chamada mural (Instagram). Ou em um local chamado linha do tempo (Facebook).

E as pessoas só postam imagens felizes…
Isso anda junto. Quando a gente trabalha com essas formas de apreender o mundo, estamos falando em fazer um Show de Truman (filme protagonizado por Jim Carrey, que descobre que sua vida, na verdade, é um programa de TV) em escala planetária. É um grande circo contínuo, divertido, engraçado e feliz, um delírio. Só que isso tem um custo e a clínica mostra isso. Claramente.

De que forma?
Ouço o avesso disso. A clínica é o backstage desse circo. Um exemplo: as mulheres nem podem mais ter filhos em paz. Tem que pensar qual vai ser a roupa, a foto, a lembrancinha. E o pós-parto é um momento difícil, como o período da amamentação. Aí a pessoa chora quatro meses sem parar, tem depressão pós-parto. Não se pode nem sofrer e nem envelhecer em paz.

E o afeto, onde fica?
É o ponto crucial. Esse é o nosso problema. Por que a psicanálise funciona? Porque falar transforma uma pessoa. Simples assim. E por que isso acontece? Porque a fala, a linguagem e a maneira de se expressar estão ligadas ao afeto. Isso é uma das bases do que Freud cifrou. A psicanálise funciona porque sentimos e falamos. E, se fazemos isso a partir de uma posição apropriada, não tem como não ter uma transformação e caminhar numa direção que te leve a sofrer menos com o que você mesmo causa a você. Quando chega um paciente na análise, normalmente é alguém que já está desconfiado que aquilo que ele sofre tem a ver com ele mesmo. E existe essa vontade de saber o que é isso.

Pode ser que a gente venha a viver melhor?
Sim! E não digo isso de maneira ingênua, mas acho que existe essa possibilidade, mesmo com a nossa cultura não favorecendo isso por si só. /

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